O silêncio da madrugada no Vidigal era diferente. Não é o silêncio de uma cidade que dorme, mas o silêncio de um bicho que fica atento.
Eu estava naquele estado de alerta que o crime me ensinou: meus olhos estavam fechados, mas meus ouvidos mapeavam cada estalo da estrutura do postinho e o som da respiração da Manu, qualquer mudança, eu iria perceber.
Por volta das três da manhã, senti o corpo dela mexendo ao meu lado. Ela começou a se mexer devagar, percebi que ela não queria me acordar, porém antes dela respirar mais pesado, eu já tava pegando a pistola na cômoda - algo que era instinto próprio, antes de lembrar que ali, naquele quarto, eu precisava ser apenas o Ravi.
— Tá tudo bem, pequena? — perguntei, a voz grossa e arrastada pelo início de sono.
Manu se assustou um pouco, os olhos de mel brilhando no escuro.
— Oi... desculpa te acordar. É que... me deu sede. E um pouco de frio.
— Não pede desculpa por nada, já te falei — respondi, me sentando na beirada da maca.
Levantei, desci da maca, sentindo o chão gelado. Peguei uma garrafa de água, que estava na mesa e abri, entregando para ela. Fiquei olhando ela beber. Ela bebia com vontade, como se tivesse medo que a garrafa foi tirada dela a qualquer momento. Eu conhecia medo.
Reparei que ela tinha medo ainda, porém percebi que tremia levemente por causa do ar gelado.
— Espera aí. Esse pano de hospital não esquenta nem pensamento.
Quando dei aquele pulo em casa mais cedo, não peguei só a troca de roupa; eu tive a visão de que ela ia precisar de conforto. Fui até a poltrona e peguei a bolsa de viagem que eu tinha deixado ali. Abri o zíper e puxei o meu edredom preto, que eu tinha trazido comigo. Ele ainda tinha o cheiro da minha casa, o cheiro do meu quarto.
Arranquei aquele lençol áspero do hospital com um movimento só e joguei o edredom por cima da Manu. Ela soltou um "ah" de satisfação quase instantâneo quando o peso da coberta caiu sobre ela, abraçando o corpo frio. Eu queria que ele tivesse a tranquilidade de casa, mesmo estando em um hospital.
Me enfiei de volta na maca, que agora, com aquele edredom, parecia um ninho. Passei meu braço por baixo da cabeça dela, trazendo-a para perto, ficando frente a frente. Eu sou muito mais alto que ela, então minha estrutura acabava envolvendo o corpo dela quase por completo. Passei o outro braço pela cintura, puxando-a para o meu peito, deixando-a presa entre meus braços e o calor do meu corpo. Era uma redoma de carne, osso e proteção.
Manu ficou em silêncio por um tempo, sentindo o calor voltar, mas de repente ela desviou o olhar, parecendo pensativa e um pouco desconfortável.
— Ravi... eu não queria causar problema.
— Que problema, pequena?
— Vai pra casa... não quero que a sua namorada ou sua mulher fique com ciúmes de você estar dormindo aqui no hospital comigo.
Eu olhei para baixo, encarando o fundo dos olhos dela. Senti uma pontada de amargura por ela pensar, mesmo que por um segundo, que eu teria colocado outra pessoa no lugar que sempre pertenceu a ela, mesmo sem entender nada aos 14 anos, eu já sabia.
— Olha pra mim, Manu — falei, a voz firme, sem margem para dúvida. — Eu não tenho mulher. Eu não tenho namorada. A única mulher da minha vida, a única que eu sempre esperei, tá bem aqui na minha frente. O resto... o resto não passa de pu.ta. Diversão de uma noite pra tentar apagar um incêndio que não apagava. Você é a única. Sempre foi.
Ela soltou um suspiro trêmulo e se aconchegou mais, colando o nariz no meu peito. Puxei o edredom até o pescoço dela, cobrindo-a bem contra qualquer fresta de vento.
— Tá esquentando agora? — perguntei, passando a mão no cabelo dela.
— Tá... tá muito bom.
Ficamos em silêncio, apenas o som da respiração um do outro. A curiosidade me matava, o ódio por quem fez isso com ela me consumia, mas eu sabia que não podia forçar a barra.
— Manu... o que aconteceu, pequena? De onde você veio com aquele pé naquele estado?
Ela fechou os olhos e apertou minha regata com os dedos pequenos.
— Ravi... a gente pode conversar depois? Eu só... eu ainda sinto que se eu falar, eu volto pra lá. Eu preciso de um tempo pra acreditar que eu tô aqui de verdade.
Eu senti uma vontade absurda de sair caçando quem quer que tivesse causado esse trauma, mas apenas passei a mão no rosto dela, tirando uma mecha de cabelo do olho com o polegar.
— Tá bom. No seu tempo. Quando você tiver pronta, você fala. Eu não vou te pressionar. Minha prioridade é você inteira, de corpo e de mente.
Manu me agarrou com mais força, escondendo o rosto. A corrente brilhava no pescoço dela e eu gostava daquilo. Gostova de ter essa posse.
— Dorme, pequena. Eu vou continuar bem aqui. Não vou nem fechar o olho se você não quiser.
— Eu senti tanta saudade, Ravi... — ela sussurrou, a voz já sumindo pelo cansaço e pelo alívio do calor. — Às vezes eu fechava os olhos e tentava lembrar do seu rosto pra não desistir. Eu lembrava da promessa da corrente.
— Eu também senti, Manu. Todo santo dia. Mas agora acabou. Nada nesse mundo vai te tirar de mim de novo. Eu queimo essa cidade inteira antes de deixar alguém encostar um dedo em você. Pode descansar.
Ela se ajeitou no meu peito, se escondendo no edredom como se tivesse numa proteção, num mundo paralelo. O cheiro de banho dela, o cheiro do edredom, era a combinação perfeita que mexia comigo. Dei um leve sorriso, beijando o topo da cabeça dela. Se eu não tivesse segurando ela, talvez eu nem soubesse que ela estivesse ali, no meio de tudo.
Eu apertei ela contra mim, com cuidado por causa da cirurgia no pé, mas com a posse de quem finalmente recuperou sua alma. Olhei para o teto do postinho, sentindo o peso do que vinha pela frente. Eu nunca deixei nenhuma mulher se aproximar de mim assim.
Minha cama sempre foi um lugar sagrado, meu coração era uma terra gelada onde ninguém plantava nada. As minas que passavam pela minha vida sabiam que eu era o Titã, o cara que dava dinheiro, mas que nunca dava o braço para dormir ou o edredom favorito para cobrir - eu não beijava, não fazia nada. Era só meter e tchau.
Mas com a Manu... com ela, eu era apenas o Ravi. A única que merecia estar ali, protegida pelo meu braço e aquecida pelo meu edredom, era ela.
Passei a mão pelas costas dela por cima da coberta, sentindo o relevo das cicatrizes que eu tinha visto durante o banho. Cada uma daquelas marcas era uma promessa de vingança que eu ia cumprir. Encostei meu rosto no topo da cabeça dela, fechando os olhos por um segundo, sentindo que o mundo finalmente tinha voltado para o eixo.
— Você tá em casa, pequena — sussurrei para a escuridão do quarto. — Tá com quem te ama de verdade. Minha menina... nada te toca enquanto eu respirar. Eu tô aqui com você.