O relógio marcava sete da manhã quando acordei. Senti um calor diferente, um peso bom contra meu corpo, um arzinho que batia no meu pescoço que eu não sentia há uma década.
Manu estava grudada em mim, a cabeça enterrada no meu peito. Durante a noite, ela não se mexeu nada. O corpo dela relaxou e vi que ela embalou num solo profundo, calmo, mas a todo momento querendo ter certeza que eu estava ali.
Olhei para baixo e dei um sorriso. O edredom tinha sumido com ela inteira. Com todo o cuidado do mundo, levei a mão até a borda da coberta e puxei devagar para descobrir o rosto dela e deixar ela respirar melhor.
No mesmo instante, o corpo dela deu um pulo. Foi um reflexo feio de ver. Ela não abriu os olhos; em vez disso, encolheu os ombros e levantou as mãos para proteger a cabeça.
— Não... por favor... — ela murmurou, a voz fraquinha e rouca. — Não bate... eu já acordo... não bate em mim.
Aquelas palavras entraram no meu peito como um tiro. Eu segurei as mãos dela com firmeza, mas com uma calma que nem sabia de onde vinha, queria que ela sentisse meu toque.
— Manu! Ei, pequena... olha pra mim. Sou eu. É o Ravi. Ninguém vai encostar o dedo em você, tá ouvindo? Nunca mais. Abre o olho, tá tudo bem.
Ela foi relaxando aos poucos. Quando os olhos de mel finalmente focaram no meu rosto, o pânico sumiu. Ela soltou um suspiro longo e se escondeu de novo no meu pescoço, respirando fundo.
— Desculpa... eu sonhei que eles estavam vindo — sussurrou ela.
Passei a mão no rosto dela, tirando os fios de cabelo da testa com o polegar. Senti o ódio borbulhando por quem causou isso, mas mantive a voz suave.
— Quem batia em você, Manu? Fala pra mim, pequena. Pode confiar.
Ela continuou escondida, o corpo tremendo de leve.
— Eles... eles acordavam a gente assim. Batendo, gritando... se a gente não levantasse rápido, eles batiam mais. Eu tenho medo do barulho, Ravi. Muito medo.
Eu não perguntei mais nada. Abracei ela apertado, deixando claro que eu era o seu porto seguro. Quando senti que ela se acalmou, me afastei um pouco pra olhar pra ela.
— Escuta, você quer café da manhã? Vou dar um pulo na padaria aqui do morro, pegar coisa gostosa pra você. Você me espera aqui, quietinha? Quer alguma coisa em especial?
Ela me olhou com uma timidez que doía.
— Eu queria... — ela disse baixinho, segurando a ponta da minha regata. — Você... você pode comprar pão de queijo? Se não for difícil...
Dei um sorriso de lado, sentindo um nó na garganta. Pão de queijo. Era isso que ela queria.
— Claro que sim, pequena. Trago o saco cheio. Já volto.
Levantei, tomei uma ducha rápida pra despertar e vesti a bermuda e a regata limpa. Antes de sair, dei um beijo carinhoso na testa dela.
— Dez minutos. Eu já volto pra gente comer.
Na porta, o 2K e o outro soldado estavam de prontidão.
— Pega a visão: ninguém entra aqui. Entendeu? Nem médico, nem enfermeira. Se alguém encostar nessa maçaneta antes de eu voltar, o bicho vai pegar. Fica na atividade.
Desci, montei na moto e passei rápido na boca pra falar com o Trava.
— E aí, Titã? — Trava encostou. — Como tá a mina?
— Operou, tá recuperando. Vou ficar lá com ela. Como tá o morro?
— Tudo em ordem, irmão. Pode focar nela. Qualquer coisa eu grito no rádio.
Concordei e acelerei para a padaria. O sol já batia forte. Entrei e o padeiro já se prontificou.
— Bom dia, Titã!
— Quero pão de queijo, muito. Pão na chapa com bastante manteiga, suco de laranja e um café preto pra viagem. Agiliza aí, amigão.
Enquanto esperava, ouvi risadinhas. Vi a Mariana entrando com umas amigas. Ela era uma dessas minas que eu ficava às vezes, coisa rápida, sem beijo, sem nada. Só sexo pra desestressar e eu pagava o que tinha que pagar. Ela veio na minha direção, tentando ser íntima, e encostou a mão gelada no meu braço.
— Oi, amor... que saudade. Sumiu, né?
Eu nem me mexi, mas minha voz saiu firme.
— Tira a mão de mim, car.alho! Agora.
— Nossa, Titã, que mau humor... tô com saudades do nosso tempo. Deixa eu te ajudar a aliviar essa tensão...
Virei o rosto pra ela com o olhar que fazia o morro tremer.
— Escuta bem, Mariana, porque só vou falar uma vez. Para com essa por.ra de "amor". Eu nunca fui teu nada. Eu só te fodo e pago, entendeu? Não entra no meu caminho e não me procura mais. Se encostar em mim de novo, a gente vai ter um problema sério. Sai da frente.
Ela empalideceu. Peguei as sacolas, passei por ela batendo o ombro com força e ela cambaleou no balcão. Montei na moto e voei pro postinho.
Quando cheguei no corredor, vi a porta encostada. O 2K estava ali com cara de tacho. Eu voei nele, segurando pelo colarinho.
— Que p***a é essa porta aberta, 2K? Eu falei o quê pra você? Porr.a!
— Patrão, calma! Ela gritou, tava pedindo uma enfermeira. Eu não sabia o que fazer, ela tava gritando. Tem enfermeira lá dentro, só deixei entrar porque achei que ela tava passando m*l.
Larguei ele e entrei no quarto igual a um bicho, pistola na mão. Joguei as coisas na mesa e vi a enfermeira saindo do banheiro.
— Que por.ra tá acontecendo aqui? — gritei.
— Calma, patrão! Ela pediu ajuda! Queria usar o banheiro e tomar banho. A gente só ajudou! Ela tá terminando ali dentro!
Guardei a arma, o peito subindo e descendo.
— Sai daqui. Agora. Fora!
Fui até o banheiro e abri a porta. Manu estava no banquinho, a enfermeira fechando o chuveiro. Quando a Manu me viu, tentou levantar rápido e quase caiu.
— Você devia ter me esperado, pequena! — falei, entrando no box de uma vez e segurando ela. Olhei pra enfermeira: — Sai. Agora. Se entrar de novo aqui, com ela, sozinha, eu vou mandar pra salinha! Avisa geral.
A mulher saiu correndo. Peguei a Manu no colo com todo o cuidado, sentindo o cheiro do sabonete de flores. Levei ela pra maca, peguei minha camiseta limpa e comecei as pernas dela com a toalha, bem devagar.
— Você é muito bravo, Ravi — ela disse baixinho, me olhando com aqueles olhos de mel. — Eu queria usar o banheiro, não queria te dar trabalho. Tomei banho com elas... eu sei que você tem muita coisa pra fazer. Você manda no morro todo, não pode morar num hospital por minha causa.
Eu parei o que estava fazendo e olhei no fundo dos olhos dela, suavizando a expressão. Comecei a vestir a camiseta nela com cuidado, ajudando a passar os braços, e depois a cueca box por baixo pra ela ficar confortável. Só tirando a toalha, quando ela estava vestida.
— Manu, presta atenção — falei, sentando na beirada da maca e pegando as mãos dela. — Eu não sou bravo com você, eu sou bravo com o mundo porque eu quase te perdi. Eu não confio em ninguém perto de você ainda. Nem enfermeira, nem ninguém. Eu quero cuidar de você, tá entendendo? Não é trabalho nenhum. Se você precisar de qualquer coisa, espera por mim. Eu faço questão de fazer tudo.
Ela abaixou a cabeça, corada, mas com um sorrisinho de canto.
— Tá bom... desculpa.
— Não pede desculpa, pequena. Eu tô aqui porque eu quero estar. Agora, olha o que eu trouxe.
Peguei o saco de pão de queijo e coloquei no colo dela. Ver ela dar uma mordida e fechar os olhos de prazer fez toda a minha raiva sumir. Eu ia ficar ali, naquela poltrona, o tempo que fosse necessário. O mundo lá fora podia ser meu, mas o meu mundo de verdade estava sentado naquela maca de hospital, usando a minha camiseta e comendo pão de queijo. E ninguém, nunca mais, ia chegar perto dela pra fazer ela sentir medo de novo.