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1310 Palavras
Eu ficou olhando meu reflexo no espelho do meu closet enquanto ajusto o colar de pérolas legítimas sobre o pescoço. Se alguém olhasse para esta cena, veria apenas a imagem da perfeição: Renata Vasconcelos, a socialite filantropa, a esposa dedicada, que deseja fazer o bem sem ver a quem. É uma imagem cara, construída com muito cuidado e mantida com uma frieza que poucas pessoas no meu círculo teriam estômago para sustentar. Mas a realidade é muito mais lucrativa do que a aparência. O Eduardo entra no closet, terminando de dar o nó na gravata. Nós nos olhamos pelo espelho. Não há amor ali, nunca houve. O nosso casamento é um contrato de conveniência, uma fachada perfeita para "ficar bonito" nas colunas sociais e nas fotos de eventos beneficentes. Somos sócios em uma empresa onde o produto não é petróleo, nem ações na bolsa. O nosso produto é carne. Carne jovem, vulnerável e altamente rentável. O dinheiro que entra é por baixo dos panos, um esquema perfeito de compra e venda, melhor que o mercado imobiliário ou qualquer outra negócio. E eu adoro cada centavo dele. — A Marta ligou? — pergunto, passando um batom nude que custa mais do que o salário anual de uma doméstica. — Ligou. O orfanato está com três "peças" novas. Duas de dez anos, uma de doze. A Marta diz que são perfeitas. Cabelos claros, histórico médico limpo. — Eduardo responde, com aquela voz tranquila, como se decidisse onde iria jantar. A Marta Guedes é uma peça fundamental. Como diretora daquele orfanato de fachada, ela facilita tudo. Nós "adotamos" legalmente as meninas, preenchemos a papelada com juízes que estão na nossa folha de pagamento, e depois de algumas semanas na nossa mansão, elas são devidamente "preparadas" — elas simplesmente desaparecem. Vendidas para compradores no exterior ou para moradores locais de alto nível. Depois que o dinheiro cai na conta, elas podem ser levadas por qualquer pessoa, para qualquer lugar. O destino delas não me interessa; o que me interessa é o valor pago e o dinheiro na conta. Mas hoje, o clima na mansão não é de celebração. Tem uma pequena falha no negócio. — Já faz mais de uma semana, Eduardo. — Falo, virando pra ele. — A Manuela sumiu. Aquela garota estúpida conseguiu fugir e nós ainda não temos uma pista sequer. — Eu sei, Renata. Eu já mandei os seguranças procurar em tudo, assim como a policia. Ela estava machucada, não pode ter ido longe. — Ele tenta soar calmo, mas vejo o suor na testa dele. — "Não pode ter ido longe"? Ela sumiu há oito dias! Se ela abriu o bico para as pessoas erradas, se ela foi parar em uma delegacia que não controlamos, o nosso esquema inteiro corre perigo. Você tem noção do que o Raul vai fazer conosco se a polícia bater naquela porta por causa de uma órfã de mer;da que você não conseguiu manter trancada? A Manuela era um investimento alto. Ela tinha algo diferente, uma beleza que o Raul Medeiros queria para um cliente específico. E agora, ela é uma ponta solta. Uma ponta solta que pode nos enforcar. Eduardo bufa, irritado, e pega o celular em cima da cômoda. Ele sabe que chegamos ao limite da nossa capacidade de busca silenciosa. Precisamos de gente que conheça o esgoto da cidade, gente que não usa terno, mas que tem olhos em cada esquina. Ele disca um número que raramente usamos. O telefone chama três vezes antes de ser atendido. — Barão? É o Vasconcelos. — Eduardo fala, e eu me aproximo para ouvir. — Tivemos um problema doméstico. Uma mercadoria fugiu. Uma menina, dezesete, dezoito anos, morena, cabelos escuros. Ela está machucada no pé. Preciso que você coloque seus olhos na rua agora. Quero ela de volta, ou pelo menos a localização exata de onde ela se escondeu. A voz do outro lado da linha é um chiado rouco, sombrio. O Barão é o tipo de homem que você não quer conhecer pessoalmente, mas que resolve problemas que o dinheiro oficial não paga - ele também estava no esquema. — Entendido, Vasconcelos. — Barão responde, seco. — Morena, dezoito, pé machucado. Se ela estiver na rua, eu vou achar. Meus homens conhecem cada buraco de rato desse Rio de Janeiro. Vou dar o alerta geral. Entro em contato quando tiver um rastro. Eduardo desliga o telefone e me olha. Ele ainda parece inseguro. Ele sabe que o Barão é eficiente, mas sabe que o topo da pirâmide é mais perigoso. — Agora a parte difícil. — Ele diz, suspirando. Ele clica no contato de Raul Medeiros. O silêncio no quarto é intenso enquanto o telefone chama. Raul não é apenas nosso parceiro; ele é o dono do jogo. Ele é quem faz as pontes internacionais, quem controla os portos e quem decide quem vive e quem morre se o lucro cair. — Raul. — Eduardo fala, a voz levemente trêmula. — Sim, sobre a Manuela... ainda não a pegamos. Mas eu acabei de acionar o Barão. Ele já colocou a rede dele pra trabalhar. É questão de tempo até acharmos ela. Houve uma pausa longa do outro lado. Eu não conseguia ouvir a voz de Raul, mas vi o rosto de Eduardo empalidecer. Ele apenas concordava com a cabeça, repetindo "sim, senhor" e "com certeza". Quando ele desligou, parecia que tinha envelhecido cinco anos. — O que ele disse? — perguntei, cruzando os braços. — Que se o Barão não achar a garota, ele mesmo vai resolver o problema. E que, se ele tiver que intervir pessoalmente, nós deixaremos de ser sócios... Eu senti um arrepio subir pela espinha. Raul não faz ameaças vazias. — Aquela garota... — comecei a andar de um lado para o outro, o salto agulha batendo com força no chão. — Ela era tão quieta, tão submissa. Como ela teve coragem? Ela não tem ninguém no mundo! Para onde ela iria? — Ela pode ter ido para o Vidigal, porém ela não tem família lá. Já tem anos que ela saiu. — O Vidigal... — murmurei. — Se ela subiu aquele morro e falou com quem não devia, estamos mortos. Eu olhei para o espelho mais uma vez. A imagem da perfeição estava lá, mas os olhos... os olhos entregavam a tensão. Eu não ia deixar dez anos de trabalho e milhões irem pelo ralo por causa de uma menina órfã. Se a Manuela achava que a liberdade era uma opção, ela estava muito enganada. Se o Barão não trouxesse a Manuela de volta para que pudéssemos dar um fim definitivo a essa história, eu mesma daria um jeito de garantir que ela nunca mais abrisse a boca. — Eduardo, ligue para a Marta. — ordenei — Diga a ela para limpar todos os arquivos da Manuela no orfanato. Se o Barão achar o rastro dela no morro, nós vamos precisar de uma história de cobertura impecável. — E se ela estiver com alguém poderoso lá em cima? — Eduardo perguntou, guardando o celular. Eu dei um sorriso c***l, retocando o brilho nos lábios. — Ninguém é mais poderoso do que a gente, Eduardo. No final das contas, todo mundo tem um preço. E se não tiverem um preço, têm um ponto fraco. Vamos torcer para o Barão ser rápido. Eu odeio quando os meus móveis saem do lugar, e a Manuela é um móvel que precisa voltar para o depósito. Saímos do closet lado a lado. Na sala, a governanta já servia o café em xícaras de porcelana. Sorrimos um para o outro enquanto passávamos por ela, o casal perfeito iniciando mais um dia de sucesso. O Rio de Janeiro continuava lindo lá fora, mas debaixo de todo aquele sol, a sombra que nós alimentávamos estava começando a crescer, e eu não pretendia ser engolida por ela.
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