A jaula de ouro

686 Palavras
A noite avançava silenciosa, mas em um bairro afastado da cidade, o caos se aproximava sem pedir licença. Dois carros pretos, de vidros totalmente escuros, estacionaram a uma quadra da casa de Roberta e Anderson. Gabriel desceu primeiro. Usava luvas, roupas táticas e o rosto parcialmente coberto. Seus homens fizeram o mesmo. Não havia pressa. Tudo estava cronometrado. A casa estava iluminada. A televisão ligada na sala denunciava que o casal ainda estava acordado. — Agora — murmurou Gabriel. A energia foi cortada. Em seguida, a porta dos fundos cedeu com um estalo seco, preciso, quase elegante. Em menos de vinte segundos, a casa estava dominada. — O que está acontecendo?! — Anderson levantou do sofá em pânico ao ver os homens armados invadindo o ambiente. — Quem são vocês?! — Roberta gritou, agarrando-se ao marido. — A gente não tem dinheiro, levem tudo, por favor! Gabriel ergueu a mão, impondo silêncio. — Calem a boca. Cooperem e tudo termina rápido. Dois homens renderam o casal no chão. Outros começaram a vasculhar a casa com eficiência cirúrgica. Celulares. Notebook. HDs externos. Pen drives. Documentos. Nada ficou para trás. Roberta chorava descontrolada. — Isso é só um assalto, não é? Pelo amor de Deus… levem tudo… mas não machuquem a gente… Gabriel se agachou diante dela. A voz saiu calma demais para a cena. — Foi exatamente isso que aconteceu, senhora. Um assalto. Ele se levantou e fez um leve sinal com a cabeça. Os disparos vieram em sequência. Silenciosos. Precisos. Sem hesitação. Roberta e Anderson tombaram lado a lado no chão da sala. Nenhum grito. Nenhuma chance. Depois, os homens espalharam objetos, reviraram gavetas, quebraram um vidro da janela. O cenário perfeito de uma invasão comum. Limpo. Calculado. Missão encerrada. Do lado de fora, Gabriel ligou. — Chefe, feito. — Ótimo — respondeu Marlon, do outro lado da linha, em tom sereno. — Levem os dispositivos para a empresa. Quero tudo aberto. Cada mensagem, cada rascunho, cada ligação. Relatório completo. — Amanhã cedo estará tudo pronto. — Eu estarei lá. Marlon desligou. Nenhum peso na consciência. Apenas mais uma peça removida do tabuleiro. --- De volta à mansão, ele entrou no quarto em silêncio. Ellie dormia profundamente, os cabelos espalhados pelo travesseiro, o corpo relaxado como o de alguém que se sentia segura. Protegida. Marlon deitou-se ao lado dela, puxando-a para o peito com cuidado. Beijou o topo de sua cabeça. — Agora está tudo certo… — murmurou. — Você está segura. Dormiu tranquilo. Como alguém que tinha controle absoluto sobre o mundo. --- O dia amanheceu cinzento. Na sede da empresa, um prédio imponente de fachada espelhada e acesso restrito, Gabriel já o aguardava. Em uma sala fechada, telas exibiam o conteúdo extraído dos aparelhos. — Eles desconfiaram — explicou Gabriel. — Gravaram um vídeo dizendo que viram a Ellie viva. Pretendiam enviar para um advogado… e para a mãe dela. O maxilar de Marlon se contraiu. — Enviaram? — Não. Tudo ficou salvo como rascunho. Nenhuma mensagem saiu. Marlon assistiu ao vídeo em silêncio. Pausou antes do fim. — Apaguem tudo. Destruam os dispositivos. Quero os restos incinerados hoje. — Já está providenciado. — E rastreiem qualquer pessoa próxima a eles. Se houver qualquer risco… — ele não concluiu. Gabriel assentiu. — Entendido. --- Quando Marlon voltou para casa, encontrou Ellie descendo as escadas, usando uma camisola clara, o rosto tranquilo demais para alguém que vivia cercada por segredos. — Bom dia, meu amor — ela disse, sorrindo. Ele a abraçou, beijou sua testa. — Dormiu bem? — Muito. Ainda tô pensando no nosso jantar… Ela hesitou antes de perguntar: — Você conseguiu saber da minha mãe? Marlon segurou o rosto dela com delicadeza, olhando nos olhos. — Está tudo bem com ela. Ninguém entrou em contato. Você pode ficar tranquila. E ela ficou. Ellie acreditava. Confiava. Se entregava. O que ela não sabia era que, enquanto dormia, ele apagava vidas. Que a segurança que sentia era construída sobre sangue, silêncio e medo. Ela estava protegida. Mas dentro de uma jaula de ouro. E o homem que a amava… era também o seu carcereiro.
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