— Não precisa colocar um pilar aqui, porque ele já existe— explicou — Ou demolimos a parede e mantemos ele lá, ou trocamos por uma viga.
— Visualmente, eu prefiro a viga, mas financeiramente falando, manter o pilar será melhor.
— Veja com os clientes, de repente, eles gostam da ideia.
— Verei — fechei meu laptop — Então eu já vou, obrigada — me levanto da cadeira — Ah, sua sala é incrível — não pude deixar de falar.
— De nada Anne e obrigado também — sorriu — fiz esse cantinho para me distrair e trabalhar.
— Te peço perdão pela invasão, eu estranhei você não estar na empresa, isso não é comum.
— Eu tive uma consulta médica.
— Está tudo bem? — perguntei.
— Sim, foi somente uma consulta de rotina — respondeu — Assim que cheguei, comecei a jogar e acabei ficando longe do celular. Não acontecerá de novo, poderia ser algo grave.
— Mas não foi! Eu agi por impulso.
— Você fica me devendo uma e fica tudo certo.
— Combinado! — fito o computador gamer dele.
— Você gosta?
— Não tenho muita prática, mas amo assistir os outros jogando — disse — O que eu não esperava é que você gostava.
— Me ajuda a distrair — afirmou sucinto.
— Parece um bom método, acho que vou implantar na minha vida.
— Se quiser, te ajudo a escolher!
— Não precisa — neguei.
— Eu tenho me perguntado, o que eu te fiz?
— Nada.
— Como nada? Você é extremamente fechada!
— Não sou.
— Claro que é, eu só te ofereci ajuda, não vou te s********r ou fazer nenhum m*l.
— Eu sei que não vai.
— Então, por que toda essa relutância? — perguntou-me e eu não respondi — No começo eu sei que fui um pouco injusto com você, não vou negar.
— Só injusto? Foi petulante e só faltou falar que eu era burra — o sangue subiu.
— É meu jeito.
— Te aconselho a mudar, pois, isso não é forma de tratar ninguém, principalmente uma pessoa que m*l conhece.
— Você estava atrasada, Anne!
— Eu estava trabalhando, é diferente.
— Não era seu serviço, principalmente naquele momento.
— Não importa — fiz de tudo para não ter que explicar a situação como aconteceu, não queria prejudicar Laurine — A forma que me tratou foi ridícula. Duvidou da minha competência.
— Eu não te conhecia, agora eu sei...
— A decisão do Seu Montez que se exploda então né? — diferente da nossa primeira discussão, eu não segurei a bola — E se isso não foi o suficiente para você, naquela praça, o que tentou fazer? Tirou meu fone! Ofendeu-me de graça! Foi xenofóbico!
— Eu não sou xenofóbico! — o tom de voz dele subiu.
— Ah não? Então me explica o que foi aquilo? — peguei meu laptop e minhas chaves — Não, não, melhor... Não me explique nada, não quero saber! — desci as escadas freneticamente e segui para casa.
— Anne! — ele chamou, mas eu já tinha fechado a porta — Anne! — tocou a campainha — Não seja infantil! Vamos esclarecer isso — ouvi a voz mais baixa por conta da porta e depois um silêncio.
Acho que ele desistiu. Anne, o que você está fazendo? Isso não faz parte de quem você é.
— Anne — me assustei — Não devia ter subido o tom de voz com a senhorita, te peço desculpas.
Tentei imaginar como ele teria entrado, entretanto, percebo o quão óbvio seria a resposta. Assim como eu, ele também tem chaves reservas.
— Sente-se — apontei para o sofá — Te peço desculpas também. Agi de maneira infantil — confessei, é duro “m***r” o orgulho.
— Eu compreendo seus motivos — acomodou-se no sofá e eu fiz o mesmo — Fui tão invasivo quando tirei seu fone naquele dia, sinto-me extremamente envergonhado com minha atitude — suspirou — Além de agir impulsivamente, tive a coragem de insultá-la. É claro que isso te deixaria constrangida e magoada.
— Eu te juro que na hora, não entendi o que fiz de errado, por isso na hora também retribui seu insulto, o ponto é que acabei criando uma visão negativa de você.
— Estranho seria se tivesse criado uma visão positiva de mim, não é? — ele acabou rindo — Eu preciso te garantir que não sou xenofóbico! Acontece que, como deve saber, embora o ballet não tenha sido criado na França, ele sempre será nosso querido, não é à toa que os movimentos são ditos em francês. Então, quando te vi com fones, em vez de apreciar a apresentação com a música correspondente, me fez agir sem pensar.
— Não sabia que era tão importante para você.
— Nem eu. Mesmo sabendo o quanto admiro a cultura do meu país, percebo que passei dos limites — ele me olhou firmemente — Minha sorte foi que depois te encontrei e tive a chance de te pedir desculpas, mas poderia ter sido com outra pessoa, que jamais veria de novo e pior, teria tido a mesma visão que você teve.
— Eu agradeço de verdade, seu esclarecimento.
— É o mínimo que podia fazer — suspirou — Temos que nos dar bem, para meu tio, você é muito importante!
— E ele para mim.
— No começo, eu não queria acreditar que você era realmente boa. A verdade, é que meu tio me assustou quando disse que mandaria alguém para me ajudar — disse sinceramente — Meu sentimento na hora foi: não sirvo para nada então. Até você chegar e mostrar sua competência, na primeira vez que conversamos, na minha sala, você agiu de uma forma tão segura e sem medo, mostrando estar disponível — acrescentou — Tinha uma resposta na ponta da língua para tudo o que eu falava. Foi bem impressionante.
E nessa hora, o silêncio pairou — aparentemente eu não tenho sempre uma resposta na ponta da língua como ele apontou — estou completamente sem palavras, John é zero orgulhoso e se abriu sem medo para mim agora. Acho que nunca conheci ninguém assim, que rompesse o orgulho e admitisse os erros.
— Desculpe, eu falei muito e acabei não deixando você falar...
— Eu estou um pouco pasma, eu diria.
— Pasma?
— É que eu nunca conheci ninguém que fosse tão vulnerável assim, quero dizer, não de forma espontânea.
— É... A verdade é que eu detesto que me entendam m*l, então sempre procuro explicar o que aconteceu.
— O mais intrigante é que não se parece com o John que conheci antes, parece alguém com que facilmente eu faria amizade.
— Fico feliz em ouvir isso.
— Eu também — concordo — pelo visto papi não estava errado quando me disse que nos entenderíamos.
— Já notou como ele nunca está errado?
— Você também tem essa sensação?
— Sim! O tempo inteiro — afirmou.