Não reparei que horas, John saiu daqui ontem, mas lembro de estar com bastante sono quando ele resolveu sair.
— Você está pescando já — disse após, meus olhos terem se fechado por mais tempo do que o normal.
— Eu nem estou com tanto sono assim — respondi sem muita segurança.
— Aham, estou indo Anne — se levantou — Foi bem legal conversar com você, até amanhã — acenou e caminhou até a porta.
Logo que ele foi embora, acredito que eu tenha dormido em seguida — o sofá estava bem confortável e eu estava esgotada!
Sai mais cedo de casa, corri tanto que só depois que cheguei à cafeteria em frente a empresa que notei o quanto a corrida fora desnecessária, julgo que o fato de estar tentando me localizar sozinha sem precisar da ajuda de um GPS, fez com que eu pensasse que poderia me atrasar, se possivelmente me perdesse, no fim das contas meu objetivo de caminhar e conhecer minha cidade, foi por água abaixo na primeira tentativa.
Pedi um latte com baunilha, o favorito de Liz, de certo modo me faz estar perto dela, nesse momento imagino o quanto deve estar atordoada, com o tanto de decisões que precisa tomar — ela dá conta, tenho muita certeza disso.
Nossas melhores conversas duravam a madrugada toda, planejando um futuro incerto, um futuro cor-de-rosa, onde todos os nossos sonhos se realizariam desde que a gente tomasse partida. A realidade foi um pouco diferente de como imaginamos, todavia, não foge da base que montamos, é que fora do nosso quarto, existe um mundo, que assim que tomamos partida rumo à linha de chegada, escancara os obstáculos monstruosos.
— Canapés? — questionei Liz pelo telefone — Quem em sã consciência come isso espontaneamente?
— É quase lei em casamento, Anne — sua voz mostrava estar emburrada.
— Você come?
— Comi uma vez!
— O Chris gosta? — tomei o último gole do latte.
— Não perguntei.
— Oi? — eu ri — Assim não dá para te defender, sério.
— Você está fazendo esse discurso só porque não gosta — afirmou.
— Entenda, ninguém gosta, pelo menos não de verdade — disse — Ninguém acorda e diz “nossa, que vontade de comer canapés hoje!”. Só estou querendo dizer que, tem coisas melhores para se colocar em um cardápio, pense bem.
— Eu te disse — agora sua voz estava embargada — Eu não consigo tomar decisões sem você por aqui.
— Claro que consegue! Você só deve estar se sentindo sobrecarregada — expliquei — Peça ajuda ao Chris, o casamento é dos dois, mesmo que esteja organizando, ele faz parte tanto quanto você.
— Acho que vou enlouquecer — o choro piorou e os soluços de desespero chegaram — Como vou planejar tudo em dois meses?
— Não chore, por favor — comecei a me desesperar também — Eu entendi direito? Dois meses? — minha torcida era para ter entendido de forma errada devido os soluços.
— Na verdade, são dois meses e meio, mas o tempo tem passado tão rápido que não faz tanta diferença assim — sua voz se acalmou — Desculpe por isso, precisava desabafar um pouco, não gosto de chorar na frente do Chris, isso o deixa um pouco perturbado, tadinho, ele sofre junto.
— Na alegria e na tristeza, não é? — resolvi brincar em vez de surtar com os “dois meses”
— Sim, tem razão — riu — E como estão as coisas por aí?
— O foco é você.
— O foco é meu e eu coloco em quem eu quiser! Vamos, me conte tudo.
— A verdade é que achei um pouco rápido seu casamento.
— Anne, não acredito que você está mudando de assunto — esbravejou — Não tinha por que enrolarmos, já estávamos guardando dinheiro para o apartamento, a maioria dos móveis eu já tenho, só temos que juntar nossas coisas e pronto.
— Parece tudo encaminhado.
— Sempre esteve, só vamos oficializar, você sabe que eu sempre fui intencional e clara nos meus relacionamentos, se a pessoa não tinha perspectiva de casamento a conversa nem continuava.
Isso, com certeza é a coisa que eu mais admiro em Liz, quando o assunto são relações afetivas, ela tira de letra, suas opiniões são firmes e desenvoltas. Já eu, além de insegura, sou rápida em rejeitar qualquer pessoa que queira algo comigo.
— Onde vai ser?
— Em Fernando de Noronha, óbvio! — e era mesmo.
— Mas...
— Já sei o que está pensando — me cortou — A intenção é fazer um mini Wedding, só família e amigos próximos, que por acaso são os padrinhos. Minha mãe sugeriu dois padrinhos meus e dois padrinhos do Chris, achei perfeito.
— Ótima ideia, eu amei.
— A cor do vestido das madrinhas é vermelha! — me animei, a cor é fantástica!
— Será que você consegue chegar duas semanas antes? Só para provar seu vestido.
— Tudo depende de John, preciso informar a data para ele. Já está definida?
— 24 de julho.
— Esse é o número de vocês! — olhei para o relógio de parede — Opa, preciso desligar, vou entrar no trabalho.
— Ok! Um beijo — se despediu — Vou continuar a te mandar as informações por mensagem, preciso te deixar atualizada, te amo madrinha.
— Te amo, noiva.
*
É empolgante casar uma amiga, uma pessoa que cresceu com você, que partilhou suas conquistas, dores, dúvidas e todo o pacote que vem com a amizade. Se fosse há um mês, antes de chegar aqui, eu estaria dilacerada com meu egoísmo. Por muito e muito tempo culpei o Chris, declarava firmemente — nos meus pensamentos — que ele era o causador do nosso afastamento — entre mim e Liz — Porém, na verdade, eu era culpada, meu ciúme bobo e carente fez com que eu pensasse estar perdendo-a, enquanto, Chris estava aumentando a felicidade da minha amiga.
Sem Laurine por perto, meus devaneios são mais recorrentes — a mãe dela volta para Lille hoje e eu deixei a manhã livre para ela — me afundar nos projetos é a melhor coisa que posso fazer, assim, eu termino os últimos detalhes.
— Trouxe algo para você — a voz de John me assustou — O melhor bolinho da redondeza — me entregou uma sacolinha — Depois, preciso que vá até minha sala, preciso tratar algumas coisas contigo — virou-se e me deixou sem espaço para agradecimento ou demonstração da minha surpresa ao receber esse “mimo”? m*l sei definir.
Meus pensamentos morreram quando meu telefone começou a tocar — “Papi” dizia no visor.
— Alô? Papi? Amei receber uma ligação sua no meio do dia assim!
— Oi! Annelita, liguei para informá-la de algo importantíssimo.
— Como sempre, estou escutando.
— Preciso que volte ao Brasil, quanto antes.