— Como assim? — eu quase gaguejei, mas permaneci firme.
Prefiro sempre evitar cogitar o que os outros estão pensando, pois, na maioria das vezes, não é como eu penso.
— Oh querida, desculpe — ele riu — Não era para soar assim, você não voltará para o Brasil de vez, e não, ninguém adoeceu — por isso, que digo que não adianta precipitar nada, as coisas sempre são explicadas, às vezes entramos em desespero sem necessidade — Você sabe que meu irmão não gerencia mais as obras, mas ele ainda é meu sócio e tem cuidado de toda a parte financeira dos escritórios.
— Sim, sei — Ainda não estava entendendo
— Pois bem, conversei com ele a alguns dias atrás, e decidimos abrir uma filial aqui no Brasil, na região nordestina! Estamos recebendo muitos projetos de lá e eu não estou dando conta das viagens…
— É uma ideia incrível, vem na sua cabeça algum estado de lá?
— Pernambuco.
— Que coincidência, a Liz vai se casar lá por perto!
— Sério? Então as coisas estão conectadas né?
— Pelo visto, sim, mas ainda não entendi onde eu entro nessa história — expliquei.
— Eu conheço pessoas que podem gerenciar a filial de Pernambuco em Recife, mas alguém precisa treiná-los, passar a cultura da empresa, métodos de organização dos nossos dados, toda a parte operacional — disse — O que você acha?
Essa situação me pegou um pouco de surpresa, mas, percebo que, quase tudo que tem acontecido tem me surpreendido, acredito que seja o fato de eu estar vivendo um pouco desligada.
— Conta comigo — respondo.
— Perfeito, veja com John quando você pode vir e me avisa? — estava com muita saudade de receber uma ordem dele, chega até ser engraçado o jeito que ele faz — Não queria te ligar só para dizer isso, mas, tenho alguns compromissos. Prometo te retornar assim que puder! Estou com saudades!
— Eu também estou, é quase impossível viver sem vocês.
E tem sido difícil, eu tenho aguentado essa barra, mesmo amando conhecer novas pessoas, a cultura e tudo o que vi até agora, não n**o estar completamente louca para rever todos! Não imaginei que sentiria tanta saudade, não faz nem dois meses que estou aqui — como dizem, o trabalho nos distrai dos conflitos e problemas, posso dizer que funciona também com a saudade.
O que um bolinho pode fazer com a mente de alguém, não posso me dar o luxo de não vigiar meu coração, preciso me concentrar no meu objetivo: trabalhar, e ser excelente nesse ato. Contudo, não posso também deixar de criar paranoias relacionadas a entrega desse bolo, contrariando, tudo o que penso sobre não cogitar o que os outros querem fazer.
De maneira estilosa, avistei o caminhar de Laurine ao entrar no escritório, me fazendo esquecer um pouco do que os meus pensamentos insistem em me lembrar.
— Cheguei! — apoiou sua bolsa sobre a mesa e seu perfume exalou — O que eu perdi? Deu conta de tudo sozinha? Acredito que nunca me afastei daqui por tanto tempo — tagarelou, como sempre.
— Dei conta, sim, deixei somente os carimbos para você fazer, coisa simples — me levantei — Use aqui — apontei para meu computador — Já sabe, está na pasta de sempre... Já volto, vou comprar um café e depois, tenho uma reunião com John — expliquei enquanto procurava minha carteira na bolsa — Aceita um café ou outra bebida?
— Não, vim tomando um cappuccino — me mostrou o copo, eu não percebi — Obrigada por sua gentileza.
Sorri.
*
Atravessei a grande avenida no escritório e entrei na cafeteria — a mesma de hoje cedo — olhei a vitrine e não encontrei nenhum bolinho parecido. Desisti da busca ao ouvir a garçonete me perguntar se gostaria de algo para comer — não, eu não queria nada.
Saí de lá com três cafés na mão, passando primeiro na mesa de Laurine para entregar o primeiro deles, ela me olhou sem entender nada, já eu, segui meu caminho até a sala de John.
Bati três vezes seguidas na porta e girei a maçaneta, ao ouvir o barulho da porta, ele ergueu a cabeça a fim de saber quem era e sorriu.
— A que devo a honra de sua presença? — ele disse.
— Você não me chamou?
— Ah! Claro, que cabeça a minha, me distrai nesses esboços — levantou as folhas — O que acha?
— Demais! — foi o que consegui dizer, estava boquiaberta com o talento que ele possui — Nunca pensou em fazer arquitetura? Seus desenhos são ótimos.
— Desenho como hobby, faço poucas vezes — olhou para minhas mãos — E esses cafés?
— Cafés? Que cafés? — olhei para minhas mãos — Ah! Claro, esses cafés! — S O S — Trouxe um para você, estava te devendo uma, lembra-se?
— Você quis dizer, devendo duas, né?
— Não entendo.
— Te trouxe um bolinho hoje — o bendito bolinho — então, você me deve duas.
— Agora só uma — entreguei o café nas mãos dele — O que precisava falar comigo? — perguntei.
— Estava só planejando te mostrar esses esboços mesmo — deu um gole em seu café — O que achou do bolinho?
— Ainda não o comi.
Passei mais tempo pensando sobre o bolinho do que comendo.
— Como não? Não gosta do sabor? A maioria das pessoas gosta de chocolate — ele parecia perplexo.
— Eu só não tive tempo de comer, acabei esquecendo dele — menti.
— Tudo bem, não deixe de prová-lo — tomou outro gole do café — Se não tiver nada para falar, está liberada, só quero que passe esses esboços para a Laurine digitalizar.
— Eu vou ter que voltar para o Brasil.
Eu sei que poderia ter dado a notícia de outra forma, mas estava pronta para ver que reação ele teria.
— Você não está autorizada! — ele se levantou.
— Como não?
— Preciso de você aqui... — ele deu uma pausa — Para me ajudar na conclusão dos projetos, claro! — um alívio estrondoso apareceu.
— É uma ordem do seu tio, quero dizer, do seu Montez — pontuei — Não há como dizer o oposto. Inclusive, daqui dois meses eu teria que passar uma semana no Brasil, minha melhor amiga vai casar-se e eu sou uma de suas madrinhas — acrescentei.
— Ele te informou o motivo pelo qual não me avisou diretamente?
— Não, na verdade, ele parecia um pouco ocupado, creio que ele quis resolver tudo rapidamente.
— Mas não consigo entender, não estava tudo bem por aqui?
Se alguém não estava entendendo algo, esse alguém era eu, a bipolaridade desse ser humano me assusta de uma forma absurda, como ele consegue agir como um bom moço e em alguns minutos se tornar a pessoa mais arrogante do universo.
— Em uma conversa com seu pai, eles decidiram abrir uma filial em outro estado do Brasil — enquanto eu explicava, ele assentia, porém, parecia um pouco desconfortável.
— E quando você pretende ir?
— Bom, eu que te pergunto.
— Você citou um casamento, certo? — balancei a cabeça positivamente — Pode ser uma semana antes dele, e então, você pode resolver o que for preciso daqui por reuniões de videoconferências antes de ir! Daí, durante os dias que passar no Brasil, você finaliza o que for preciso.
— Combinado! — me entusiasmei, Liz vai enlouquecer quando souber que poderei ir uma semana antes de seu casamento, eu esperava poder ir no máximo dois dias antes — Agora, vou voltar para minha mesa, obrigada pela atenção — vire-me e acabei parando antes mesmo de começar a andar ao ouvir sua proposta.
— Ah, o que acha de jantar hoje na minha casa…
— Não — respondi sem o deixar terminar e comecei a andar.
— Anne, não estaremos sozinhos — parei novamente e respirei fundo — Meus pais estão na cidade, me pediram para te convidar.
— Estarei lá — finalmente saí.