Capítulo 10

1564 Palavras
Eu só aceitei o convite para jantar na casa de John, porque é com a família dele, por mais que eu não queira, permaneço insegura. — O que vestir? — encaro o closet e começo a discar o número de Liz. — A que devo a honra de uma ligação sua, a essa hora da noite? — suspiro aliviada ao ouvir sua voz, que bom que ela estava acordada. — Não esperava que você fosse atender — enrolei para dizer meu objetivo final. — Anne, se eu não te conhecesse até acreditaria que você não está desesperada nesse momento para ter me ligado a essa hora. — Desesperada é exagero, só estou precisando de uma ajuda sua. — Sei bem… então, me diga! — Fui convidada para um jantar familiar, mas não sei muito bem o que vestir, o que me sugere? — Sugiro que seja um pouco mais detalhista com a parte do convite. — Nem vem, não quero que especule nada! — Você me liga do nada, pedindo ajuda e não quer me contar o motivo da sua dúvida para se vestir? E pelo que eu me lembro, você nunca me pediu dicas de moda antes. — Ok… Você venceu — bufei — Fui convidada pelo John… na verdade, pelos pais do John, para jantar na casa deles. — Mas já? Não sabia que franceses costumavam ser rápidos assim! — disse completamente espantada. — Liz! — gritei. — Me diz então, se existe outro motivo para que os pais dele te convidem para algo? — A consideração que o seu Montez tem por mim! — Embora seja um fato, acho difícil ser somente isso. — Por que eu te liguei mesmo? — Ah! Já entendi, mudarei de assunto, mas não adianta fugir, uma hora você vai precisar encarar a realidade — afirmou —Usa aquele macaquinho florido, chega a ser casual e dependendo dos acessórios fica muito elegante. — OBRIGADA — pulei de alegria — e como recompensa, tenho uma novidade para você, vou poder ir para seu casamento uma semana antes! — Como é? — Isso mesmo! Amanhã te explico melhor, preciso me arrumar logo para não me atrasar… Beijo, beijo, beijo! — É melhor que conte mesmo, senhorita, está muito difícil me comunicar com você — ela disse — Eu sei, mas você vai adorar o que eu tenho para contar… — Para de suspense! Se não, você vai ser obrigada a me dizer agora e vai acabar se atrasando para seu encontro. — Não há encontro nenhum! — Beijo Anne! — Ela desligou. Meu corpo gelou quando a porta da casa de John se abriu, um sorriso singelo de uma menina me acalmou, pelo menos por poucos minutos. — Anne? Que prazer te conhecer! Meu nome é Jasmine, sou a irmã mais nova de John — me cumprimentou em português. — O prazer é todo meu Jasmine, obrigada — respondi enquanto entrava — Ela chegou John! Desça já desse quarto — ouvi uma voz feminina vinda da cozinha. — Se deixar ele fica o dia inteirinho jogando naquele computador — Jasmine disse. — Para sua informação, eu não estava jogando, irmãzinha — ele respondeu-a enquanto descia a escada — Olá, Anne, bem-vinda novamente! — Obrigada — sorri, não consegui dizer nenhuma palavra a mais. — Vamos para a cozinha? — Jasmine nos chamou e seguiu no corredor. John parou na minha frente e colocou as mãos nos meus ombros. — Não precisa ficar nervosa, não é um encontro, Anne, pelo menos não ainda — disse olhando nos meus olhos. — Não estou nervosa por pensar ser um encontro John — sustento o olhar — Estou nervosa, porque estou prestes a conversar com pessoas que não conheço — empurro suas mãos — E se você permanecer me pressionando assim, nunca sairemos! — Já está conhecendo os meus pais, não tem mais volta. — A distância daqui até a porta de entrada é bem menor do que a distância daqui para cozinha — me irritei — Quer saber para que lado eu irei primeiro se disser mais uma piada? — N’est pas une blague, mademoiselle. Aller ! (Não é piada, senhorita. Vamos!) O sentimento de que não devia estar aqui começou a aumentar um pouco, não sei bem onde ele está querendo chegar com esse papo todo — na verdade, sei— mas, quem me garante que amanhã ou depois, ele acorde e mude de ideia, voltando a ser a pessoa mais grossa da face da terra, não poderei lidar com isso. Negar que John é “impressionantemente dedicado, aberto, vulnerável e sincero” é mentir para mim mesma, não dá para ir contra isso, de fato ele é melhor que eu poderia pensar. Contudo, há algo que me barra, parece tudo muito novo, e estou totalmente insegura com isso, então, minha ida para o Brasil veio a calhar. — E como tem sido sua estadia aqui Anne? — Ademir, pai de John disse. — Tem sido bem empolgante, cada dia tento conviver com a nova cultura, é muito diferente mesmo, poder tirar as pessoas da caixinha que colocamos, às vezes só achamos que existem um tipo de pessoa, e qualquer um que fuja disso, nos assusta ou parece louco — aproveitei que John estava do meu lado para não ter que direcionar meu olhar a ele. — Isso é um bom ponto, eu mesmo, jamais vi por esse lado — ele riu — lembro que quando o Jean teve a brilhante ideia de montar nossa primeira filial aqui, eu só concordei porque, sempre amei viajar, seria uma bela chance de conhecer outro país. — Ele foi esperto, mas deu com a cara na porta, quando viu que acabaria tendo que conhecer só uma parte da França — Paola se pronunciou. — Sim! Logo que chegamos, tivemos muito trabalho, para contratar e nos firmarmos por aqui — explicou. — Quanto tempo faz? — perguntei. — 27 anos, minha mãe veio para cá sem saber que estava grávida de mim — John disse e fui obrigada a olhá-lo. — Isso acabou adiando nossos planos de conhecer melhor a França, tivemos que morar de aluguel por um tempo e Jean teve que viajar para cá por uns meses para nos ajudar — ela disse — E depois disso, por volta de uns cinco anos, eles conseguiram contratar funcionários suficientes, eu nasci, e sempre que podíamos, viajávamos para conhecer tudo — Jasmine concluiu a história, já um pouco entediada — Não me leve a m*l, Anne, é que essa história é tão repetida, que me canso de ouvir, de contar e blá-blá-blá — eu ri. — Esses jovens, sempre entediados — John acrescentou. — Isso porque ele é super velho — Jasmine se defendeu, com um olhar brincalhão. — Ele gosta de ser ranzinza — me juntei a Jasmine e ela riu comigo. — Eu que gosto? — Jasmine, e você, me conte sobre o que você faz! — mudei de assunto rapidamente. — Eu devo ser a ovelha n***a dessa família, Anne, nada muito importante. — Uma ovelha n***a bem dramática, eu diria, ela é incrível! A nossa artista — Ademir disse com muito orgulho deixando-a bem constrangida. — Sem dúvidas! Quando eu era jovem, amava a arte — disse Paola — No fim das contas, acabei indo para a área de exatas, que foi sempre meu amor maior, então, é muito bom saber que tenho uma filha tão talentosa, me faz lembrar e viver essa época de novo. — Eles exageram — ela sorriu. — Olha a falsa modéstia, irmã! — acho lindo como eles se tratam, me fez sentir saudades da minha família — Olhe, TODOS os quadros e fotos dessa casa foram feitos por ela... Me arrisco dizer que toda decoração também. — Uau — fiquei impressionada ao encarar alguns dos quadros — Eu já tinha reparado em alguns detalhes, mas agora sabendo que foram feitos por você, parece que entendo melhor como construiu tudo. — Tem uma linha né? Eles nunca percebem — ela disse rindo. — Engenheiros... — Isso é um complô? — John disse. — HAHAHA, vocês fizeram isso comigo a vida toda, Deus me recompensou dessa vez — rimos juntos. — Mas, com certeza eles não exageram quando falam do seu talento. — E ela é autodidata — Ademir explicou — Embora não fosse de exatas, ela nunca tirou uma nota r**m, sempre as mesmas em todas as matérias, e o bom de estudar arte, é que não requer idade, se você tem talento, vai longe. — Autodidata — ela riu — Cada dia vocês melhoram mais, na verdade, Anne, eu só sempre gostei de estudar, e fiz muitos cursos por aqui, eles investem bastante nos artistas. — Impressionante, estou sem palavras! Se não for incomodar, quero um de seus trabalhos na minha casa no Brasil! Minha mãe vai adorar! — Eu adoraria — se levantou — Eu posso ir ao meu estúdio agora buscar uns — ela parou — Na verdade, posso te dar depois, vai demorar para que você volte ao Brasil né? — Na verdade, ela vai ir para lá em breve — John respondeu por mim. —Mas já? Imaginei que sua mudança fosse definitiva — Paola disse. — Por que não deixamos que a pessoa a quem fiz a pergunta responda por si mesma? — Jasmine se pronunciou e me olhou.
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