Pré-visualização gratuita O MOTOR, A PROMESSA E A QUEDA
ARCO 1 — O HOMEM QUE INVADIU O ALTAR
Onde foi que eu me meti?
Três anos de silêncio, quatro dias até o altar.
MÁRIO MACHADO ASSIS.
32 ANOS.
A oficina era o meu mundo porque aqui tudo obedecia a uma lógica que eu entendia. Metal cede ao aperto certo. Peça r**m denuncia no som. Motor fala, e eu escuto. Gente é pior. Gente some. Gente mente. Gente deixa uma porta encostada e leva embora um pedaço de você sem fazer barulho.
O portão estava meio aberto, como sempre, e o cheiro de graxa misturado com gasolina velha era quase um abraço. Eu tinha a camisa grudada nas costas, o calor da tarde de São Paulo entrando pela rua, e o capô do carro do empresário aberto como se fosse uma boca mostrando os dentes. Um sedã importado, desses que a gente não vê todo dia na quebrada. A pintura preta brilhava tanto que parecia desafiar a poeira do mundo.
Eu estava com a lanterna na mão, o rosto perto do motor, ouvindo o tique sutil de algo que não encaixava. Ajustei o tensor, passei o dedo na correia, senti a vibração errada, e aí a peça entregou o segredo, como sempre entrega.
— Aqui. Tá vendo?, eu disse, sem levantar muito a cabeça.
O homem estava do lado, camisa social clara, relógio caro, cheiro de perfume que não combinava com aquele chão manchado de óleo. Ele não parecia impaciente. Parecia curioso. E isso já era raro.
— Eu confio em você, Mário, ele falou, como quem fala o nome de um médico que salvou o filho.
Eu não gostava de conversa demais. Não gostava de abrir a vida pra cliente. Só que, naquele dia, eu tinha um nó no peito desde que acordei. E o nó puxava cada pensamento pra mesma direção, como se o mundo inteiro fosse um imã apontando pra Paris.
Apertei a última porca, desliguei a lanterna e fechei o capô com cuidado. Aquele som seco, o encaixe perfeito, me deu uma satisfação pequena. Pequena e insuficiente.
— Vai ficar bom, eu falei. Só que eu preciso de mais duas horas pra testar. Não vou te entregar com coisa escondida. Eu não faço isso.
Ele assentiu, apoiou a mão no capô como se estivesse acariciando um animal caro.
— Perfeito. Eu volto no fim do dia.
Eu respirei, senti o suor descendo pela nuca, e antes que eu pudesse me impedir, a frase escapou.
— Eu tô correndo com uns serviços extras porque vou viajar.
Ele levantou a sobrancelha, e eu vi o interesse acender.
— Viajar pra onde?
Eu poderia ter dito qualquer coisa. Poderia ter inventado praia, interior, visita a parente. Só que o meu corpo estava cansado de mentir. Três anos de mentira interna já eram demais. Três anos dizendo pra mim mesmo que eu tinha aceitado. Que eu tinha seguido. Que eu tinha parado de procurar.
Eu passei a mão no rosto, sujando ainda mais de graxa, e encarei o homem.
— Paris.
A palavra saiu com um peso ridículo, como se eu estivesse pedindo permissão pro universo.
Ele sorriu de canto, um sorriso que não era deboche. Era surpresa.
— Paris? A trabalho?
— A trabalho não, eu respondi. A… engoli seco. A buscar a mulher da minha vida.
O silêncio que veio depois pareceu longo demais. Eu achei que ele ia rir. Achei que ele ia fazer alguma piada, perguntar se eu tinha enlouquecido. Mas ele só olhou pra mim com uma seriedade inesperada, como se tivesse entendido o tipo de ferida que não aparece na pele.
— E você vai sozinho?
— Vou.
— Em três dias eu tenho um jatinho saindo daqui, ele disse, como se estivesse falando de pegar um elevador. Tô indo pra Europa, vou parar em Paris. Posso te dar uma carona.
Eu pisquei. O mundo não costuma facilitar nada pra gente. O mundo costuma cobrar. E quando oferece, é porque quer algo de volta. Meu primeiro instinto foi desconfiar, aquele instinto de quem já foi enganado por promessas bonitas.
— Por quê?, eu perguntei, direto, sem educação.
Ele não se ofendeu. Só deu de ombros.
— Porque você tá salvando meu carro, e eu gosto de gente que trabalha com a mão e com palavra. E porque eu já tive um amor que me arrastou pra longe. Sei como é, ele se aproximou um pouco. A única condição é você aceitar. Eu não vou insistir.
Eu senti o chão inclinar. Três dias. Eu tinha contado quatro até o casamento. Quatro dias até ela… até Estela… até o nome dela virar de outro homem na boca de um padre, de um juiz, de quem quer que fosse. Três dias era quase misericórdia. Três dias era uma chance de chegar antes do fim.
Só que aceitar ajuda é uma coisa que eu sempre fiz com o corpo tenso, pronto pra apanhar.
— Você tem certeza?, minha voz saiu mais baixa, mais dura do que eu queria.
— Tenho, ele olhou no relógio. Me dá o número. Eu mando o endereço do hangar, o horário. Você entra comigo. Simples.
Eu fiquei parado, com as mãos sujas, a cabeça cheia de imagens que eu tentava controlar e falhava. Estela rindo no meu ouvido. Estela dormindo na minha cama. Estela sumindo no nada. Eu pensei que, se fosse armadilha, eu já estava preso de qualquer jeito. Preso na saudade. Preso na obsessão.
— Tá. Eu aceito.
Ele sorriu de verdade, estendeu a mão.
— Fechado. E não se preocupa, eu cumpro, a mão dele apertou a minha com firmeza. Só não perde tempo.
Eu anotei o número dele, passei o meu, e quando ele foi embora, o barulho do motor do carro se afastando pela rua pareceu o som de um portão abrindo.
Eu voltei pro trabalho, terminei o teste, ouvi o motor ronronar como deveria, e aquilo me deu outra sensação pequena. Uma sensação de que eu ainda conseguia consertar alguma coisa no mundo, mesmo que o mundo tivesse me arrancado o que eu mais queria.
No fim do dia, eu fechei a oficina. O portão de metal desceu fazendo aquele rangido conhecido. Tranquei com cadeado, conferi duas vezes, como se alguém fosse roubar o pouco que eu tinha. Não era o pouco. Era o que eu controlava. O que restou.