O SIM ERRADO

1408 Palavras
Quando o amor invade o altar. Mário entrou no salão como quem atravessava um território que não lhe pertencia. Cada passo parecia ecoar mais alto do que deveria, mesmo com o ambiente tomado por conversas baixas e formalidades elegantes. O ar era perfumado, pesado, organizado demais. Tudo ali gritava controle. Nada lembrava amor. Ele se sentou ao lado de Sintra, sentindo o banco rígido sob o corpo tenso. Os dedos inquietos roçavam a própria perna numa tentativa inútil de descarregar o que queimava por dentro. Os olhos percorriam o salão com ansiedade crua, procurando qualquer sinal dela. Estela. O nome pulsava na cabeça dele como uma febre, insistente, irracional, como se repeti-lo pudesse tornar a cena suportável. Sintra mantinha a postura firme, olhar atento, absorvendo cada detalhe do ambiente. Havia algo fora do lugar. Não era visível, mas era sentido. Um silêncio armado. Uma presença que não combinava com cerimônia. Ele inclinou levemente o corpo, falando baixo, como quem não queria que a frase existisse no ar. — Isso aqui tá organizado demais. Mário m*l ouviu. O coração batia nos ouvidos, abafando o resto do mundo. A música começou, cortando qualquer tentativa de raciocínio. Victor Castellano surgiu no corredor central. O impacto foi imediato. Mário sentiu o estômago afundar. O homem que caminhava até o altar não era apenas elegante. Era mais velho. O peso da maturidade estampado no rosto criou uma imagem que queimou dentro dele. Aquilo era o noivo de Estela. A mulher que ele atravessara um oceano para encontrar estava prestes a se casar com alguém que parecia deslocado da história que ele carregava no peito. O ciúme veio bruto. Não racional. Físico. Uma pressão no peito, um calor que subiu pelo pescoço, como se o corpo denunciasse a perda antes da mente aceitar. Sintra continuava atento ao entorno. — Tem algo errado. Murmurou, os olhos fixos na movimentação. Mário respondeu sem conseguir tirar o olhar do altar, como se desviar significasse perder a única chance de ver. — Errado como? — Não sei… mas tem. A música subiu. Depois mudou. Todos se levantaram. O coração de Mário disparou. Era a entrada dela. O impulso veio como reflexo. Ele começou a se levantar, o corpo reagindo antes da razão, como se a própria cadeira fosse um erro. Sintra segurou o braço dele com firmeza. — Calma. Mário tentou se soltar, o desespero empurrando a voz para fora, grossa, quebrada. — Me solta, p0rra, eu preciso ir. Eu preciso falar com ela. Sintra puxou o braço dele de volta, a voz baixa, dura, com a urgência de quem enxergava perigo onde o outro só via amor. — Para, caralh0. Se você for agora, você morre. Olha em volta. Homem armado em cada ponto. Se controla. Mário obedeceu ao gesto antes de obedecer à razão. Olhou. E viu. Homens espalhados pelo salão, postura rígida demais para convidados. Olhares que monitoravam cada movimento. Mãos próximas de armas ocultas. A realidade se impôs com violência silenciosa. O estômago dele embrulhou. A garganta fechou. E, mesmo assim, por dentro, ele continuou em pé. Ela caminhou até o altar, parou de frente ao noivo. A voz saiu com amargura e pânico misturados, como se a pergunta já fosse acusação. — Você quer que ela se case… pra depois eu falar com ela? Antes que Sintra respondesse, o salão congelou. A porta se abriu com força controlada. Nádia entrou acompanhada por homens armados. O ar mudou de densidade. O silêncio foi absoluto. A tensão percorreu o salão como um choque elétrico invisível. Mário sentiu o suor surgir nas mãos. A lógica dizia para ficar parado. O coração gritava caos, gritava correr, gritava fazer qualquer coisa, porque ficar sentado era assistir ao fim. Do altar, Victor reagiu primeiro, surpresa estampada no rosto. — P0rra, Nádia, o que você tá fazendo? Sai daqui. Eu vou me casar. Mário ouviu a frase e a mente tentou encaixar aquilo em alguma lógica, mas o cenário era grande demais. O casamento que ele acreditava ser de Estela agora parecia palco de outra guerra. Um estalo seco ecoou na porta. Nádia avançou mais, com quinze homens atrás dela. Armas visíveis. O silêncio virou concreto. — Se alguém se mexer aqui, vão todos morrer — anunciou um dos homens, colocando o fuzil na cabeça de Dionísio. O mundo desacelerou. Mário prendeu o ar. O som do próprio coração virou martelo. Ele viu o segurança ficar imóvel, mas não com medo. Com controle. Como se aquele homem já tivesse vivido cercado por armas antes e soubesse exatamente onde colocar cada músculo para não virar alvo. No ponto, a voz de Dionísio saiu firme. — Quais as ordens, minha rainha? A resposta veio fria, calculada, atravessando o ambiente como lâmina. — Vamos ver o que ela vai fazer. Se ela atirar, ninguém deles sai daqui vivo. Dionísio respirou como quem recebe uma sentença e a transforma em plano. — Pessoal, fiquem todos apostos. Ouviram a rainha. Do lado de fora, através das portas de vidro, havia movimento. Gabriel observava carros cercando o local, homens armados descendo, um cerco se fechando como mandíbula. — M3rda… o que está acontecendo agora? Disse, visivelmente tenso. Dentro do salão, Nádia avançou. Victor olhou do altar, surpresa, raiva e medo brigando no mesmo gesto. — P0rra, Nádia, o que você tá fazendo? Sai daqui, p0rra. Eu vou me casar. Ela sorriu, um sorriso venenoso, como se a arma mais perigosa dela fosse a certeza. — Não vai, amor. Eu não deixo. Se você se casar com ela, vira um Gutemberg. Pode ser o que quiser… mas não com essa mulher. A cabeça de Mário girou. Gutemberg. O nome bateu como um aviso, como um sobrenome que não era só família, era império. Ele observava tudo com a sensação de estar preso dentro de um pesadelo acordado. O casamento que imaginara interromper com palavras agora estava cercado por fuzis. Ele não entendia o jogo. Só sentia que havia entrado em algo muito maior do que amor. Virou-se para Sintra, buscando chão. — Que p0rra é essa que tá acontecendo aqui? Sintra não desviou os olhos do ambiente. — Não faço ideia. Nádia estendeu a mão. — Victor, vem comigo ou vai ter sangue aqui. Victor olhou para a noiva de véu. Houve um segundo de hesitação. Um segundo em que tudo poderia explodir. Um segundo em que Mário acreditou que a noiva finalmente se moveria, revelaria o rosto, tornaria tudo compreensível. O silêncio de Victor foi resposta suficiente. Pouco depois, ele desceu do altar e seguiu Nádia. Os homens se moveram como engrenagens sincronizadas. O salão respirou apenas quando a tensão saiu pela porta. O vazio que ficou pareceu ensurdecedor. No ponto, a ordem saiu clara. — Dionísio, deixa eles saírem. Só reage se atirarem primeiro. — Entendido. Nádia e Victor saíram. Os homens seguiram. O salão exalou tensão, mas ninguém respirou direito até os carros partirem. Mário não pensou. Correu. Subiu no altar. Armas se ergueram automaticamente, mas ele já estava de joelhos diante da noiva. O véu ocultava o rosto dela como uma promessa indecifrável. — Eu vim te buscar. Disse, a voz quebrando. Cada palavra carregava três anos de ausência. — Eu te procurei… eu não podia deixar você se casar sem falar comigo. As mãos tremiam. O peito ardia. A garganta parecia cheia de areia. Ainda assim, ele falou, porque era aquilo ou morrer por dentro ali mesmo. O silêncio do salão não era julgamento. Era expectativa. Luana estava de pé no altar como quem ocupava território, não como quem celebrava um ritual. O véu pesado filtrava a luz e transformava o mundo em sombras suaves. Era intencional. O tecido não era só ornamento, era fronteira. Tudo ali existia dentro de um plano que ela desenhara mentalmente dezenas de vezes. Cada respiração era medida. Cada ruído, catalogado. O casamento era uma jogada política, uma peça movida para provocar consequências calculadas. Nada naquela cerimônia tinha relação com romance. Era estrutura. Domínio. Continuidade. Então o caos entrou. Luana percebeu primeiro pelo som. Não gritos. Não tiros. Um deslocamento de energia. Um homem rompendo protocolo. Subindo degraus que não eram dele. A presença dele atravessou o ambiente como uma ruptura física, algo que não obedecia às regras silenciosas daquele território. Ela virou o rosto lentamente, mais por instinto do que por surpresa. E viu. Um homem de joelhos. O impacto não foi emocional no sentido comum. Não foi ternura. Não foi choque romântico. Foi estranhamento absoluto.
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