Quando um erro ganha um peso inevitável.
E então, como uma lâmina entrando devagar, o nome surgiu.
Estela.
A lembrança veio crua.
O riso dela.
O jeito dela dormir.
O corpo dela.
O salto no peito foi imediato.
A respiração dele mudou.
Ficou irregular.
Mais curta.
Mais pesada.
Luana, ainda de olhos fechados, falou baixo.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele se assustou.
— Você estava acordada?
Ela não abriu os olhos ainda.
— Estava dormindo. Mas você me acordou quando percebeu meu corpo no seu.
Ela abriu os olhos.
Azuis.
Profundos.
Fixos nele.
— E de repente você mudou. O que foi?
Ele desviou o olhar por um segundo.
— Você não vai gostar de saber.
Ele respirou fundo.
— Então deixa pra lá. Desculpa te acordar. Vou fazer um café.
Ele se moveu com cuidado para sair, mas o braço dela ainda estava sobre ele.
Ela retirou devagar e se sentou na cama.
Os cabelos caíram sobre os ombros. A luz da manhã acentuou o azul dos olhos.
— Fala, Mário.
Ele parou ao lado da cama.
— Você me beijou e agora não está à vontade comigo?
Ele virou o rosto para ela.
— Não é isso, Luana.
Ele passou a mão no cabelo, nervoso.
— É que eu preciso falar com Estela. Eu preciso colocar um ponto final nisso. Eu sou assim.
O silêncio dela não foi julgamento.
Foi análise.
— Mesmo sabendo que ela se casou com outro, você precisa falar com ela?
— Ela sumiu. Por três anos eu procurei por ela.
A voz dele ficou mais baixa.
— Eu quero saber o que aconteceu.
Luana o observou sem piscar.
— Certo. Que dia você quer falar com ela? Eu trago ela e o marido aqui.
Ele franziu a testa.
— Você traria?
— Eu sou líder deles.
A frase caiu simples.
Natural.
Ele demorou meio segundo para processar.
— Espera… Estela pertence à máfia?
Luana apoiou as mãos na cama.
— Não exatamente.
Ela manteve o tom calmo.
— Estela é amiga de Nádia. E se casou com o irmão do meu ex-noivo. Mas existe algo maior por trás disso.
Ela sustentou o olhar dele.
— Algo que você ainda não está pronto para saber.
O estômago dele contraiu.
— E você acha que eles viriam? Depois de tudo? Seu noivo foi tirado do altar. O irmão viria?
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Eu sei onde eles vão estar. E ali não há como não irem.
Ele sentiu o peso da próxima frase antes dela ser dita.
— A reunião da cúpula.
O ar ficou mais pesado.
— E não vai haver guerra, vai? Ele perguntou.
Ela levantou da cama com tranquilidade.
— Temos um código.
Ela caminhou até a janela e afastou levemente a cortina.
— Só reagimos se alguém atirar primeiro.
Ele absorveu aquilo.
— E você?
Ela virou o rosto para ele.
— Eu não tenho intenção de matá-los.
Houve uma pausa.
Um pequeno silêncio.
Ela completou, sem alterar o tom.
— Ainda.
Mário sentiu um frio subir pela espinha.
Não era ameaça gratuita.
Era cálculo.
Ele olhou para ela de pé, iluminada pela manhã, já diferente da mulher que dormira abraçada a ele.
— Você dormiu comigo como se não houvesse guerra nenhuma, ele disse.
Ela o encarou.
— E houve?
Ele não respondeu.
Ela continuou.
— Você acha que eu não sei separar as coisas?
Ele respirou fundo.
— Eu não sei o que você sente.
Ela caminhou até ele.
Parou perto.
— E você acha que sabe o que sente?
Ele ficou em silêncio.
Ela analisou o rosto dele por alguns segundos.
— Você ainda está preso a uma história que precisa acabar.
— Eu sei.
— Então termine.
A voz dela não era fria.
Era direta.
— Mas entenda uma coisa, Mário.
Ela se aproximou mais um passo.
— Quando você for falar com ela, você não vai como um homem que atravessou um oceano por amor.
Ela sustentou o olhar dele.
— Você vai como meu marido.
O impacto veio silencioso.
Ele assentiu devagar.
Ela se afastou.
— Vá fazer o café.
Ele quase sorriu.
— Você manda demais.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Melhor se acostumar.
Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, olhou para ela novamente.
— Você estava confortável.
Ela entendeu.
— Dormindo?
— É.
Ela desviou o olhar por um segundo.
— Você é quente.
Ele quase riu.
— Isso é elogio?
Ela virou para ele novamente.
— É constatação.
Ele saiu do quarto com o coração pesado e ao mesmo tempo estranho.
A guerra estava mais perto.
Estela estava mais perto.
E, ainda assim, a imagem que permanecia na cabeça dele não era a do passado.
Era a de Luana dormindo com a cabeça sobre o peito dele.
E aquilo era perigoso demais.
A casa ainda estava silenciosa quando Luana desceu as escadas.
O mármore frio sob os pés descalços.
A camisa branca dele, larga demais para o corpo dela, caindo sobre as coxas. Não cobria completamente. Não era provocação. Era conforto. Era hábito.
Ela sempre viveu assim dentro daquela casa.
Cabelo preso num coque apressado, alguns fios dourados escapando e tocando o pescoço. O rosto limpo. Sem maquiagem. Vulnerável sem perceber.
Ela entrou na cozinha e começou a preparar o café como se nada no mundo pudesse ameaçá-la.
Foi quando a porta lateral abriu.
Dionísio.
Ele parou.
Não foi descarado. Não foi vulgar.
Mas foi homem.
O olhar desceu rápido demais.
Subiu devagar demais.
Luana nem percebeu.
Já estava acostumada a ser vista.
Mário percebeu.
Ele vinha descendo os últimos degraus e viu exatamente o momento em que o olhar de Dionísio demorou meio segundo a mais do que deveria.
Foi suficiente.
Dionísio disfarçou.
— Minha rainha, bom dia.
Ela virou o rosto com naturalidade.
— Bom dia, Dionísio. Vou tomar café. Depois do banho, chamem todos. Precisamos falar sobre a reunião da cúpula.
Ele assentiu.
Mas o olhar voltou.
E dessa vez Mário estava olhando para ele.
Direto.
Dionísio saiu.
O silêncio ficou.
Mário sentou à mesa. Não tocou no café.
Luana mexia o suco com tranquilidade.
— Você precisa controlar a entrada desses homens na sua casa.
Ela ergueu os olhos devagar.
Não gostou do tom.
— Eu já estou acostumada.
Ele não desviou.
— Você não era casada.
A frase caiu como uma pedra.
Ela pousou o copo na bancada.
— Então agora você vai mandar na minha casa? Na forma que eu me visto? Nos homens que entram aqui?
Ele respirou fundo. O maxilar travado.
— Se eu vou ter que falar com Estela como seu marido… você vai me respeitar como minha esposa.
O ar mudou.
Ela sentiu.
Não era grito.
Não era imposição vazia.
Era posição.
Ele levantou da cadeira.
— Eu não quero um homem que ama a minha esposa olhando para ela quase nua dentro da minha casa.
Ele saiu.
Luana ficou parada.
O orgulho dela não permitia correr atrás.
Mas algo dentro dela se mexeu.
Não era medo.
Não era raiva.
Era confronto.