A RAINHA E O TABULEIRO

1202 Palavras
A jogada que decide quem cai primeiro. A sala de reuniões não era luxuosa no sentido óbvio. Não havia ouro espalhado, nem exagero. O poder ali não precisava gritar. Ele respirava nas paredes escuras, na mesa longa de madeira maciça, nas cadeiras ocupadas por gente que mandava matar com a mesma facilidade que assinava contratos. O ar era pesado, não por fumaça ou perfume, mas pela consciência coletiva de que cada palavra dita ali podia custar milhões, ou vidas. Luana Gutemberg estava na cabeceira. Não era apenas posição. Era declaração. Ela não se apoiava na mesa, não mexia nos dedos, não demonstrava pressa. Estava sentada como quem já venceu a discussão antes dela começar. Vestia preto, corte impecável, cabelo preso sem rigidez. O olhar dela percorria a mesa como lâmina silenciosa, lendo cada microexpressão, cada respiração fora do ritmo. Para Luana, aquela reunião não era debate, era tabuleiro. Victor Castellano estava à direita. Elegante, bonito, herdeiro de um sobrenome pesado demais para os ombros que carregava. Ele mantinha o queixo erguido, mas havia tensão no maxilar. Tentava parecer confortável naquele ambiente que claramente não dominava. Seus dedos tamborilavam discretamente na perna, um sinal involuntário que Luana registrou sem mover um músculo. Mais adiante, Nádia observava tudo com atenção calculada. O rosto neutro, mas os olhos inquietos, sempre medindo distância, reação, oportunidade. Ao lado dela, Estela mantinha uma postura discreta, quase invisível, como quem prefere existir nas sombras enquanto escuta tudo. Invisibilidade também é estratégia, Luana sabia disso. Do outro lado da mesa, três líderes de organizações diferentes mantinham expressões fechadas. Cada um deles representava território, dinheiro, armas, influência. Nenhum falava ainda. O silêncio era parte do ritual. Quem falasse primeiro revelaria urgência, e urgência era fraqueza. Na ponta oposta à de Luana, um homem mais velho limpava lentamente os óculos com um lenço de tecido. Rugas profundas marcavam o rosto, não de idade frágil, mas de sobrevivência. Ele recolocou os óculos com calma e finalmente falou. — Vamos parar de rodeios. A voz dele era baixa, mas preenchia o ambiente. — Seu reino está cercado, Luana. Alianças frágeis, disputas internas… ele inclinou levemente a cabeça, ambições demais respirando no seu pescoço. Nenhum músculo do rosto dela se moveu. — Continue, disse apenas. — Se você quiser sustentar o título de Rainha da Máfia Híbrida, precisa consolidar poder, ele fez uma pausa curta. E isso exige casamento. Alguns olhares cruzaram a mesa. Victor respirou fundo. Nádia manteve os olhos fixos em Luana. Estela não piscava. Luana virou lentamente o rosto para Victor. Não foi um gesto impulsivo. Foi medido. Calculado. O silêncio se estendeu. Cada segundo era um peso colocado propositalmente. Luana sentia o ambiente tensionar, como corda prestes a arrebentar. Ela gostava disso. Pressão revelava caráter. Victor endireitou a postura, tentando antecipar o desfecho. O leve brilho nos olhos denunciava expectativa, e também ambição. Luana apoiou os dedos na mesa, sem pressa. — Certo, disse. Uma única palavra. — Eu me caso com Victor. O impacto foi silencioso, mas visível. Um dos líderes ergueu as sobrancelhas. Nádia respirou mais fundo. Victor escondeu um sorriso rápido demais. O homem mais velho assentiu. — Então temos um acordo. Luana não respondeu imediatamente. Seu olhar percorreu cada rosto na mesa. Não havia emoção ali. Havia leitura. Ela estava contando movimentos. Cada respiração. Cada tensão. Cada microexpressão. Tabuleiro completo. — O acordo existe, disse por fim, porque eu permito que exista. O velho sustentou o olhar dela por alguns segundos. Depois, sorriu de canto. — É por isso que você está sentada aí. A reunião se dissolveu em trocas rápidas de palavras, ajustes logísticos, datas, protocolos. Luana já não escutava. Para ela, aquilo era ruído depois da jogada principal. O casamento não era aliança, era gatilho. E ninguém ali parecia perceber. Quando todos começaram a se levantar, Victor se aproximou. — Você não vai se arrepender, disse, tentando soar confiante. Luana olhou para ele como quem avalia uma peça recém-movida. — Veremos. Ela saiu antes que ele dissesse qualquer coisa. O corredor estava silencioso. Pisos escuros, iluminação baixa. Cada passo dela ecoava com precisão. Nádia apareceu alguns metros adiante, apoiada na parede. — Decisão rápida, comentou. Luana não parou. — Decisão necessária. Nádia acompanhou o ritmo. — Por que Victor? Agora Luana parou. Virou-se devagar. O olhar dela não era hostil. Era clínico. — Porque ele é o elo mais fraco. Nádia franziu levemente a testa. — Isso parece… arriscado. Luana deu um passo à frente, encurtando a distância. — Quando um império cai, disse, a voz baixa, ele não desmorona em partes. Ele implode. Nadia permaneceu em silêncio. — Victor é instável, continuou Luana. Ambicioso sem estrutura. Cercado por gente que quer o lugar dele. Casar com ele não fortalece o reino, expõe as rachaduras. — Então você está provocando a queda? Um leve sorriso surgiu no canto da boca de Luana. — Estou escolhendo onde ela começa. O ar entre as duas pareceu mais pesado. — E quando cair?, Nádia perguntou. Luana retomou a caminhada. — Cai tudo de uma vez. Nádia ficou parada, observando enquanto a Rainha se afastava pelo corredor como se já estivesse dois movimentos à frente de qualquer um ali. Porque estava. Luana entrou no quarto, e seu fiel companheiro e segurança Dionísio entrou com ela. O ambiente ali era oposto à sala de reuniões, silencioso, controlado, quase íntimo. Mesmo assim, a tensão ainda caminhava com ela. — Para onde a Nádia foi?, ela perguntou. — Seguiu Victor, senhora, respondeu Dionísio, tirando o casaco dela com cuidado. Luana afastou a cortina, abriu a janela e olhou a Torre Eiffel ao longe. Paris brilhava como promessa e ameaça ao mesmo tempo. — E Estela? — Também foi. E Nádia já percebeu que a melhor amiga está fodendo o amante dela? — Acredito que sim. Elas andam se estranhando. Dionísio responde, entregando uma taça de vinho. Luana girou o vinho na taça. — O que descobriu dessa Estela? — Foi levada ao Brasil pelo tio aos dezesseis anos. Namorava um brasileiro, dono de uma oficina em São Paulo. Voltou há três anos, trazida pela Nádia. Luana arqueou levemente a sobrancelha. — Sério? A amiga a trouxe, e ela já pulou para a cama do Victor? Dionísio manteve o tom neutro. — Minha rainha, por que está deixando isso ir tão longe? Luana deu um gole no vinho. — Diversão. Mulheres são como serpentes, venenosas, traiçoeiras. Nádia quer me dar o bote. Eu só quero descobrir o que deixou ela tão confiante. Aposto que não foi o p4u do Victor. Dionísio soltou um riso curto. — Então por que escolheu ele? Eu não sirvo como marido, é isso? Luana virou o rosto, um brilho divertido nos olhos. — Você falou que aguentaria só cuidar de mim, Dionísio. Se não dá conta… — Desculpas, você sabe que te amo, e daria minha vida por você. Ela apoiou a taça na mesa. — Preciso tomar banho. Descubra o que essas cobras estão tramando. — Sim, minha rainha. A porta do banheiro se fechou, e o som da água começou a correr. E ninguém naquela reunião havia percebido que, no momento em que Luana disse sim, o jogo já tinha terminado. Eles só ainda não sabiam.
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