O momento em que ele entende quem raptou.
O salão se abriu diante deles como se o próprio ar cedesse passagem. Mário atravessou o corredor sem enxergar ninguém. Não via rostos, não registrava olhares, não escutava murmúrios. Só sentia o coração batendo forte demais, descompassado, como se estivesse tentando acompanhar a velocidade do que tinha acabado de fazer. Dentro dele havia uma certeza absurda e inabalável: ele tinha recuperado o que acreditava perdido.
No ponto, a voz dela ecoou, firme, seca, incontestável.
— Ninguém se mexe.
A ordem atravessou o salão como lâmina. Mário não percebeu o impacto real daquilo. Para ele, era apenas ruído distante. Saiu com ela nos ombros, atravessando o corredor sob uma tensão que não compreendia.
Do lado de fora, Gabriel arregalou os olhos, como se o próprio cérebro recusasse processar a cena. Mário não explicou nada. Estava ofegante, a adrenalina dominando cada gesto.
— Gabriel, me empresta o carro.
Ele colocou Luana no chão com cuidado, abriu a porta como se aquilo fosse rotina, como se raptar uma noiva em pleno casamento fosse apenas o próximo passo lógico de um plano inevitável.
— Entra, vida.
Gabriel deu um passo atrás, incrédulo.
— Que p0rra é essa, Mário?
Mário respondeu sem hesitar, sem perceber a dimensão do que dizia.
— Me casei. Te ligo depois.
Gabriel ainda parecia preso entre fugir e reagir, mas estendeu as chaves.
— Tá… vai pra minha casa.
Do lado de fora, a cidade seguia normal. Carros passavam, luzes acendiam, pessoas atravessavam ruas. O mundo parecia normal demais para o que tinha acabado de acontecer. E isso tornava tudo mais absurdo, mais irreal, mais perigoso.
Dentro do carro, Mário dirigia com as mãos firmes demais no volante. O silêncio o sufocava. Ele precisava falar, precisava ouvir a própria voz para acreditar que aquilo era real.
— Sabe quanto tempo eu te procurei? Três anos… três anos, Estela. Eu não podia deixar você se casar sem falar comigo.
Luana permaneceu em silêncio. O silêncio dela não era ausência. Era presença concentrada. Observação. Cálculo. Ela escutava cada palavra como quem desmonta uma arma para entender como funciona.
Chegando à mansão, os seguranças liberaram a passagem sem hesitar. O portão se abriu como se reconhecesse autoridade. Como se reconhecesse a mulher ao lado dele.
Mário estacionou, saiu rápido, abriu a porta para ela como um homem que acreditava estar trazendo a própria noiva de volta para casa. Pegou-a nos ombros de novo, impulsivo, quase infantil na vitória. Ela soltou um riso baixo, quase divertido, contido o suficiente para não virar entrega.
Ele subiu as escadas apressado, entrou e trancou a porta. A casa parecia grande demais, silenciosa demais, como se aguardasse uma revelação.
Levou Luana até a cama como se temesse que o mundo pudesse arrebatá-la outra vez.
— Que saudade, p0rra… achei que ia morrer sem você.
Mário subiu sobre ela. Respirou fundo. As mãos tremiam, mas agora era tremor de alívio, de vitória, de fé cega. Ele segurou o tecido do véu com cuidado quase reverente.
Levantou.
O mundo parou.
O rosto que o encarava não era o que ele atravessou um oceano para encontrar.
O choque foi físico. O ar sumiu dos pulmões. O chão pareceu desaparecer sob os pés. O corpo travou como se tivesse recebido um golpe direto no centro do peito.
— Quem… quem é você?
Naquele instante, o universo inteiro reorganizou sentido. Ele entendeu que havia invadido um jogo que nunca foi sobre ele.
Mas agora fazia parte dele.
Mário saiu de cima dela bruscamente e encostou na parede, tentando recuperar o fôlego.
— Eu sou sua esposa. Não foi isso que acabamos de fazer? Nos casar?
A voz dela era estável demais.
— Moça… quer dizer… senhora… eu achei que…
— Achou que eu era Estela?
Ele piscou, perdido.
— Você conhece Estela?
— Conheço. Estela se casou com Afonso Castellano, irmão de Victor Castellano.
A informação caiu como concreto. Antes que ele pudesse reagir, o celular tocou. O som atravessou o silêncio como um alarme.
— Desculpa… eu preciso atender.
Luana retirou o véu com calma e se sentou na cama.
— Pode atender.
Mário levou o celular ao ouvido, ainda atordoado.
— Alô…
A voz de Sintra veio do outro lado, urgente.
— Mário, p0rra! Onde você está? Você sequestrou a rainha da máfia, Luana Gutemberg. Cara… você tem noção do que fez?
Mário sentou na poltrona, celular na orelha, os olhos fixos nela.
— Eu… fiz o quê?
— Você sequestrou a Rainha, caralh0!
Antes que ele respondesse, Luana se levantou, aproximou-se e pegou o celular das mãos trêmulas dele.
— Olá. Eu sou Luana Gutemberg. Não se preocupe. Ele está seguro… por enquanto. Ele te liga mais tarde.
Ela desligou sem pressa.
— Então, meu esposo… está tudo bem?
Mário passou a mão pelo rosto.
— Como eu devo te chamar?
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Amor. Esposa. Querida. O que preferir. Agora eu sou sua esposa. E, para você entender o que fez, deixa eu explicar.
Falou com calma absoluta.
— Se pedir divórcio, m0rre. Se me maltratar, m0rre. Se tentar me matar, m0rre. Ou seja… nosso casamento é até que a morte nos separe.
Mário engoliu em seco.
— Se você não era Estela… e sabia que era um engano… por que aceitou se casar comigo?
Silêncio.
Ela sentou novamente na cama, cruzou as pernas e inclinou o corpo na direção dele.
— Porque você ia m0rrer. Quando te vi ali, de joelhos, chorando por uma mulher traidora que estava se casando com outro, s*******o do que estava fazendo… meu instinto foi te proteger. E você ainda não está seguro, Mário. Você invadiu um casamento da máfia, se casou com a Rainha e me levou embora.
Ele sentiu o peso das palavras.
— E como eu resolvo isso?
— Sendo meu marido. Não é óbvio?
— Mas nós nem nos conhecemos…
Ela se levantou e parou diante dele.
— Você acha que existia sentimento entre mim e Victor? Que casamento na máfia é amor? Tesã0? Não é, meu menino. É política. Poder.
Ela tocou o rosto dele com a ponta dos dedos.
— E você sabe que eu não tenho poder…
— Sei que você é um brasileiro dono de uma oficina mecânica. Um homem comum.
— Então o casamento comigo não foi política… por quê aceitou?
Ele se aproximou um passo. Ela sentiu o calor dele e recuou meio passo.
— Já respondi. Para te proteger. A menos…
— A menos?
— Que você queira morrer.
Ele sustentou o olhar dela.
— Não, Rainha. Eu não quero morrer.
Ela passou a língua nos lábios, pensativa.
— Estou com sede. E preciso ligar para meu segurança.
— Segurança? Minha esposa tem quantos?
— Se não me engano, trezentos e oitenta. Na última contagem.
— c*****o…
— Na verdade, me seguindo de perto, só vinte e cinco. E um deles é ciumento. Dionísio.
Ela saiu do quarto com passos tranquilos. Desceu as escadas e falou no comunicador.
— Dionísio. Pode entrar.
— Ele está no portão.
Mário desceu atrás dela, ainda tentando encaixar a própria realidade. Liberou a entrada pelo interfone.
A porta se abriu. Cinco homens fortemente armados entraram e se ajoelharam diante dela.
— Estamos aqui, minha rainha.
A palavra ecoou na cabeça de Mário.
Rainha.
— Dionísio. Novidades?
Ele lançou um olhar rápido para Mário.
— Victor está foragido com Nádia.
— E a outra?
— Oficialmente casada com Afonso. Já foi para a casa dele.
Luana virou o rosto para Mário.
— Querido esposo… eu disse que estava com sede.
Ele piscou, tentando respirar dentro de um mundo que já não obedecia às mesmas regras.
— Verdade… desculpas.
Mario foi ate a geladeira pegou agua a serviu e ficou ali atônito ao que via.