Capítulo 2

1020 Palavras
Capítulo 2 GAEL NARRANDO Momentos antes... Dezoito anos. A idade dela e o peso da promessa que eu carrego desde os meus doze. Não foi escolha. Nunca foi. Mas eu também não sou o tipo de homem que recua diante de ordens. Principalmente quando a ordem vem de Don Velásquez, meu pai. O Velho. O monstro elegante que comanda mais do que meia Europa com um sorriso falso e uma ameaça velada. Eu cresci assistindo o mundo se curvar diante dele. Advogados, juízes, traficantes, políticos. Todos com medo. Todos obedecendo. Todos devendo. E entre todas as dívidas que ele colecionava como troféus, existia uma que parecia brilhar diferente. A dívida do "Rei". João Lucas. Eu ouvi esse nome pela primeira vez aos dez anos. Um brasileiro com a favela inteira aos pés, leal, implacável, mas que um dia tomou uma decisão que custou caro. O detalhe? Meu pai nunca cobrou com dinheiro. Ele não se interessa por cifrões, até porque dinheiro é algo que ele tem para milhares de gerações da nossa família. Ele cobra com vidas. — Um dia o sangue do Rei vai pertencer ao nosso trono — ele disse, sentado à mesa, com uma taça de vinho tinto, como se falasse da previsão do tempo. Eu não entendi na época. Mas aprendi com o tempo. E hoje, olhando para uma foto dela... Valentina, filha do João Lucas e da Liz, eu entendo exatamente o que ele quis dizer. Cheguei no Rio dias antes da festa. Mas ninguém sabia, principalmente o Rei. Fui recebido como manda o protocolo: segurança armada, carro blindado, hotel cinco estrelas. Mas eu odiei cada detalhe. Porque, no fundo, eu sabia que esse lugar aqui no Brasil não era meu. Ainda não. A ordem do meu pai era clara: — No aniversário dela, a dívida vence. Você estará ao meu lado. E a partir dali, a garota será sua. Não por paixão. Por pacto. E ninguém, absolutamente ninguém vai conseguir fazer esse acordo se quebrar. Mas dentro de mim, alguma coisa gritava. Um conflito entre aceitar meu destino ou tomar posse dele. Quando entrei na festa, ao lado do Velho, percebi o quanto ele ainda mexia com os outros. O salão inteiro se calou . Homens que fingiam ser donos de alguma coisa abaixaram os olhos. Soldados firmaram a postura . Até João Lucas engoliu seco. O Rei, vendo o Don. Era quase poético . E João Lucas era conhecido por seu jeito destemido, implacável, que todos temiam, mas quando viu meu pai, parecia mais um homem assustado, mas eu não julgo afinal ele não era bobo e sabia muito bem o que a presença do meu pai e a minha significavam . Quando meu pai foi se aproximando da Valentina, eu deixei ele ir sozinho e fiquei observando. E não foi o silêncio que me chamou atenção. Foi ela. Valentina. Ela estava de vestido branco, como uma noiva num altar invisível. Cabelos soltos, olhos claros, como os da mãe e uma aura de desafio que cortava o ar. Essa garota não era só bonita. Ela era feita de pólvora e orgulho. E, nesse instante, eu soube: ia ser uma guerra. Meu pai anunciou o acordo com o veneno de sempre, deixando as palavras escorrerem devagar, como se saboreasse a sentença: — O dia de pagar a dívida do seu pai chegou, princesa. — ele disse, com cada sílaba cortando o ar. — O meu filho veio buscar o que é dele, no caso você. E eu fiquei aqui, em silêncio, observando cada reação. Meu pai explicava tudo, ela rebatia, retrucava, Rei tentava resolver e meu pai só colocava mais fogo. João Lucas nervoso. A Liz chorando. Imperador imóvel como uma estátua de guerra. E ela com fogo nos olhos. “Eu não sou coisa de ninguém”, ela disse. A voz dela firme, mesmo tremendo. E meu sangue ferveu. Porque eu não esperava isso. Esperava medo. Esperava choro. Esperava fuga. Mas Valentina, ela enfrentou o Velho com o peito aberto. E quando nossos olhos se encontraram não teve como negär. Ela é minha. Não por propriedade. Não por dívida. Não por pacto. Ela é minha porque nenhum outro homem nesse mundo teria coragem de encarar o que vem com ela. Nem força pra domar o caos que ela carrega. Nem sangue frio o suficiente pra sobreviver no mesmo fogo. E eu sou o único. Sem paciência falei de uma vez que ela era minha, ela ficou sem reação, mas eu não estava afim de ficar brigando e muito menos estragar a festa dela, que com certeza é muito importante para ela. Mas ela não estava com cara de quem ia ficar calma. A festa virou campo minado depois disso. E eu decidi que iria embora e voltaria em um momento mais oportuno. Voltei para o hotel com o silêncio do meu pai me queimando as costas. Ele não disse nada, mas eu conheço esse olhar. Don Velásquez odeia resistência. — Você viu a forma como ela falou comigo? — ele perguntou, finalmente. — Vi. — Vai ser um problema. — Vai ser minha esposa. Ele me olhou de canto, tentando decifrar se eu estava obedecendo ou gostando da ideia. A verdade? Nem eu sei. Parte de mim quer essa garota só pra calar aquela boca atrevida. Outra parte quer muito mais. Quero ver ela se despindo não só do vestido, mas da resistência. Quero ver ela fraca só comigo. Gritando meu nome, tremendo nas minhas mãos. Mas também quero ver ela forte. Brava. Corajosa. Jogando o mundo no peito e dizendo que não vai se curvar. E eu vou estar aqui, sempre. Com a mão firme. Com o sangue no limite. Porque eu sou Gael Velásquez. E eu não sou um herói. Não sou o príncipe encantado. Não sou um apaixonado. Sou o filho do Don. Sou o veneno e a cura. E agora sou o dono da princesa do morro. Mesmo que ela odeie. Mesmo que ela lute. Mesmo que ela tente fugir não tem mais volta. Valentina é minha. E eu… Sou o fim da liberdade que ela tanto sonhou.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR