EU FICO em Phonex por apenas três dias. A venda da minha pulseira de ouro puro em uma joalheria no centro, um dia depois da minha chegada e do conselho de Glória, me ajuda a me fixar nesse tempo e a ter algo para comer, além de uma passagem direto à Los Angeles, na Califórnia, onde o domínio da Nuestra Família era menor em comparação à Mafia Mexicana.
Na realidade, não existia uma maior que a La eMe nos Estados Unidos inteiro, quanto menos Califórnia. As maiorias dos cartéis e gangues estavam aliadas à eles, dentro e fora do sistema penitenciário e até mesmo os sussurros dentro da Nuestra Família deixavam isso claro sempre que o assunto era tocado.
Como eu sabia disso? Era fácil. Sendo filha de um Capitão, m****o do alto escalão, era comum que eu ouvisse uma coisa ou outra no meio de conversas paralelas, além do fato de que quando pequenas, Mia e eu costumávamos brincar de nos esconder dentro do escritório de papai. Fora tudo isso, eu era cotada para ser esposa de um General e sabia de toda a nossa história, porque absolutamente todo mundo me contava afim de fazer com que eu me orgulhasse pela honra e o dever de me casar com um m****o da La Mesa.
Obviamente, não adiantou. Eu não tinha orgulho de crescer dentro da máfia, quanto menos de ser cotada para esposa de um dos seus chefes. Não existia honra no ato de me tornar uma esposa troféu, ter minha vida altamente controlada e em fechar os olhos para as atrocidades que eram cometidas dentro do nosso ciclo como se não fossem nada.
Eu não me sentia feliz em ter que me casar com quem eu nunca tinha visto e onde provavelmente estaria fadada a viver um casamento estritamente político e condenado aí fracasso; infeliz.
Fugir foi a única opção que achei, mesmo sabendo que nem mesmo meu pai me salvaria da morte se a Nuestra Família colocassem as mãos em mim. Não que ele fosse mexer um músculo por mim, claro.
Desertar da família era considerada uma das mais altas traições, tendo apenas a morte como única punição possível. A julgar pelo fato de quem eu tinha fugido, seria bem provável que meu ex noivo quisesse fazer isso pessoalmente. Eu não tinha insultado só a ele, mas também a sua família, reputação, além de ter arrastado o nome da minha para a lama.
No fundo, eu só rezava para que Mia ficasse bem, apesar de tudo. Ajudar-me com certeza a colocaria em problemas equivalentes aos meus se alguém descobrisse.
Desembarquei em Los Angeles perto do meio dia, em uma terça-feira ensolarada. Eu já tinha vindo aqui uma vez, há muito tempo atrás, em uma viagem com mamãe e Mia, que tinha ido por água abaixo três dias depois da nossa chegada. Tinham sido poucos dias, mas eu conseguia me lembrar bem dos poucos passeios que tivemos, antes que nossos seguranças fizessem nossa escolta de volta para Santa Fé.
Aparentemente, havia um traidor dentro da Nuestra Família que vazou a respeito das filhas e esposa de um Capitão em terras inimigas, o que fez com que meu pai começasse a andar pisando em ovos.
Embora isso, eu não conhecia bem a cidade quanto queria. Olhar em volta da rodoviária e perceber que não tinha nenhuma plano, apesar das infinitas possibilidades, me deu um frio na barriga. Tudo até o presente momento tinha sido à base do improviso, mas agora que eu finalmente tinha chegado ao meu destino final (talvez), não ter um plano não parecia certo.
Lentamente me encaminhei para fora, olhando para o céu azul naquela tarde e fechando os olhos. Bem, seja o que for, eu arrumaria um jeito de me adaptar o quanto antes.
(...)
A vida na cidade grande não era fácil, logo percebi. Para uma menina como eu, que cresceu dentro de uma gaiola dourada impedida até mesmo de sonhar com faculdade ou curso, era pior ainda.
Arrumar um emprego tendo zero de experiência era já difícil. Arrumar um tendo zero experiências, sabendo fazer zero coisas aos vinte anos tornava minha missão de conseguir dinheiro e me estabelecer quase nulas.
Eu estava na cidade há cinco dias. Há três tinha percebido que o pouco dinheiro que ainda me restava estava evaporando como água fervendo e, em breve, começaria a ter problemas se as coisas não começassem a andar.
Apesar de tudo, eu podia me sentir aliviada por não ter sido rastreada... ainda. Sabia que podia ser apenas questão de tempo ou percepção. Talvez as forças da Nuestra Família não fossem tão grandes quanto parecessem ou, talvez, eles apenas estavam a um passo de mim e eu não conseguia ver. De qualquer forma, eu estava tentando não me prender a isso todas as vezes em que saia da pousada velha em que me hospedei, vestida com o único vestido descente que tinha (não ironicamente, o da minha despedida Zé solteira) que eu tinha conseguido lavar há dois dias.
Eu costumava usá-lo apenas para sair. Fora isso, tinha que ficar permutando entre ele, as duas únicas calcinhas que tinha e a calça e camiseta que tinha comprado na loja aquele dia. Eu não tinha nada além disso e nem mesmo conduções de comprar nada, então tudo que me restava era esperar as coisas melhorarem o quanto antes.
Percebi que o dia seria quente no momento em que coloquei meus pés fora da pousada naquela manhã. Eu não tinha bem noção das horas, mas algo me dizia que devia ser por volta das nove, já que estava acordada desde às três com a barriga roncando de fome.
Eu também não fazia uma refeição decente há dias, mas o pacote de salgadinhos que devorei ontem junto com uma garrafa de água tinha ajudado a segurar as pontas. Estava em uma situação delicada demais. Tinha dinheiro para apenas uma diária além da de hoje, o que não me dava muito tempo para arrumar um emprego com segurança.
Eu precisava de um. Qualquer um, desde que me ajudasse a pagar um lugar para dormir e comida o suficiente para me sustentar.
Foi essa mentalidade que me deu gás para sair mais um dia rumo à minha caçada, mesmo que as coisas não estivessem favoráveis para mim. A prova disso foi quando um pouco perto do meio dia, eu senti uma movimentação estranha logo nas minhas costas que fez meu pulso acelerar.
Eu não sabia onde estava, nem para onde ir, mas agradeci que aquela hora tudo fosse movimentado quando acelerei os passos rumo à uma avenida sem olhar para trás. Entretanto, o arrepio na nuca ainda indiciava.
Molhei os lábios, tentando não entrar em desespero.
Eles tinham me achado. Eles tinham me achado. Eles tinham...
Meu coração estava disparado no peito, mas mesmo assim forcei minha respiração a se controlar enquanto acelerava os passos. Uma fina camada de suor descia pela minha testa quando passei por uma multidão atravessando a faixa de pedestre, ousando olhar para trás por um instante até encontrar alguém com os olhos vidrados em mim e um sorriso sádico.
Um homem. Alto, forte, careca. Por volta dos 38 anos... eu sabia quem era ele. Esteván tinha sido meu segurança por malditos sete anos. Desde quando meu noivo, no auge dos dezoito, tinha decidido que já estava na hora de um dos seus homens assumirem o posto no lugar Martin, segurança designado pelo meu pai para cuidar de mim e Mia até os meus treze anos. Se ele estava aqui e tinha me achado, isso significava uma única coisa: ou era ele ou eu.
Eu engoli em seco, voltando a olhar para frente e entrando na primeira rua que encontrei, praguejando mentalmente ao notar que aquela tinha sido uma péssima ideia.
A rua era muito menos movimentada que a anterior, mas as pinturas nas paredes diziam que aquele era um lugar arriscado tanto para mim quanto para Esteván. Ainda assim, eu sabia que ele não estava preocupado com isso quando tentou me acompanhar e, sem pensar duas vezes, eu corri.
Corri para qualquer lugar, o mais rápido que podia, mesmo que meu porte físico pequeno apesar dos anos de corridas ainda fossem insuficientes para escapar de suas garras. Corri como se minha vida dependesse disso, (porque, no fundo, dependia) e eu não estava disposta a morrer nas mãos daqueles de quem eu tinha lutado tanto para fugir e estar longe.
Corri sentindo meu cabelo grudando no rosto, o ar escapando dos meus pulmões ao virar em outra e outra esquina até que não tivesse mais para onde correr e desse de cara com um muro de concreto alto.
Dois prédios fechavam a laterais, cercando-me entre eles e Esteván. Duas portas davam acessos a cada prédio, mas eu só tinha uma chance de acertar uma possível aberta e prolongar ainda mais o trabalho dele.
Eu estava perdida, meus olhos encheram de lágrimas quase que imediatamente quando percebi. Perdida e breve morta. Sem chances de viver uma vida normal, conhecer um amor ou estudar. Sem chances de mais nada. Tudo havia sido tirado de mim há muito tempo, eu devia ter notado antes.
─── Esteván... não faz isso, por favor!
Sussurrei como se tivesse realmente uma chance. Eu não tinha. Seus olhos e sorriso sádico diziam isso. Lealdade à Nuestra Família acima de tudo, era o lema.
─── Você me conhece há sete anos... e-eu... e-eu... por f-favor, eu juro que não vou voltar. Só quero poder viver em paz e...
─── Você traiu à família, a todos nós. ─── Estalou o pescoço, seriamente. ─── Tenho ordens para levá-la para casa, Srta.
Franzi os lábios.
─── Eu vou morrer?
Uma lágrima teimosa caiu, mas a resposta era óbvia. Claro que sim. Traição. Traição à La Mesa. À Nuestra Família. Crime imperdoável.
─── Torne as coisas fáceis, garota e venha comigo por bem ou te levarei por m*l. Estou sob comandos para te levar do jeito que for, utilizando todos os meios. O que acontecer com você depois que chegarmos em território da Nuestra Família será decisão do Nuestro General.
Balancei a cabeça.
─── Você não pode me machucar. Sou filha de um Capitão.
─── Às ordens vieram diretamente dele. ─── Esteván sorriu, aproximando-se perigosamente. Eu recurei, sentindo meu corpo tremendo de cima a baixo não reconhecendo o tom sombrio no seu rosto. ─── Você deveria ter sido uma boa menina, Isabella.
Um soluço involuntário escapou, principalmente quando sem mais nem menos Esteván se jogou na minha direção e me prendeu, rindo ainda mais quando meu choro entalado e desespero na intenção de me soltar fez com que eu debatesse meu corpo. Inútil, claro. Ele era alto, mil vezes mais forte e bem mais ágil.
Não demorou até que conseguisse me conter, encarando meu rosto de perto e prendendo meus braços com uma só mão para tirar uma mecha do meu cabelo do rosto.
─── Vai ser um desperdício de beleza. Talvez o General tinha pena e te prenda em um dos bordéis baratos da Nuestra Família para que eu possa te fazer uma visita às vezes.
Meu estômago revirou de nojo, junto com as lágrimas que tampadas minha visão por um momento antes que eu notasse minhas pernas livres e lhe desse uma joelhada entre as suas. Esse momento... o único quando seus braços afrouxaram o aperto e me permitiram me soltar e correr para a primeira porta à esquerda, que por sorte estava destrancada quando a empurrei com tudo e cai no chão, já dentro.
Esteván demorou poucos segundos para se recompor, segurando minha perna antes que eu pudesse me arrastar mais para frente, mas eu consegui chuta-lo e me soltar de novo a ponto de me levantar e correr para qualquer direção.
Claro que ele me seguiu pelo corredor estreito e escuro, as paredes parecendo cada vez mais largas conforme íamos entrando e, quando a única saída deu até uma porta vermelha com um "Pandemonium" escrito em letras pretas e douradas, eu percebi que estávamos na espécie de uma saída de emergência de um bar ou algo do tipo.
Eu não me preocupei com isso, no entanto. Tomada por um impulso e necessidade incessante de sobrevivência, apenas puxei a porta com tudo e cai novamente para dentro, sentindo uma mão firme enrolando nos meus cabelos antes que eu pudesse dar mais um passo adiante do infer.no que me esperava do outro lado.