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1974 Palavras
ISABELLA HOLBROOK, ARIZONA Eu sabia que as chances de ser rastreada eram grandes, independente de estar ou não em território da Nuestra Familia. Sabia que, a partir do momento em que eles notaram minha falta, eles iriam até o inferno para me achar, principalmente se contar pelo fato de que agora eu era a noiva fugitiva de um dos seus líderes. Pisar em Santa Fé, capital do Novo México, &Cia estava fora de cogitação agora e eu realmente não estava interessada em morrer tão nova. Era questão de tempo até saberem qual ônibus eu tinha pegado e para onde. Por isso que, assim que chego em Holbrook, no Arizona, eu desço ao invés de seguir caminho. Holbrook era uma cidade pequena, pouco mais de 5 mil habitantes e, até então, o lugar perfeito para que eu pudesse me hospedar por um dia, até seguir viagem para Phoenix, capital do Arizona. Eram mais de duas da tarde quando desembarquei, alongando minhas pernas e sentindo o incômodo da blusa pegajosa no meu corpo. Minha barriga roncou de fome quase no mesmo instante, mas não podia me dar ao luxo de comer algo até ter dinheiro o suficiente para chegar em segurança à um local mais desconhecido. Desci do ônibus sem nenhum problema, em busca de um banheiro pá esvaziar minha bexiga e, principalmente, descartar meus documentos. Eu o achei dois minutos depois, dentro da própria rodoviária. Conferi se as cabines estavam vazias, antes de pegar a papelada e rasgar com cuidado, jogando na descarga, salvando apenas uma foto 3x4. Quando terminei, soltei um suspiro cansado. Estava fugindo há mais de doze horas, o que me dava alguma vantagem a mais já que eles ainda não tinham me encontrado. Passei um tempo olhando em volta, traçando uma nova rota, ate que minha barriga roncando novamente. ─── Só mais um pouco. ─── Sussurrei, com a mão lá. O cheiro de batatas fritas vindo de uma das lanchonetes estava acabando comigo. ─── Com licença, você sabe onde tem uma pousada e uma conveniência por aqui? Perguntei a uma pessoa que passava por mim. Era um homem alto, que me olhou de cima a baixo antes de me entregar um sorriso sujo. ─── Tem uma próxima ao centro. Eu posso te dar uma carona se você quiser, gatinha. Meu estômago deu uma volta e embrulhou. Recuei dois passos, engolindo em seco. ─── Obrigada! Praticamente corri ao sair de lá. Fui ate a saída, rezando para que a corrida desse o suficiente para que eu conseguisse pagar uma diária até amanhã ou então dormiria na rua, o que eu tambem não podia arriscar. Havia apenas um taxista na estação descascando uma laranja quando cheguei. Ele me olhou de cima a baixo, tal como o homem minutos antes, antes de balançar a cabeça e voltar a atenção para a fruta. Eu o olhei com mais cautela, gelando principalmente ao notar a tatuagem do número 13, marcando mais necessariamente o símbolo das gangues alinhadas a maior rival da Nuestra Familia, a famosa máfia mexicana, La eMe. Pigarreei, desviando o olhar. "É só agir normalmente, Bella". Sussurrei para mim mesma. ─── Para a pousada mais barata que tiver por aqui, por favor. Eu disse, antes que pudesse levantar suspeitas. Abri a porta do carro, vendo o homem dar a volta e entrar também, encarando-me brevemente pelo espelho durante todo o caminho. Cada olhada sua era como se eu pudesse sentir minha alma saindo e voltando do corpo. Qual a chance dele descobrir quem era o meu pai? Estacionamos em frente à uma pousada velha, instantes depois, que quase me fez hesitar e procurar por uma melhor. No entanto, este era outro luxo que eu não ter. Paguei minha corrida, olhado o local desarto em volta e agradeci a conveniência do outro lado da rua. A porta do local fez um rangido quando empurrei para entrar, com um sino anunciando à recepção de madeira velha minha chegada. Havia uma senhora de cabelos brancos atrás do balcão, que me encarou por cima dos óculos de grau com uma expressão séria. ─── Eu preciso de um quarto para essa noite. ─── Pedi. ─── Tem algum disponível? ─── Tenho certeza que porro arrumar algum. Está de passagem pela cidade, querida? Olhei em volta, assentindo. ─── Bem, basicamente. ─── Você pode pegar o 203 do segundo andar. A diária custa quinze dólares, pagamento da metade adiantado e a outra quando sair. Estendeu as chaves para mim. Agradeci com um sorriso, pagando o que podia e me direcionei até as escadas de madeira, encarando o papel de parede sujo do lugar até o segundo andar. Chegando no 203, eu já não tinha muitas expectativas quanto girei o trinco e encontrei um quarto antigo, mobilado apenas com uma cama de solteiro com um colchão tão fino quanto meu dedo, uma escrivaninha ao seu lado e um banheiro sem porta. ─── É, melhor que nada. Eu disse, sentando-me na cama. Ela rangeu alto, mas não quebrou. Meu estômago roncou de novo, fazendo-me fechar os olhos e me levantar de novo, rumo a conveniência. Eu sabia que o dinheiro que tinha dificilmente daria para chegar até Phoenix, então precisa mudar minha tática e estava ficando sem tempo. Tranquei a porta do quarto, descendo até o térreo e segurei minha carteira em mãos, olhando em volta quando cheguei. Assim como tudo na cidade, era um local pequeno e a atendente até que era jovem, dessa vez. Entretanto, pela primeira vez, ela não se importou em me olhar, apenas dizendo um "bem vindo" com a atenção no celular. Dei dois passos em sua direção, prestes a perguntar sobre a sessão de tintas para cabelo quando algo me chamou atenção. Sua carteira, em cima da mesa. Mordisquei o lábio inferior, devido a ideia que me atingiu. Segui reto até um corredor onde as tintas de cabelo ficavam e olhei elas por um tempo. Há muitos anos meu cabelo assumia um tom mel que eu não tinha pretensões de mudar, mas dada a circunstâncias, era o que eu faria. Peguei uma tinta preta, um pacote de biscoitos e voltei para o balcão, após olhar por cima dos ombros uma mini sessão de roupas do outro lado. ─── Com licença.. ─── Disse, colocando as coisas no balcão. Pela primeira vez, a menina me encarou. ─── Eu estive olhando as roupas alguns segundos atrás, porém não encontrei nenhuma camiseta P dentre elas. Sabe me dizer que há alguma por aí? ─── Talvez. ─── Ela franziu os olhos, levantando-se do banco para olhar as roupas. ─── OTTO, REPOSIÇÃO DSS ROUPAS. PRECISO DE UMA CAMISETA P. Gritou para alguém. ─── OTTO? Silêncio. Quando não houve respostas, eu a vi soltar um suspiro pesado. ─── Trabalhar aqui é um saco! Eu vou dar uma olhada. Mais alguma coisa? Neguei com a cabeça. Ela se moveu porta a dentro atrás do balcão, deixando-me sozinha pela primeira vez com sua carteira e minha única chance de conseguir alguma coisa nova antes de sair dali. Eu me debrucei contra a madeira, esticando a mão e puxando o objeto. Soltei um suspiro aliviado ao encontrar, além de uma carteira de identidade e motorista, mais alguns dólares guardados ali. Ashley White, 21 anos. Ótimo! Peguei tudo rapidamente, guardando nos bolsos antes de devolver o objeto para onde estava anteriormente e voltar até as roupas, afim de pegar uma calça nova. Eu precisava, urgentemente trocar de roupa. Voltei a tempo de ver a garota, quem eu descobri que se chamava Ashley, voltando também, com o que pedi. Passei tudo o que tinha, vendo-a calcular e, no fim, o valor não me surpreendeu surpreendeu levar praticamente tudo que tinha. Pouco instante depois eu estava passando pela porta da pousada de novo. A mesma senhora estava no balcão, o que me fez parar com um sorriso gentil no rosto e olhá-la. ─── Desculpa incomodar mais uma vez, mas teria como você me arrumar uma tesoura? (...) No dia seguinte, eu estava viajando rumo a Phoenix. Meu cabelo estava uns dez centímetros mais curtos, picotados por uma tesoura velha e enferrujada, bem acima dos ombros. Nos meus bolsos, uma carteira de motorista com o nome "Ashley White" e uma foto m*l colada minha, dizia que esse era minha nova identidade dentro de uma cidade grande. Entretanto, minha sorte acabava por aí. Eu tinha dinheiro para apenas uma refeição, meio pacote de bolachas, uma diária e nenhum dinheiro pro táxi dessa vez. Além disso, não conhecia um terço dessa cidade e meu último banho tinha sido há quase um dia. Era loucura, mas nessa altura eu poderia estar muito pior. Casada, por exemplo, e eu não sabia como meu noivo devia estar se sentindo no momento. O clima no Arizona não era nada além do que eu já estava acostumada, o que me fez encarar o céu por um bom tempo enquanto andava pelas ruas em uma direção qualquer. Estava reacionando minhas bolachas, mesmo morrendo de fome e fazia um bom tempo que não bebia água. Eu só parei, no entanto, quando entrei em um bairro estranho, aparentemente quase abandonado se não fosse pelas janelas com cortinas abertas nos prédios velhos. Era um bairro pobre, percebi, mas isso não me incomodou. Percebi, então, que continuaria andando se não obtivesse nenhuma informação sobre onde estava, então no primeiro estabelecimento que encontrei aberto, eu entrei. Era um bar. O cheiro insuportável de bebidas, drogas e cigarros forçando uma careta imediatamente, mas não podia dar para trás. Encaminhei-me até o balcão, limpando a garganta quando uma mulher me olhou. ─── Não vendemos bebidas para menores. ─── Não estou aqui para isso, na verdade. Eu queria uma informação. ─── Sorri, recebendo um olhar estranho. ─── Sabe me dizer onde há uma pousada por aqui? Eu acabei de chegar na cidade e estou um pouco perdida. Seu crachá dizia que seu nome era Glória. Sorri. Nome da minha mãe. ─── Perdida por essas bandas, querida? O que te trouxe aqui? Esse não é o tipo de lugar para meninas como você. Olhei sem entender. Glória indicou um ponto no meu pulso e, só então, olhando para ele, encarei minha pulseira de ouro no braço, além do meu anel de noivado. Ah, é. Eles ainda estavam ali, pensei enquanto escondia o braço. Glória sorriu. ─── Tem uma no fim da rua, com diárias baratinhas para você. Mas, se me permite um conselho: saia daqui o mais rápido que puder, querida, ou esse lugar vai sugar você. Há muitas pessoas más na rua, então cuidado e, se você desejar vender alguma dessas suas peças... ─── Fez sinal para que eu me aproximasse. ─── Faça isso no centro, bem longe daqui. Até lá, deixe-as guardadas. O crime organizado espreita em cada parede desse lugar. Senti um arrepio na nuca, mas concordei. Glória não parecia uma má pessoa, o que me deu levemente uma esperança de que fosse encontrar mais gente assim e, em breve, um emprego que pudesse me estabilizar um pouco mais. Sai do bar estava quase anoitecendo, então apressei os passos em direção ao endereço que Glória tinha me dado, não antes de notar os símbolos espalhados pelas paredes. Ok. Área da La eMe, o que me fazia acreditar que de todos os males, saber que as chances de alguém da Nuestra Familia invadir eram pequenas, me trazia pouco conforto. Isso foi o que pensei, horas mais tarde, antes de cair em sono profundo, temendo que minha identidade fosse descoberta cedo do que previa. Estava sem rumo, em um território inimigo e sozinha, mas esse não era meu maior medo ainda. ─── Eu só preciso de dinheiro e de sair daqui o mais rápido possível.─── Sussurrei para mim mesma, encolhida na cama velha. De qualquer forma, eu não tinha intenções de me fixar aqui, ainda que fosse a melhor opção. Estava cansada dessa vida na máfia.
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