ISABELLA
NOVO MÉXICO
Isa, corre!
Foi a última coisa que eu ouvi da minha irmã antes de fazer o que me foi dito.
Com o coração disparado e a adrenalina que corria no meu corpo, juntei toda minha experiência com corridas matinais durante os últimos anos e disparei em direção à porta do clube noturno, onde minha despedida de solteira totalmente premeditada pela minha mãe e suas amigas acontecida.
Eu nunca tinha estado aqui antes na minha vida e, se fosse anos atrás, essa era uma probabilidade minúscula de acontecer. O espaço não me agradava e, além disso, as paredes escuras e o som alto era tudo o que eu mais odiava no mundo. Entretanto, eu sabia que era o único jeito de me livrar do destino que tinham me dado desde o nascimento, então não primeira oportunidade que me apareceu, aceitei que minha festa fosse aqui.
Eu ainda era um bebê quando acharam digno que eu tivesse um noivo à altura da filha mais velha do Captain de um dos líderes da La Mesa, a maior patente dentro da Nuestra Familia composta por três Generais. Consequentemente, o meu noivo não era nada mais, nada menos que o filho do Nuetro General e, também, o mais apto a tomar o cargo quando o pai se aposentasse, tornando-se assim um dos homens mais poderosos do norte da Califórnia, Texas e outros da região.
Bem, isso era o que eu sabia, já que nunca tinha tido a oportunidade de ver o meu noivo pessoalmente e tudo o que sabia era que além de estar à dois dias do nosso casamento, ele havia assumido o seu cargo há dois anos.
Eu nunca tinha o visto, falado ou se quer sabia como ele era, mas já tinha escutado dizer que era um dos piores homens que já tinham chegado ao cargo de Nuestro General, o que me dava mais certeza ainda de que com toda absoluta, eu jamais me renderia à um futuro infeliz ao seu lado.
Outra coisa que eu sabia também era que, embora fosse dito entre à família sobre o respeito às mulheres, essa era uma realidade distante do que realmente acontecia. Eu tinha visto com meus próprios olhos como era ser uma mulher dentro de uma das maiores máfias do Norte da Califórnia e entendia que aquilo jamais seria para mim.
Primeiro porque liberdade nunca era um termo a ser considerado e, uma vez como filha do Captain, eu jamais poderia sair sem ser morta. Fugir era a opção mais arriscada e, mesmo assim, a única que encontrei e só tive duas vezes na vida.
A primeira foi quando tinha treze anos e um dos meus seguranças se afastou para atender uma ligação em um dia no parque, o que tinha feito o meu coração despedaçar, dias depois, quando me toquei de que dificilmente teria outra chance e que não aproveitei a que tinha.
A segunda, agora, em um plano totalmente planejado e executado por mim e pela minha irmã Mia, há mais de dois anos. Não foi difícil convencer à todos que eu precisava de uma despedida de solteira, mas foi quando tentamos convencer à mamãe que uma festa regada de seguranças jamais seria uma. De primeiro momento, eu pensei que daria errado até que ela finalmente concordou e, melhor que isso, aceitou convencer papai de que seria extremamente inoportuno tantos homens com mulheres bêbadas dentro de uma das casas noturnas da Nuestra Familia.
Embora não houvesse dentro, sabia que minha maior dificuldade seria lá fora. A área estava certeza de seguranças armados até os dentes, prontos para render qualquer uma de nós que ousasse fugir. Por sorte, de novo, minha irmã também tinha pensado nisso quando rodou toda a boate em busca de um alicerce que pudesse me ajudar a ir.
"É fácil, Bella. Nós esperamos até que todo mundo esteja bêbada o suficiente para não ligar para sua presença e então você irá até a dispensa se vestir como uma das empregadas. Às 03:00 horas uma parte do pessoal que atende aqui é liberado e, é nessa hora que você tem que sair. Caso não dê certo, eu tenho outro plano."
E é claro que esse primeiro não deu certo mas, como Mia tinha dito, ela tinha outro plano. O outro era usar uma arma (que eu não sabia como ela tinha arrumado) e efetuar um disparo para o alto, causando um pandemônio no local.
Isa, corre!
E quando tudo se tornou um caos de luzes piscando, mulheres chorando e gritando por toda parte, assim como seguranças invadindo tudo para averiguar a situação, eu corri até a porta dos fundos, empurrando com tudo e soltando um suspiro descrente por tudo que estava prestes a fazer.
Eu realmente iria fugir?
Deus. Era maluquice, mas sabia que era minha última e única chance. Uma vez que eu saísse, sabia que seria considerada uma desertora e, mais que isso, uma traidora.
Traidores não tinham segundas chances na Nuestra Familia, independente do cargo que ele ocupasse, o que me dava mais certeza ainda que mesmo que eu pai fosse um capitao, eu seria sentenciada à morte, principalmente por fugir do meu casamento com um dos membros da La Mesa.
Era loucura.
Foi o que eu pensei, saindo em disparada rumo ao inevitável. Prefiro à morte que a viver com um destino que não foi meu. Jamais me entregaria fácil à um homem que nunca conheci, menos ainda que sei que nunca poderia me amar.
Não existia amor na máfia, isso já era um fato. A prova disso eram os meus pais que fora de casa exalavam a imagem de casal perfeito, mas viviam o verdadeiro inferno dentro. Aliás, quem não vivia um inferno convivendo com o meu pai?
Eu só torcia para que apesar de tudo, Mia ficasse bem. Ela era minha única irmã e mesmo com todas minha insistência de trazê-la comigo, ela não quis ceder. Apesar de tudo, era grata pelo que estava fazendo comigo.
Os fundos da boate dava acesso à uma rua parada, completamente escura e perfeita para quem gostava de usar drogas, que me deu um arrepio só de olhar. Mesmo assim, sabia que era questão de segundos até que notassem a minha falta e viessem atrás de mim, então não podia me dar ao luxo de pensar demais quando passei por ela correndo, sem olhar para trás até ter acesso à uma avenida.
Eram quase quatro da manhã e já estava calor. Eu podia sentir o fino suor gelado descendo pela minha nuca em direção as minhas costas, cerrado de adrenalina e medo pelo que estava fazendo quando entrei na frente do primeiro táxi que vi e o obriguei a parar.
Alívio fez presente no meu rosto quando, mesmo com todos os xingamentos, o motorista parou e eu me joguei no banco traseiro ofegante, quase dez quadras longe da boate.
─── Para a rodoviária, rápido!
O motorista me deu uma olhada pelo retrovisor e por um instante gelei. Se ele estava no território da Nuestra Familia era provável que estivesse sob nossa proteção, porém ele não poderia me reconhecer, eu rezava. Abaixei a cabeca quando o carro partiu, sem proliferar uma palavra até que estivéssemos na rodoviária quase trinta minutos depois.
Eu não tinha muito dinheiro, mas sabia que dava para chegar em algum lugar longe do território da família até que eles conseguissem me rastrear. Ainda assim, sabia que nada os impediria de me buscar onde for.
─── Quanto deu?
─── Dez dólares. ─── Eu o olhei pelo preço absurdo, porém o motorista deu de ombros com o mesmo olhar.
Puxei a nota do bolso, soltando um suspiro e derramei para fora, entrando em passos rápidos no lugar vazio, deixando uma exclamação escapar quando notei que havia apenas uma bilheteria aberta. Corri até lá.
─── Boa noite. ─── Pigarreei, chamando atenção da moça do outro lado. Meu coração ainda estava disparado, com uma leve sensação de que a essa altura, eles já deviam estar cientes do meu sumiço e, provavelmente na minha cola. ─── Qual o ônibus mais perto de sair?
─── O Ônibus para Las Vegas, em cinco minutos. ─── Assenti. Ótimo. Era tudo que eu precisava. Estava com cem dólares ao todo nos bolsos, o que não era muito mas eventualmente eu conseguiria chegar até lá.
─── Eu vou querer uma passagem, então.
─── São quarenta e sete dólares. Pagamento em dinheiro?
Assenti. Passei as notas pelo balcão, batendo a perna enquanto olhava em volta e entreguei minha documentação. A moça olhou meu nome por um tempo, antes de erguer o olhar até mim.
─── Por favor, se a senhora puder andar rápido, eu....
Demorou um tempo até assentir. Três minutos depois, com minhas passagens em mãos e cinquenta e três dólares nos bolsos, eu estava correndo até o vagão onde o ônibus para Las Vegas começava sair.