Lucas
Rafa me achou na mureta da Pipa Azul com aquela cara de quem já negociou maré com lua.
— Noite segura — ele abriu, direto. — Caio topou um pocket no galpão da ONG, vinte mesas, luz boa, nada de paredão gigante. Menos risco.
— Sem trocar de laje? — confirmei, lembrando a costela.
— Sem trocar de laje. Célio preferiu dentro do nosso quadrado. Se sair, é escolta.
Assenti. Conduta vira senha; eu vinha colecionando senhas como quem aprende alfabeto.
— Quero propor um lugar neutro pra conversar — arrisquei, mantendo o tom baixo. — Padaria do Padre, amanhecer. Onde a música não grita.
Rafa arqueou a sobrancelha.
— Você não propõe rota pro morro. O morro propõe rota pra você.
— Eu sei. Eu proponho pro ninguém — corrigi, meio sorriso. — Tainá leva ou apaga, conforme o vento.
Ele me mediu de cima abaixo, tentando entender se era coragem ou saudade à toa. Talvez as duas coisas. Água primeiro no balcão, gole curto, pulmão em compasso.
Caio chegou de boné, o fone pendurado no pescoço.
— Set curto — avisou. — Sem drop de ego, só marola. Mensagem pra quem precisa ouvir, som pra quem precisa ficar.
— A mensagem é o código — eu disse. — Dora respira no meio, como quem tranca e destranca a porta.
Caio assentiu sem perguntar mais. Aprendi a gostar da forma como ele trabalha: sem manchete, só serviço.
Enquanto ajeitávamos o cenário do evento menor, meu telefone vibrou. Número desconhecido. Abri esperando nada e recebi tudo:
“Troca de laje hoje é armadilha.”
O corpo reagiu antes da cabeça: gelo no estômago, mola na nuca. Rafa viu a minha cara pela metade.
— Problema?
Mostrei a tela. Ele mordeu o lábio.
— Quem?
— Anônimo.
— Pode ser invenção. Pode ser aviso.
Célio surgiu como vírgula que impede frase de desandar.
— Que invenção? — pediu, olhos no meu telefone, não no meu rosto.
Virei o visor. Ele leu uma vez, como quem confere placa.
— Se a troca não partiu de mim, é armadilha — determinou, simples. — Confirmo com o chefe. Por hora, nada de deslocar. Nada de convite que cruze rua errada.
— Eu pensei em padaria ao amanhecer — falei, jogando a ideia pro espaço onde as ideias morrem sem fazer cena.
— Padaria é bom pra pai e velho. Pra vocês dois, r**m. Neutro é onde todo mundo acha que manda — e ninguém manda. — Ele me deu aquele nó de queixo: entendeu?
— Entendi.
Caio ajustou o cabinho do fone, sentindo a tensão.
— Seguro manter aqui — concluiu. — Sem troca, sem recado bobo. Se tiver encontro, é duas músicas e ponto.
Assenti. Trégua é um tipo de vitória que dói menos depois.
No galpão, luz amarela e mesa de plástico, cheiro de café coado ganhando do óleo por um milímetro. Criança rabiscando folha com giz, duas senhoras trocando receita de bolo, trio de moleques negociando figurinhas com gravidade. Evento menor tem esse luxo: a cidade finge que é povoada só de coisas boas por uns setenta minutos.
Caio abriu com linha mansa. Rafa virou porteiro de sorriso e muralha de costas. Eu ocupei a lateral, calçada e linha do meio na cabeça como mantra. Nada de atalho.
Telefone vibrou outra vez. Mesmo número.
“Se quiser ver, hoje ela cruza no Vidigal. Lado de lá. Decide.”
Respirei devagar. Não era o nosso código. Não era o tom da Tainá. Não era a gramática do Célio. Era outra mão buscando meu pescoço.
— Cheirou errado — falei, mostrando. Rafa fez cara de quem viu uma cobra numa gaveta de meias.
— Isso é isca.
Eu pensei em Isadora sem nome, pulso real. Pensei nela 24 horas longe do sobrenome, tentando ver quem é quando ninguém chama. Se essa mensagem tinha “Vidigal”, tinha pressa errada. Ela não andaria sem âncora. Tainá não usaria imperativo.
Célio encostou.
— Me manda esse número — pediu. — Eu vejo com calma. Minha ordem por enquanto: fica. O morro te entregou trégua, não estraga.
— Trégua marcada, então — eu disse, mais pra mim do que pra ele.
— Trégua marcada — ele repetiu, selando com o queixo.
Caio falou “respira” no microfone, o código prometido. A sala sentiu e respirou. Eu não desci. Esperei no ponto combinado. Nada de nome, nada de mão. Uma sombra conhecida passou pela porta, e por um segundo meu peito errou o compasso. Mas era Tito, o filho de Dalmo, curioso de feira, não o que meu corpo procurava. Rafa interceptou com diplomacia, conversa de vizinho, café oferecido. Evento menor também serve pra isso: sair de cena sem parecer expulsão.
Outra vibração. Terceira mensagem:
“Última chance. Dez minutos. Escada velha.”
A escada velha é nossa. Quem escreveu sabe metade. Metade é o perigo dos inteligentes. Tainá não diria “última chance”; diria “janela”. Célio não diria “escada velha”; diria “lateral”.
— Posso responder? — perguntei a Célio.
— Responde com o teu espelho — ele devolveu. — “Água primeiro. Sem atalho. Quando couber.” Quem for de casa entende; quem for armadilha desiste.
Digitei:
“Água primeiro. Sem atalho. Quando couber.”
Enviei. O tique azul não veio. Sumiu no vácuo onde o medo mora.
Caio fechou o set sem fogos, palma mansa, crianças bocejando, senhoras guardando receita no sutiã. Rafa recolheu fio, eu recolhi pressa. Célio fez o mapa da saída como quem devolve gente para casa sem que a rua perceba.
Na porta, Tainá apareceu — âncora em pessoa, cabelo preso, olho vivo.
— Ela não vem — disse antes que eu perguntasse. — Hoje, não. Amanhã a gente vê se cabe. — Olhou para o meu peito, procurando as mensagens que eu não mostrei. — Te mandaram coisa?
— Mandaram. — Mostrei a tela. Ela leu, o olho fechando meio milímetro.
— Isso é de dentro e não é da gente — carimbou. — Pulso errado. — Guardou o telefone. — Obrigada por não ir.
— Eu fico — respondi, sincero.
Célio nos cercou com meia palavra.
— Trégua vale até o sol. Depois a cidade reorganiza. Amanhã eu digo se tem janela. — Para Tainá: — Leva sem atalho. Sem cena.
Ela assentiu. Nós três sabíamos que o difícil não era sair; era não querer voltar antes do tempo.
Rafa me deu carona. No banco, o corpo cobrava boleto atrasado do susto que eu não deixei virar barulho.
— Quis ir? — ele perguntou, à toa.
— Quis — admiti. — A mensagem era um peixe brilhando no raso.
— E por que não foi?
— Porque não pechincho respeito. Dou. E dou também pra mim. Sem atalho.
— Boa resposta. — Ele apontou o queixo pro vidro. — Teu chefe — riu, me cutucando — vai gostar de saber que você às vezes aprende.
— O teu chefe é Célio — corrigi, rindo também. — O meu é o espelho.
O telefone piscou quando já estávamos no pé da ladeira. Número novo, frase curta:
“Trégua confirmada. Amanhã, se couber, aviso. — C.”
Sorri. A letra do Célio é a de alguém que não faz teatro nem pra avisar paz.
— Dormir? — Rafa perguntou.
— Tentar — respondi. — Amanhã o mar me cobra braçada.
No quarto, a frase do Sombra voltou como ferro: “Se ela escolher, eu saberei antes de você.” Engoli a pontada de ciúme como quem engole comprimido sem água. Água primeiro, lembrei, e fui na cozinha encher o copo.
Escrevi no espelho, caneta fina, para não me trair:
“Trégua marcada não é desistir.
É não dar palco pra armadilha.
Quando couber, coube.”
Apaguei o que era supérfluo, mantive o essencial. Deitei, sentindo a costela pulsar contra o lençol, enquanto a cabeça repetia a máxima que me salvou hoje: "Sem atalho." Lá fora, o som de uma moto se despediu no corredor, um "te vejo" que meu coração respondeu com um "sem mãos".
Esperei. E, pela primeira vez, essa espera foi uma ação, não uma falha. Amanhã, se houver espaço, direi sim onde o silêncio não é perturbado pela música. Hoje, a trégua já estava estabelecida. Não vim para o morro para ignorar o aprendizado do mar: há ondas que precisam ser deixadas para trás para que você mantenha o fôlego que te preserva vivo.