Capítulo 27 — Queda de Bandeira

1344 Palavras
Isadora A tarde sugeria uma trégua, mas o morro jamais cede ao descanso; ele sabe o que é uma janela de oportunidade. n**o Célio, pelo rádio, ditou as ordens da noite: troca de laje com a turma do Coruja, inversão de fluxo e liberação de duas rotas. Vera encerrava o posto mais cedo, enquanto Breno patrulhava as vielas com precisão. Eu e Tainá ficamos de apoio perto da Pipa Azul, com um kit básico de emergência: curativo, soro e gaze. "A coragem não faz barulho," eu repeti, o terço apertado no bolso. — Hoje é serviço, Isa. — Tainá apertou minha mão. — Sem cena. — Serviço, eu prometi. Quando o relógio mordeu oito e vinte, a bandeira improvisada no alto da laje — pano vermelho que algum vizinho pendura em dia “tranquilo” — tremulou diferente. Não foi vento. Foi sopro de pólvora. O primeiro estalo veio baixo, como quem ensaia. O segundo quebrou. A rua jogou o corpo no chão por instinto. n**o Célio entrou na frequência: — Cobra na curva. Corta lateral. Laje B fechada. Ítalo respondeu do outro lado, frio demais para quem devia suar: — Lateral tá limpa. Escada velha, liberada. Escada velha. A palavra riscou a minha nuca. Escada velha era nossa, meio segredo, meio rotina. Foi a expressão que apareceu na mensagem anônima onde tentaram me pescar, ontem: “Última chance. Escada velha.” Pulso errado. De dentro. — Célio? — eu sussurrei, mas o rádio era dele, não meu. A bandeira caiu — não como símbolo, como coisa física mesmo, rasgada por tiro que errou alguém e acertou pano. Queda de bandeira. O morro entende metáforas mesmo quando não quer. — Cobre, cobre! — Breno me puxou para trás da mureta. Tainá já arrastava duas crianças para a cantoneira da porta, corpo de anteparo. Soube que era emboscada quando vi dois homens que não eram nossos saindo do corredor da escada velha ao mesmo tempo em que Ítalo mandava entrar por ali. Erro duplo não é coincidência: é seta. — É buraco! — gritei para quem me ouvisse. — Não entra na escada! O terceiro tiro estourou vidro. Ardeu areia no olho. Uma mulher caiu perto do balcão, mão no ombro, sangue carimbo. Meu corpo tomou comando que a cabeça não deu. Triagem é ABC, professora Vera na minha orelha: vias aéreas, respiração, circulação. — Respira comigo — falei, palma aberta no peito da mulher. Pulso rápido, ar entrando. Circulação: sangue em jato, mas não arterial. — Pressão aqui. Forte. — Empurrei gaze, pano limpo, minha mão por cima. — Você segura. Eu não solto de você. Tainá me alcançou mais gaze. Foi ali que vi a linha vermelha riscando o braço dela. — De raspão — ela disse, antes que meu coração derramasse o mundo. — Queima, mas eu tô. — Pressa não, pressão — respondi, e ri de nervoso. Limpei o risco, comprimei, faixa. — Você comigo até o fundo. Nada de heroína hoje. Célio apareceu pelo chão da vista, fazendo a palavra “calma” com a mão. Sombra vinha atrás, quieto, olho de inventário. — Quem mandou escada velha? — ele perguntou, sem olhar para ninguém específico. O rádio de Ítalo chiou, a voz tentando encontrar um tom neutro: — Eu vi corredor limpo. Foi meu. Célio não precisou discutir no grito. Girou o queixo para o canto. Dois dos estranhos recuavam pela escada velha que Ítalo “liberou”. Um deles pisou num prego, xingou alto — acento de fora. Prova concreta é luxo raro; quando aparece, a gente pega com as duas mãos. — Fecha, fecha! — Breno e mais dois cortaram o corredor com tábua e gelo na veia. A rua obedeceu. Outro estalo e a lâmpada desceu morta. O escuro é meu inimigo e meu mestre; aprendi a enxergar gente no ruído. — Isadora — Sombra no meu ouvido, baixo. — Sai da linha. Faz a tua parte e some da mira. — Tô fazendo a minha parte — respondi, sem desafiar. Apertei mais a compressa da mulher. — Mais duas respirações comigo, Dona Elza. — Ela piscou. É sempre Dona Elza quando o corpo me pede um nome. Tainá protegeu a criança em seu colo, amparando sua cabeça com o ombro. O ferimento de raspão, lembro, parece fatal até que a gente o trate. A emboscada se desfez tão rapidamente quanto começou. Não buscavam tomar o território, mas sim um teste, um recado, uma rasteira – uma demonstração de força para medir nossa reação. Quando o barulho cessou, restaram os latidos, vidros estilhaçados, ferro retorcido e uma pista: os rádios captaram duas scooters fugindo pela Rua 2. Célio ordenou não perseguir; ele sabia que armadilhas costumam ter uma segunda etapa para quem se arrisca a conferir. — Ítalo. — A voz de Sombra não aumentou; pesou. — Quem te disse escada velha limpa? Ítalo abriu a mão, mostrou o nada. Nada é pior que mentira, às vezes. — Ninguém. Vi. — Frio. Célio olhou para mim. Não pediu nada. Meu corpo ofereceu o que tinha: — Ontem me mandaram mensagem com “escada velha” — falei, o terço firme no bolso para sustentar a língua. — Não era da gente. Era de dentro, sem ser. Hoje ele chamou de limpa. — Apontei leve o rádio de Ítalo. — Pulso errado. Sombra não piscou. Foi até demais. — Célio, tira ele da linha — ordenou. — Sem grito. Sem cena. — Depois, a mim: — Você. Viela. Agora. Leva a tua amiga. Sem atalho. Obediência, às vezes, é coragem. Tainá respirou por dentro quando eu a puxei. Breno abriu um corredor curtíssimo, padaria, sombra, muro. Vera apareceu no meio, mão com bandagem, confiando a mim o caminho. Fizemos uma fila mansa: dois passos, checa canto, dois passos, checa telhado. — Dói? — perguntei para Tainá, o olho no sangue que já não nascia. — Arde. Mas eu tô. — Ela engoliu seco. — Ele…? — Não disse nome. Não precisa. — Ele tá vivo — respondi, sem saber se falava de Lucas, do meu pai ou do morro. Eu quis que valesse para os três. A Viela da Pipa Azul nasceu do escuro com a lâmpada r**m piscando, como sempre. Meu lugar de modo sussurro, a borda que não vira manchete. Tainá encostou na parede, respirou como quem chega em casa. Eu segurei o curativo, conferi pulso, cor da pele, o olho que não perde brilho por causa de um risco. — Fica paradinha — pedi. — Duas respirações, água, eu já vejo. Foi quando vi. No fim da viela, alguém esperava. Na sombra, mãos visíveis, corpo sem ameaça. Não usava boné de soldado nem colarinho de aliado. Não carregava arma que brilhasse. Carregava água. Meu coração falhou um compasso — não de medo. Reconhecimento tem som próprio. Tainá percebeu antes e não sorriu; âncora não faz festa quando o barco encosta. Abaixei o pano, mantive pressão, olhei de novo. A sombra deu um passo para dentro da luz r**m, devagar, como quem aprende a pisar onde a música não grita. — Veio? — a voz dele veio baixa, como necessidade antiga. A garrafa passou da mão dele para a minha. Água primeiro. — Vim, eu disse — e não era só resposta a ele; era resposta a mim, ao bilhete da Nilda, ao pai que me mandou sair da linha para viver. Tainá encostou a cabeça no tijolo e fechou os olhos por um segundo. Eu fiquei entre o ferimento e o encontro, mão firme, mente fria. O morro respirou num bloco só atrás de nós, o sinal do rádio ainda mastigando os restos da emboscada. Queda de bandeira é para lembrar que pano não protege; gente protege gente. — Depois a gente fala — eu disse a ele, sem nome, sem cena. — Agora, ajuda eu levar. Ele concordou. Sem questionamentos. Sem heroísmos. Apenas a conduta. E a viela, por um instante surreal, assemelhou-se a uma igreja: modesta, sólida e silenciosa. Onde a música não se impõe, o morro permitiu a nossa passagem.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR