Lucas
O corredor da Pipa Azul se transformou em uma cena de caos e fé: um hospital de guerra e uma igreja improvisada. O ar estava saturado com o cheiro de óleo, pólvora gasta e o milagre forçado da água sanitária. Encostada na parede, Tainá mantinha o olhar firme, uma faixa apertando o corte superficial. Sem máscara, ela segurava a mão firme no curativo da ferida, sua voz baixa oferecendo mais conforto que qualquer melodia. Eu me aproximei, seguindo o pouco que aprendi: mão visível e água em primeiro lugar.
— Gole curto — falei, oferecendo a garrafa.
Ela assentiu. Sem nome. Sem cena. O grave da laje, lá em cima, tinha sido desligado; agora quem fazia a batida era o rádio engolindo sílabas: “fecha lateral”, “sem perseguir”, “janela de recuo”.
Dois tiros antigos ainda ecoavam no tijolo quando a viela engoliu um berro vindo de trás da mureta:
— Isa!
A palavra irrompeu em mim com a força de uma onda atingindo o queixo: Nome. Não era um troféu, mas sim uma responsabilidade. Seus olhos permaneceram firmes, sem vacilar; a mão mantinha a pressão no curativo. Tainá moveu o rosto apenas um milímetro, uma âncora que sente a corrente. Alguém ao longe repetiu: “Isa!” A viela inteira prendeu a respiração, breve.
Minha boca ansiava por pronunciar o som, mas minha mente ergueu uma barreira. Se quiserem você vivo, te deixam aprender a regra. Sombra havia comunicado sem dizer: “Se ela escolher, eu saberei antes de você.” Guardar o nome era a minha parte do acordo que não existe no papel.
Eu não disse. Engoli. Tranquei o nome onde guardo senha de banco e primeiro susto de mar. Falei outro:
— Respira — pedi à ferida, marcando o compasso com a mão.
Tainá me passou mais gaze. Ela me olhou rápido, o tempo de um sim em código. A mensagem anônima de ontem — “escada velha” — cruzou minha memória junto do estalo que derrubou a bandeira. Armadilha. De dentro.
— Dois passos — disse Tainá, já em modo logística. — Padaria, sombra, muro. Sem atalho.
— Sem atalho — confirmei.
Nego Célio encaixou o ombro na beirada da viela e, com um gesto, abriu caminho onde não tinha. O rádio dele ronronava alarmes em voz humana. Ele viu meu rosto. Eu vi o dele. O nome ainda batia no meu ouvido. Não deixei sair.
O olhar do Célio foi faca e curativo juntos: gostei de ver que você entendeu. Não falou. Não usou. Cresceu. Não precisei de tradução. Conduta vira senha.
— Anda — ele disse. — Linha do meio. Sem olhar pra trás como quem quer briga.
Eu ajudei ela a levantar a ferida — peso leve, dor pesada — e Tainá trouxe o corpo junto, escudo de laje. Dona Elza (o nome que ela deu ao pânico na paciente) fez o sinal da cruz e se apoiou no meu braço como se a gente fosse parente.
A viela tremeu com passos que não se apresentam. Breno passou com dois na retaguarda, olho varrendo telhado. Ítalo não apareceu; o rádio dele tinha virado prova.
— Ela consegue? — perguntei, já alinhando o corpo de quem leva peso sem virar manchete.
— Consegue — Tainá respondeu por todo mundo. — Dois e dois. Conta comigo.
Fomos. Dois passos. Checa canto. Dois. Checa telhado. Padaria amanhecia cheiro de pão num horário indeciso. Os ritos da cidade tentavam vencer a tecla de pólvora.
— Quem gritou? — eu perguntei baixo, sem querer catalogar ninguém.
— Quem ama sem saber calar — Tainá respondeu, seca. — Eu seguro ela. Você segura a rua.
Prendi a respiração na postura que Célio havia ensinado, resistindo ao impulso de usar o nome como uma chave para a porta. Engoli a raiva, entendendo o preço de aprender com dor. O eco de "Isa" queria escapar, mas o empurrei para o peito.
Ela, sutilmente, ajustou o terço no bolso. Encostou a testa na parede por um segundo — parecia uma oração ou uma contagem regressiva. Voltou com a firmeza de quem tem um posto a defender e a calma de quem encontrou a janela certa.
— Vai dar — ela disse para Dona Elza, que não parava de me chamar de meu filho mesmo eu não sendo de ninguém, e depois falou para mim, sem pedir mais do que a noite permite: — Obrigada.
— Serviço — devolvi. — Sem cena.
Célio reapareceu ao lado, todo olhar. Os fundos da Pipa agora cheiravam a fio queimado e borracha. Sombra estava um pedaço atrás, quieto de granito, cuidando da fronteira onde ele é mais pai que dono.
— Ele fica — Célio determinou, olhando para mim, não para ninguém invisível. — Até fechar o corredor. Depois some antes da foto.
— Fico — garanti.
— Nome? — Ele perguntou sem pronunciar. O jeito que a sobrancelha mexeu eu já sabia ler.
— Não saiu — respondi, baixo. E deixei claro no rosto: não vai sair de mim. Não hoje. Não assim.
O nó de queixo dele foi selo. O rádio mordeu — “janela em três… dois…” — e a gente fez o que gente treinada faz: pulso, coluna, janela.
No primeiro passo fora da viela, um grupo de curiosos quis engolir a história; Tainá abriu o braço que não doía, cortando a conversa. Eu entreguei o resto da água para Dona Elza e deixei o copo com ela; símbolos também viram senha.
— Vai com a gente até o fundo — Tainá pediu pra ela, e eu acompanhei mais dois becos. Vera estava na porta do posto, mão pronta, olho medindo a minha presença não como invasão, mas como ponte. Pegou a ferida, levou para dentro, fechou com autoridade mansa.
Fiquei do lado de fora com Célio. A rua já queria voltar a fingir normal, essa habilidade c***l de lavar o rosto sem trocar de roupa.
— Teu defeito útil — ele disse, como quem dá bronca e parabéns juntos. — Falar claro quando importa e calar certo quando pesa.
— Aprendendo — falei. Costela lembrava. Olho lembrava. Espelho lembraria depois.
— Tem coisa que o lugar não perdoa — ele continuou. — Nome usado como chave é uma. Hoje você guardou.
— Guardo até se meu mar quiser gritar — prometi, e juro que foi sem teatro.
Ele me mediu mais um segundo, decidindo se eu merecia mais responsabilidade do que eu queria. Não mereço. Ganhei só o necessário:
— Sai certo. Sem rastro. Amanhã a gente fala. — E baixinho, quase como conselho de pai emprestado: — Não transforma confiança em sede. Sede a gente mata com água, não com atalho.
— Água primeiro — respondi, mostrando a garrafa quase vazia.
Dei três passos e o mundo quase me pregou uma peça: Tito, o filho de Dalmo, brotou da esquina, curioso. Olhos varrendo, tentando pescar história.
— Tá tudo bem? — quis saber, pose de vizinho, cheiro de aliado em treino.
— Evento menor — eu disse, lembrando da senha que salva. — Acabou. Sem manchete.
Célio colocou um “não insiste” no ar e Tito entendeu que hoje não. Abriu mão da curiosidade e abriu caminho.
Antes de sair, eu olhei para trás. Ela estava lá dentro, sombra de Vera passando por cima, Tainá revezando cuidado com recado. Ninguém disse nome de ninguém. O “Isa!” da viela ainda batia longe como tambor em procissão; dentro de mim, virou promessa: não usar o nome como arma; não buscar atalhos com ele.
Rafa encostou o carro duas ruas abaixo, o motor baixo, pergunta guardada.
— Sobreviveu?
— Sobrevivi e aprendi — respondi, fechando a porta com cuidado. — Nome não é atalho. É responsabilidade.
Ele riu, cansado.
— Escreve no espelho.
— Já tô escrevendo na cabeça. — Apoiei a nuca no banco. A cidade cheirava a metal molhado, a mão cheirava a álcool, a boca tinha gosto de medo vencido.
Quando cheguei em casa, fiz o ritual que me mantém à tona. Caneta fina, canto do espelho:
“Nome no escuro não se acende:
guarda, protege, merece.
Se ela escolher, eu escuto depois.”
Apaguei metade, mas mantive o essencial. Do lado de fora, o motor da moto do corredor parecia dizer "te vejo". Meu coração respondeu, mudo, "eu também", "da forma correta". Eu tinha um nome, mas era justamente por isso que não tinha o direito de usá-lo.