Capítulo 29 — Entre o Pai e o Precipício

1390 Palavras
Isadora A Viela da Pipa Azul ainda cheirava a álcool gel e pólvora cansada. Vera levou a ferida para dentro; Tainá, de raspão, mordeu a dor e me deu o olhar que significa vai — duas letras que pesam um mundo. n**o Célio prendeu a esquina como quem segura maré com o polegar: janela curta, sem atalho. O corredor respirou baixo. Eu também. Ele estava ali. Mão visível, garrafa quase vazia, silêncio que respeita. O corpo dele não era porto, era ponte. E eu precisava atravessar. — Fica — pedi, antes que o medo fechasse a garganta. — Dois minutos. Assentiu. O nome queimava na língua há dias, feito ferro em brasa que só apaga se encostar em água — e a água, ali, era a minha coragem. Cheguei perto. O tijolo frio em minhas costas, o calor dele a centímetros. Sem máscara. Sem personagem. Só eu. — Meu nome — comecei, e parecia que eu puxava uma âncora do fundo — é Isadora. O morro não desabou. A lâmpada r**m continuou piscando. O peito dele expirou como quem recebe um segredo que não vai virar manchete. — Isadora — ele disse, baixo, e o jeito como falou fez meu nome parecer casa e alerta juntos. Fechei os olhos por um segundo, o terço da Nilda pesado no bolso. Abri-os já no meu eixo. — Não me chama de moeda — pedi. — Não me usa de vitrine. Não me transforma em isca. Eu não sou a bandeira que caiu no tiro de aviso. Eu sou gente. — Você é gente — ele confirmou. — E nome não é chave; é responsabilidade. Eu guardo. A palavra guardou também o tremor das minhas mãos. Senti a veia no pescoço pulsar no mesmo compasso em que a viela respirava. — Entre o meu pai e o meu precipício, eu preciso escolher o meu passo — sussurrei. — Se eu poupar você às custas de mim, eu me perco. Se eu me perder, você vira pretexto para o meu vazio. Eu não quero que você seja culpa. Eu quero que você seja encontro. Os olhos dele tinham a cor de coisa que não promete de boca. Só faz. Ele encostou devagar a ponta dos dedos na minha nuca, pedindo palavra antes da pele. — Posso? — perguntou. — Pode — e o sim saiu com gosto de quase choro e fome antiga. O beijo veio curto primeiro, manso, promessa com medo no contorno. Senti o sal da minha pele, o cheiro de óleo e limão espremido do bar, a mão dele firme na lateral do meu rosto, mão visível como juramento. Respondi com os lábios abertos, o corpo cedendo um centímetro, só o suficiente. Não é grito; é pressa contida. Ele voltou uma segunda vez, mais fundo, e a minha costela encontrou o tijolo num aviso bom: estamos vivos. O calor desenhou caminhos por dentro; o medo não foi embora, aprendeu a ficar sem mandar. Minha mão subiu para o pescoço dele, os dedos no cabelo, e eu quis riscar o mapa dessa boca até o limite. Ele suspirou, uma entrega que não tenta dominar, e encostou o corpo ao meu sem tomar o lugar. Fogo pede ar; a gente respirou juntos. — Eu te espero onde a música não grita — ele murmurou, boca na minha, e cada sílaba foi fio segurando meu precipício por dentro. — Eu me encontro lá — respondi, a voz raspada. Os beijos cresceram como mar que sobe um palmo de cada vez. A minha mão achou a barra da camiseta dele e puxou, quase rindo do meu próprio impulso. Ele sorriu na minha boca, ternura rara em guerra. — Se eu passar da linha, me puxa — ele pediu. — Eu sei o mapa — devolvi, quente, e a fricção de boca e fôlego virou vértice onde desejo e prudência se entendem. Boca, maxilar, ponta do queixo, o arquejo dele, meu peito reclamando espaço, mão na minha cintura puxando um pouco e parando um segundo pra perguntar de novo. Eu disse sim com o corpo, e o corpo entendeu sem virar pressa. A viela fez silêncio de igreja. O coração errou um compasso, depois acertou dois. Quis gravar esse minuto com unha no tijolo. Quis ficar ali enquanto o mundo voltava a fazer barulho sem mim. O telefone vibrou no bolso do vestido como se alguém batesse na porta do meu peito. Mensagem curta na tela, número conhecido — sem assinatura: Te vejo. A frase subiu gelada pela espinha. Rede fechou. A cidade fala códigos até quando diz oi. “Te vejo” não é convite; é cerca. Ele leu o meu susto antes dos meus olhos. Céu e cimento em alerta. — Quem? — baixinho. — Não importa o nome. Importa o timing — respondi, o corpo já em estado de fuga. — Janela fechando. Nego Célio apareceu no canto da viela, sombra exata no lugar que segura a cena. Não disse palavra; só fez aquilo que sempre faz: olhar que organiza o caos. Vi a pergunta nele: usou o nome? Respondi com a cabeça: não. O nó de queixo dele foi trégua confirmada e toque de recolher junto. — Isa… — ele (agora ele me chamou assim, e doeu de bonito) — eu fico. — Você some antes da foto — corrigi, ainda colada na parede, o calor do beijo batendo onda em mim. — Eu volto quando couber. — Eu te encontro lá — repetiu, sem prometer mais do que pode pagar. Roubei mais um beijo — rápido, quente, um sim que cabe no corpo e na regra. A boca dele tinha gosto de promessa; a minha devolveu medo temperado com coragem. É também dizer não agora com a pele em chamas. Ele entendeu. Tainá reapareceu, mão no curativo, olho tomando nota de tudo. Âncora não faz discurso; aperta laço. — Linha limpa por quatro — Célio informou, enfim. — Depois, ponto cego. — Para mim: — Calçada e linha do meio. Sem atalho. — Para ele: — Sem rastro. — Sim, senhor — respondi com a ironia que me protege de virar pedra. Ele riu por dentro. Riso de quem tem cinco mapas na cabeça e ainda assim confia que a gente aprende. Saí dois passos, voltei só com o olhar. Ele encostou as costas no tijolo, mãos nos bolsos, tentando esconder o que o corpo acende depois de um beijo que mexe na cidade inteira por dentro. Eu guardei a cena onde guardo minhas orações. Vera me puxou porta adentro, rotina devolvendo dignidade: água, respira, tira o batom amassado, torna a ser. Meu pai ainda era montanha do lado de fora, contando radios, apagando fogos. Eu era fio estendido entre dois abismos: o dele e o meu. Nada de cair. Equilíbrio não é milagre, é treino. — Tá viva — Tainá me cutucou, boca apertando um sorriso proibido. — Tô — respondi, encostando a testa na dela, grata pelo cheiro de verniz barato que sempre me traz de volta para mim. — E com nome. — Então segura — ela avisou. — Porque “te vejo” hoje significa olhos demais. Assenti. No espelho do posto, desenhei com o dedo o que faltava ao meu rosto pra eu acreditar na minha própria firmeza. Limpei. Coragem não é barulho. Quando voltei ao corredor, Sombra me encontrou. Não falou meu nome — ele nunca fala quando quer me poupar de mim. Só encostou a mão um segundo no meu ombro, peso leve de quem carrega muito e às vezes lembra que é pai. — Respira — disse. — Tô respirando — respondi. Ele leu algo no meu rosto. Talvez o brilho de beijo recém-feito. Talvez só o susto do recado. Não perguntou. Guardou. Montanhas também aprendem trégua. Saí pela cozinha, como sempre. Célio me devolveu a rua. Quatro passos de janela e, de novo, o ponto cego. Eu fui. O telefone vibrou mais uma vez, insistente, sem nome: Te vejo. Não dei resposta. Quando a cidade se cala, gastar energia com palavras é dar munição ao carrasco. Apertei o terço na mão, guardei um pouco da emoção no peito para não me descontrolar no caminho e mentalizei a frase que me guia: Entre meu pai e o abismo, meu passo é a única escolha. E onde o silêncio impera, eu me reafirmo: Isadora.
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