Capítulo 30 — Último Andar

1562 Palavras
Lucas Fui conduzido por n**o Célio através do fundo, numa escada apertada, onde o rádio cuspia sílabas. O morro estava em alerta máximo após o incidente da 'queda de bandeira'. Subimos até o último pavimento, uma laje alta onde o vento parecia levar os pensamentos. Sombra esperava, mãos nos bolsos, a cidade inteira servindo de cenário nas suas costas. — Ou você desaparece, surfista — ele falou, a voz baixa como uma ameaça que dispensa alarde —, ou me prova que tem capacidade de tomar conta do que está sob seus olhos. O vento mudou de direção, soprando para mim. Sumir era fácil. Provar exigiu um instante. — Eu provo — garanti. — Sem chamar atenção. É serviço. O canto da boca dele se moveu de leve. — Serviço não é para aparecer em foto. — Nem patrocínio de ego — completei. — Eu banco o que faltar no posto e trabalho lá em silêncio. Sem postar. Sem se promover. Água primeiro. Varra onde mandarem. Assine onde não aparece. Célio me atravessou com aquele olhar de quem verifica parafuso em ponte. — Regra — Sombra contou nos dedos, cada dedo um peso: — Um mês. Sem tocar no nome dela. Sem usar laje como atalho. Se aparecer foto, você cai. Se usar a rua para pedir palco, eu apago. — Baixou ainda mais o tom. — Se doer nela, dói em você antes. — Entendido. Foi quando o rádio rangeu o tipo de palavra que suja o chão: — Fumaça no entorno do posto. Lixeira pegando fogo. Sombra nem virou. Célio já descia. Eu fui atrás por reflexo. — Você quer serviço? — Sombra cortou, me segurando com uma frase. — Desce e serve. Sem cena. Corremos. Rafa apareceu da lateral com a chave do meu carro, e eu agradeci com o olho, não com boca. A rua trouxe o fedor quente de plástico ardendo. Vera estava na porta do posto, pano na boca, gritando organizado: — Cilindro pra trás! Criança pro corredor! Água da caixa, agora! Tainá, de faixa no braço, segurava mangueira de jardim como quem segura a última palavra de um dicionário. Breno e mais dois batiam tampa de lixeira com tábua. Fogo pequeno quer virar história grande. — Água primeiro! — gritei, pegando o balde. Não é bravura, é manual. Fiz fila. Passei balde. Voltei balde. Tirei duas bombonas do corredor, arrastei cilindro com o ombro e a mandíbula. Suor entrou no olho, ardeu. Ninguém filmou. Ainda bem. O fogo arreganhou por um segundo e rendeu quando faltou plástico. Vera me apontou para dentro: — Filtro quebrado no nebulizador 2. Se dá, dá agora. Eu não sou técnico, mas sou teimoso. Abri a tampa, limpei a sede com álcool, troquei a mangueira, prendi com uma fita que não devia estar ali e fiz o motor que queria morrer voltar a funcionar. O chiado se transformou em alívio no peito de uma menina. Aquilo me quebrou por dentro de um jeito que ninguém veria. — Eu compro quatro peças dessas — falei, querendo pagar. — Me diz o preço. — Você está comprando silêncio — Vera me corrigiu, suave. — E o serviço não tem recibo. — Então me deixa varrer — pedi, insistindo. — Eu vim para isso. Varri. Rafa controlava o fluxo, Tainá era apoio e âncora, Breno fazia a barreira com aquele sorriso falso de vendedor. Célio indicava as saídas e entradas só com o movimento do queixo. Sombra não apareceu, o que significa que ele estava em todos os lugares. Foi então que Ítalo, com olhos de gelo, passou pela calçada, parecendo parte da paisagem. Célio bloqueou a esquina com o corpo e o rádio. Não houve confronto, só um inventário silencioso. Nesse meio tempo, o celular de Sombra vibrou no bolso de um dos seus homens. Célio leu a tela, a expressão endureceu, e ele subiu para a laje como quem carrega uma tempestade nas mãos. Minutos depois, o homem que manda sem precisar gritar me chamou com o olhar. Subi de volta ao último andar, com as pernas bambas. — Chegou um recado — ele disse, olhando para o horizonte. — Não é na nossa língua. — E virou a tela para mim. “Dora respira sem âncora hoje?” A frase gelou onde nem a água chega. Nossa senha na boca errada. Alguém de fora colou ouvido na parede certa. — Quem? — perguntei, sabendo que era pergunta de criança. — Gavião — ele respondeu, como se cuspisse pena. — Vidigal. Acha bonito usar palavra que não é dele. — Voltou a mim. — Se isso vaza, vira corrente. Nome e senha viram arma. O corpo pediu briga. A cabeça deu serviço. — Eu assumo a parte que cabe — falei. — Troco a peça do posto hoje. Trago medicação que faltar. Faço acordo com o fornecedor e não assino com meu nome. Fico no turno que ninguém quer. E aprendo a calar quando a língua coça. — Você não vai atrás de Gavião — Célio me cortou, chegando de volta com poeira no sapato da laje. — Ele quer palco. Você não dá. — Eu não dou. — Olhei para o rádio. — Eu dou água. Sombra ainda me pesava com os olhos. Quando um pai está tentando não virar monstro, o mundo tem obrigação de não cutucar. Eu fui leve. — Quanto custa um gerador que aguente a noite inteira? — perguntei. — Mais do que você acha, menos do que você finge — Vera respondeu, surgindo com papel e caneta como quem traz bandeira branca. — Eu compro. Hoje. — E trabalha — Sombra reforçou, seca misericórdia. — Se te virem varrendo, é serviço. Se te virem posando, é sentença. — Eu entendi. Rafa trouxe a maleta do carro, e eu assinei um TED que o banco vai estranhar: gerador, peças, compressas, nebulizadores reserva, luvas. Vera não agradeceu com festa; apontou para o chão sujo. Eu varri de novo. Sem selfie. Sem legenda. A noite caída deu um estalo no poste. Mensagem entrou no meu celular, número desconhecido: “Dora escolhe janela ou vira vidraça.” Tainá leu por cima do ombro e virou faca sem sangue. — Pulso errado — ela decretou. — Quem escreve assim não sabe carregar gente. — Mostra — Célio pediu. Viu uma vez, e o queixo fez um mapa que eu não conheço. — Não responde — ele mandou. — Eu respondo com silêncio e rota. Sombra ergueu o olhar para o céu escuro como quem procura aviso em constelação de antena parabólica. — Último andar tem vento e tem queda — disse. — Você escolheu vento. Se cair, cai sozinho. — Eu não caio — falei, e não era bravata; era pedido para mim mesmo. — Eu fico aqui até a troca de turno. Depois, sumo antes da foto. Ele assentiu. Um mês. Serviço. Silêncio. Voltei para o posto. Na sala de curativo, Vera me deu máscara e luva. Posso?, perguntei com os olhos; posso, ela respondeu, me apontando para a senhora da asma que já amava o nebulizador remendado. — Inspira, Dona Lia — eu disse, e a voz não tremeu. — Conta até quatro, segura dois, solta seis. — A contagem me acalmou junto. Tainá passou por mim com a bandeja, roçando o ombro — um sinal discreto de que estava ali. Rafa fechou a janela do corredor, a senha de que voltaria logo. Célio se postou na porta, usando o corpo para barrar o vento. Sombra permaneceu do lado de fora, mas sua presença não me pesou; ao contrário, me deu força. Lembrei-me do beijo na viela e do “Te vejo” que ecoou em meu peito depois. Pensei no dia em que desejei a laje como palco, e agora a queria como abrigo para sobrevivermos. Pensei em Isadora dizendo seu nome e implorando para não ser tratada como moeda de troca, objeto ou isca. Se proteger é o que me move, isso significa água armazenada, peça de reposição, rodo para a limpeza na madrugada, nada de exposição nas redes. Quando a fumaça se dissipou e deu lugar a um cheiro de chuva iminente, Vera retirou minhas luvas, com a delicadeza de quem liberta as mãos de alguém presas numa parede. — Vai — ela disse. — Antes da foto. No pátio, Célio me segurou um segundo com o olhar. — Se te pedirem prova, mostra mão suja, não tela limpa. — Sim. — E se te oferecerem guerra, dá serviço. Guerra alimenta ego. Serviço alimenta gente. — Sim. Desci a ladeira sem atalho. A cidade me deu o de sempre: moto sussurrando te vejo, portas se fechando, luz que ainda pisca nos lugares que cuidam da gente. No espelho de casa, caneta fina, letra que não vira post: “Cuidar do que olho: varrer, comprar sem assinar, calçar luva e segurar pulso. Sem foto. Sem atalho. Sem nome.” Apaguei a borda, deixei o miolo. O telefone vibrou, número do banco confirmando o gerador. Outro vibro, mensagem curta de Célio: “Janela segura amanhã 6h. Padaria do Padre não. Cruzamento 3, lado de dentro. Se couber.” Sorri. Serviço primeiro, encontro só quando o mundo caber. E, enquanto Gavião tenta transformar senha em armadilha, eu aprendo a ser ponte: último andar não é onde se cai — é de onde a gente vê melhor onde ficar.
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