Capítulo 31 — Janela das 6

1318 Palavras
Lucas Pontualmente às seis. O Cruzamento 3, lado de dentro, era o ponto de encontro. O morro ainda despertava quando cheguei à esquina marcada. O ar trazia o cheiro de ferro úmido misturado ao aroma de pão recém-saído de algum forno apertado. O poste de luz piscava lentamente, como se estivesse pedindo mais uns minutos de sono. Segui o protocolo de Célio: mão à vista, olhar calmo, atenção redobrada. O primeiro passo foi a água na garrafa, um gole para acalmar a pressa. Ela veio do beco menor, passos redondos, cabelo preso como promessa de ordem. Sem máscara, sem fantasia, só Isadora do jeito que a viela guardou da noite passada. Eu pensei em dizer o nome — alto, inteiro —, mas as paredes no morro moram mais perto que a gente; não gosto de dar casa pra eco. — Você está bem? — perguntei, mantendo a voz baixa, sem tentar cercar o corpo dela com mais do que duas palavras. — Estou — respondeu, e o “estou” tinha cansaço e luz. — Tainá também. Raspão já virou história. — E a Dona Elza? — Dormiu com inalação. — Ela esticou os ombros, livrando o peito de um peso invisível. — Obrigada pela água. Pela calma. Assenti. Calma não é virtude minha de berço; foi aprendizado caro, pago a costela e silêncio. — Um mês de serviço — lembrei, mais para mim do que para ela. — Sem selfie. Sem palco. — E sem me usar como senha — completou, firme. — E sem te usar como senha, repeti. O amanhecer nos alcançou na calada, ouvindo o bairro despertar: uma moto que se despedia, o arrastar de um portão, o barulho do café sendo moído. Isadora tocou de leve minha mão que segurava a garrafa — não foi um beijo, foi uma promessa silenciosa. Um toque que pedia cumplicidade sem precisar de palavras altas. — Eu volto pro posto — avisei. — Estoque, conserto e café. Vera me pôs em escala até o meio-dia. — Eu passo mais tarde — disse. — Sem entrar. Só pra ver de longe se você ainda está. — Eu estou. Um beijo teria sido fácil de roubar. A rua nos ofereceu uma brecha, um instante de clareza. Mas facilidade não é o mesmo que o certo aqui. O aperto de mão dela foi leve, um gesto breve e completo. Beijei-lhe a fronte — dois segundos de calor — e recuei um meio passo, respeitando a distância exigida pela regra. Um sorriso discreto, mas sincero, surgiu em seus lábios antes que ela desaparecesse pelo mesmo beco de onde veio. Suas costas pareciam dizer: “Coragem não faz barulho”. Eu segui na direção oposta, descendo até o posto de gasolina. Rafa me aguardava, duas sacolas de supermercado na mão e a expressão cansada de quem passou a noite em claro. — Café, filtro, açúcar. E os biscoitos que a Vera gosta de fingir que não gosta — disse, entregando as alças. — Heroísmo de mercearia — brinquei. — Herói aqui ganha é calo — ele devolveu. — E às vezes uma bronca do Célio de brinde. Entramos. Vera surgia sempre que a porta pensava em abrir. Prendeu o cabelo, enrolou a manga e me passou, sem drama, a planilha do estoque com o dedo. — Luvas M acabando. Gaze 7, baixa. Nebulizador 2, vivendo de fita — ela relatou, sem acusar ninguém e sem absolver Deus. — Caixa d’água fez barulho essa noite. — Eu vejo a boia — respondi. — E troco a borracha do 2. Fui para o depósito e transformei o romance que me puxava por dentro em chaves de boca e flanelas. Conserto não aceita mentira: ou volta a funcionar, ou te ensina por que não. Abri o nebulizador, limpei sede, troquei mangueira, amarrei a linha com abraçadeira nova. Depois listei as gazes, confiri validade, deixei caixas à mão. O corpo aprende a falar idioma de serviço rapidamente quando o coração está cheio demais para discursar. — Café? — perguntei. — Forte e manso — Vera respondeu, e eu entendi a charada. Café pra acordar sem dar tremor. Enquanto a água aquecia, Célio encostou na porta. Não entrou; porta é risca de giz no chão. Me mediu como quem observa se a ponte aguenta caminhão. — Sem atalho — disse, por dizer e por lembrar. — Sem atalho — repeti. — Se aparecer foto, caiu — reforçou, sem prazer. — Aqui só aparece recibo de flanela — mostrei a mão suja de graxa, e a linha do queixo dele aceitou o humor. Ouviram-se o estalo de uma garrafa na rua e duas vozes altas demais para a hora. Célio virou a cabeça, fez um sinal com os olhos para dois homens de sua confiança e, usando apenas o corpo, reorganizou o movimento da calçada. No morro, a ação nem sempre envolve tiros; muitas vezes é pura geometria: saber onde posicionar cada pessoa para que o conjunto não resulte em problema. Retornei ao café. Rafa mexia na máquina como se fosse uma mesa de som. Vera me entregou uma caneca e separou outra, destinada ao primeiro cliente da manhã. Tainá chegou rindo de si mesma, com o raspão no braço coberto por um curativo limpo. — Teu estoque é organizado ou fingiu agora? — provocou. — Organizado por medo da Vera — respondi. — Certo — Vera aprovou, como quem passa um carimbo invisível. O telefone vibrou no bolso. Mensagem do banco: compra do gerador confirmada. Vibrou de novo: Célio. “Janela pra saída às 10. Antes disso, fica.” Eu fiquei. Conserto do nebulizador 1 agora, borracha cansada pedindo troca. Rafa saiu para buscar água sanitária e voltou com dois pães quentes que amaldiçoamos com alegria. Isadora não apareceu. Melhor assim: algumas manhãs é mais digno não caber. Pouco antes das nove, um pai trouxe o filho chiando no peito, medo escondido em sotaque de prosa. Vera me mandou buscar o kit e eu virei braço e perna: segurei a máscara pequena no rosto miúdo, contei inspira quatro, segura dois, solta seis junto com a mãe, esperei o barquinho do peito descer do risco vermelho pro laranja, depois pro verde. Quando o menino sorriu com o canto da boca, o mundo usou isso pra me pagar os boletos invisíveis. — Está vendo por que sem selfie? — Vera perguntou, sem pousar o olho. — Tô, falei, e o “tô” me lavou por dentro. No meio da manhã, Rafa me cutucou com o cotovelo. — Sua cara de quem quer a viela tá aparecendo. — Minha cara de quem sabe esperar vai segurar — respondi. — Assim que eu gosto: adulto — ele riu. Às dez em ponto, Célio apareceu e pousou o corpo na porta de novo, tal qual ele faz com as palavras: pouco, pesado, preciso. — Sai — autorizou. — Dois quarteirões por dentro. Sem curva de herói. — Sem curva, confirmei. Passei pelo Cruzamento 3 de novo. A esquina me olhou de volta, cúmplice. Isadora não estava — e, por estranho que pareça, foi bom. Promessas também se alimentam do não. Deixei a garrafa vazia na lixeira, acenei com o queixo pra um menino que tentava fazer embaixadinhas com laranja e segui. Mais tarde, já em casa, abri o espelho e escrevi com a ponta do dedo, até o vapor apagar: “Janela das 6. Poucas palavras, muita promessa. Serviço antes do beijo. Sem atalho.” O telefone vibrou: mensagem curta. “Vi você sem me ver. Continua.” — I. Sorri. Continuo, pensei. Porque aqui amor também é estoque, conserto e café. Porque às vezes a maior cena é não fazer cena. Porque, no fim, eu só quero provar para a cidade — e para mim — que aprendi o verbo que o Sombra exige: cuidar do que olho. Sem foto. Sem palco. Com coluna. Com pulso. Com ela.
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