Pré-visualização gratuita 01 VITÓRIA
VITÓRIA NARRANDO
Tem dias que a vida parece um pouco mais pesada do que já é. Hoje é um desses dias.
Acordo mais cedo que o normal e fico sentada na cama, olhando pela janela com um pedaço do vidro quebrado. O vento frio da madrugada entra devagar pelo buraco e bate no meu rosto.
O dia ainda nem clareou direito… e minha mente já tá funcionando a todo vapor.
Penso em conta, penso em trabalho, penso em como fazer o dinheiro render mais um pouco essa semana.
Suspiro baixo e olho pra cama ao lado da minha. Minha mãe ainda dorme.
Ela tá de lado, encolhida no cobertor fino que a gente tem. Mesmo dormindo, o rosto dela parece cansado… como se nem quando fecha os olhos o corpo dela conseguisse descansar de verdade.
Isso sempre aperta meu peito. Minha mãe é a única família que eu tenho.
A única pessoa nesse mundo que sempre esteve comigo, que nunca virou as costas quando as coisas apertaram. A única pessoa que eu amo de verdade. E também a pessoa que eu mais confio nessa vida.
Todo dia eu levanto com a mesma ideia na cabeça... dar uma vida melhor pra ela.
Nem que eu tenha que me virar em dois, em três. Nem que eu tenha que correr atrás de tudo sozinha.
Talvez eu nem tenha idade pra carregar esse tipo de responsabilidade…, mas aqui no morro idade nunca significou muita coisa.
Aqui a gente cresce rápido. Aqui a gente aprende cedo que, se não correr atrás, ninguém corre pela gente. E eu sempre tive garra pra correr atrás do que é meu.
Meu nome é Vitória. Acabei de completar dezoito anos. Nasci e fui criada aqui no morro da Rocinha, no meio dessas vielas apertadas, do barulho das motos subindo o morro, da música alta que nunca parece acabar e das histórias que todo mundo conhece…, mas ninguém fala alto.
Sou branquinha. Tenho os olhos verdes e o rosto cheio de sardinhas pequenas que aparecem ainda mais quando o sol bate forte. Coisa de ruiva. Sim… eu sou ruiva. Daquelas de nascença mesmo.
Meu cabelo é cheio, bem enrolado, e tem uma cor forte… quase da cor do fogo.
Minha mãe diz que quando eu era pequena parecia que minha cabeça tava sempre pegando fogo quando o sol batia no meu cabelo. Eu rio quando lembro disso.
Mas a verdade é que aqui no morro eu sempre chamei atenção por causa disso.
Nem sempre de um jeito bom.
Passo a mão pelos meus cachos, tentando dar uma ajeitada neles, e volto a olhar pela janela.
Lá fora o morro começa a acordar devagar. O céu ainda tá escuro, mas já dá pra ouvir o barulho de moto subindo a ladeira.
Gente, indo trabalhar. Gente, voltando da madrugada. E, como sempre… os meninos da boca espalhados pelos cantos, de olho em tudo que acontece.
Aqui no morro a vida nunca para. Nem de madrugada. Nem de madrugada mesmo.
Apoio o cotovelo no joelho e fico olhando lá pra fora por mais alguns segundos.
Tem alguma coisa estranha hoje. Não sei explicar.
É só uma sensação r**m… daquelas que ficam rodando no peito da gente sem motivo. Como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer.
Balanço a cabeça tentando afastar aquele pensamento. Deve ser coisa da minha cabeça.
Levanto devagar da cama pra não acordar minha mãe e caminho pelo chão gelado do quarto.
Nossa casa é pequena. Dois cômodos apertados, parede descascando em alguns lugares e móveis velhos que a gente conseguiu aos poucos, um aqui, outro ali. Mas é o nosso lugar. E, do jeito torto que for… sempre foi o lugar onde eu me senti segura.
Vou até a cozinha pequena e pego a chaleira pra esquentar um pouco de água pro café.
Enquanto a água esquenta, olho pela janela outra vez. O céu começa a clarear de leve por trás dos morros.
Mais um dia começando. Mais uma batalha pra vencer.
Eu trabalho numa lanchonete aqui do morro… bom, numa delas. Mas na mais movimentada que tem.
A lanchonete da dona Sônia vive cheia. Gente, entrando, gente saindo, moto parando na porta, pedido toda hora. Às vezes parece que o lugar não respira nem por um minuto.
Dona Sônia é um amor de pessoa.
Sempre me tratou muito bem, desde o primeiro dia que comecei a trabalhar lá.
Sempre ajudou quando eu ou minha mãe precisava… não só financeiramente, adiantando meu pagamento quando a situação apertava, mas também de outras formas.
Teve vezes que eu ou minha mãe ficava doente e ela aparecia aqui em casa com uma panela de comida diferente, bem reforçada, daquelas que enche a barriga e dá até um quentinho no coração. Coisa que pouca gente faz hoje em dia.
A minha vida nunca foi fácil.
Eu vim de uma noite que minha mãe teve anos atrás. Uma única noite… e nove meses depois eu tava no mundo.
Nunca conheci meu pai. Na verdade, nem sei quem ele é.
Minha mãe sempre foi muito sincera comigo. Ela disse que ele foi um caso de uma noite só… coisa que ela quase nunca fazia, mas naquele dia aconteceu. E foi isso. Nunca mais viu ele.
A única coisa que minha mãe diz saber com certeza é que meus olhos são iguais aos dele.
Porque os olhos da minha mãe são castanhos. Ela também é ruiva…, mas ruiva de olhos castanhos. Já os meus são verdes.
Sempre que alguém comenta isso, ela diz que eu puxei os olhos do meu pai. Mesmo sem saber quem ele é. Enfim…
Minha mãe trabalha de faxina aqui pelo morro, pegando casa de gente que pode pagar um pouco mais. Não é fácil, mas é o que sustenta a gente junto com o meu trabalho.
Eu comecei na lanchonete com quatorze anos. Estudava de manhã e trabalhava à tarde e à noite.
Era cansativo… muito. Mas eu nunca reclamei.
A gente aprende cedo que reclamar não enche barriga. Ano passado eu terminei os meus estudos.
Quando peguei meu diploma do ensino médio eu fiquei feliz… muito feliz mesmo. Por alguns minutos eu até me permiti sonhar.
Pensei em fazer faculdade. Pensei em estudar mais. Pensei em ter uma profissão de verdade.
Mas sonhar e poder realizar são duas coisas bem diferentes. E a verdade é que eu não tenho condição nenhuma de pagar uma faculdade. E muito menos tempo. Porque aqui em casa, se eu não trabalhar… as contas simplesmente não se pagam.
[...]
Deixei o café pronto pra minha mãe e comi um pouco antes de sair de casa.
Agora que terminei os estudos, peguei o turno da manhã na lanchonete também. Assim eu consigo ganhar um pouco mais no final do mês.
Não é muito…, mas já ajuda.
O dia já tá claro quando eu olho as horas num celular simples, velho, daqueles que a gente já sabe que qualquer dia para de funcionar de vez. O w******p nele já vive travando.
Quem me deu foi a dona Sônia, pra eu poder me comunicar com ela quando precisa. Coisa simples…, mas que pra mim já ajuda muito.
Saio andando pelo morro, passando pelos becos e vielas que eu já conheço bem.
Aqui a gente aprende cedo quais caminhos são mais seguros… e quais é melhor evitar. Eu sempre escolho os mais movimentados.
Gente, passando, comércio abrindo, moto subindo e descendo o morro… isso sempre dá uma sensação um pouco maior de segurança.
Depois de alguns minutos andando, eu chego na praça central do morro. É dali que dá pra ver quase tudo acontecendo por aqui.
Quando olho pra frente e vejo a porta da lanchonete ainda fechada, eu estranho um pouco. A dona Sônia normalmente já teria aberto.
Mas o que realmente faz meu corpo travar… é quem tá parado ali perto. Coringa.
Ele é o sub do morro. A mão direita do chefe.
Todo mundo conhece ele. E todo mundo também sabe que é melhor não cruzar o caminho dele sem motivo.
Coringa é um homem bonito… alto, forte, daqueles que chama atenção quando passa.
Mas também é conhecido por ser um cara muito m*l. Frio. Perigoso.
E quando alguém da boca aparece perto de você… normalmente não é coisa boa.
Eu vejo quando ele levanta o olhar e me encara. Coringa tá com o celular na mão.
Os olhos dele ficam presos em mim por alguns segundos, como se estivesse me analisando.
Meu estômago aperta na hora. Ele fala alguma coisa no celular, em voz baixa, como se estivesse respondendo alguém.
Depois guarda o aparelho no bolso. E então começa a caminhar na minha direção.
Meu coração dispara. Eu simplesmente congelo no mesmo lugar. Parada no meio da rua.
Sem saber o que ele quer comigo.
CORINGA— Vitória, vamo conversar. _ Essa simples frase quase faz minhas pernas sumirem debaixo de mim. Por um segundo eu acho que vou desmaiar ali mesmo, no meio da rua.
Mas antes que eu caia, a mão dele segura firme meu braço, me segurando no lugar.
AMORES AQUI INICIAMOS MAIS UMA HISTÓRIA QUE VAI NOS FAZER SURTAR.
O PRÉ LANÇAMENTO É DIA 15/03 O LANÇAMENTO OFICIAL 20/03
MAS VAMOS TER UM CAPÍTULO TODOS OS DIAS ATÉ O PRÉ LANÇAMENTO.