Capítulo 14

1537 Palavras
Ashley preparava chá. Ou pelo menos dizia que estava. Na verdade, ela estava de costas para mim, apenas mexendo a colher contra a xícara como desculpa para me dar espaço. Silenciosa, paciente. Como sempre fazia quando eu estava à beira de um colapso. — Você quer que eu diga que ele é um b****a? Porque eu posso começar por aí. — ela disse, sem se virar. Eu me sentei no sofá, o corpo mole, os pensamentos duros. — Não sei nem quem ele é. Na verdade, acho que não conheço ninguém nessa história. Ashley suspirou. Finalmente se virou e se aproximou com a xícara. — Quer saber o que eu acho? — Não. — dei um pequeno sorriso. — Mas você vai dizer mesmo assim. — Exatamente. — ela sentou ao meu lado. — Isso tudo… não é sobre você. Ainda. Mas vai ser. Porque você entrou nisso por causa do Josh. Porque você se importa. E porque, de algum modo doentio, eles colocaram você dentro de um tabuleiro em que ninguém sabe mais quem está ganhando. — Eu me sinto... usada. Jogada. Como se estivesse assistindo a uma peça pela metade e todo mundo esperasse que eu entendesse o final. Ashley apoiou a xícara na mesa de centro. — Então vamos descobrir o roteiro inteiro. — Como assim? — A tal da Clair. A mulher. A ameaça. A esposa. A psicopata — ou seja lá o que for — não pode simplesmente não existir na internet. Alguém assim não vive nas sombras sem deixar rastros. Ashley se sentou ao meu lado de novo, dessa vez mais perto. Colocou o notebook no colo, respirou fundo e disse: — Então vamos fazer a única coisa que dá sentido agora. Vamos entender quem é essa mulher que consegue controlar os dois irmãos como marionetes. Ela começou a digitar. Buscas cruzadas. Artigos antigos. Registros empresariais. LinkedIn. Notícias de eventos. Até que... algo apareceu. Ashley congelou a tela, me olhou em silêncio e virou o notebook lentamente. Era uma foto. Clair. Vestido de veludo vinho, taça de champanhe em mãos, o sorriso ensaiado de quem nunca perde o controle. Ao lado dela: Josh. Meus pulmões falharam. Ashley clicou para o lado. Outra foto. Apolio. Terno escuro, expressão neutra, com a mesma mulher segurando seu braço com naturalidade de quem sabe que pertence. — Meu Deus… — sussurrei. — Eles estavam com ela. Os dois. Ashley confirmou com a cabeça, tensa. — Parece que ela começou como relações públicas da firma do pai deles. Aproximação fácil. Estratégica. — Ou predatória. — acrescentei, sentindo o estômago revirar. Ashley continuou fuçando. Páginas congeladas, registros vazios, comentários apagados. Como se Clair tivesse passado os últimos anos não apenas manipulando os homens — mas também reescrevendo a própria presença no mundo. Foi então que meu celular vibrou. Josh. “Me desculpa por tudo. Sei que pareço um covarde. Mas preciso te contar o que aconteceu. Não aguento mais guardar isso. Me encontra amanhã?” Eu mostrei a mensagem a Ashley. Ela apenas assentiu. — Você vai? Fiquei em silêncio. O coração dizia sim. A dignidade dizia não. — Eu ainda tenho perguntas. E acho que… mereço as respostas. — Então vai. — Ashley respondeu, com firmeza. — Mas sabendo que pode não gostar do que vai ouvir. Assenti. — E você? Ela fechou o notebook, já decidida. — Vou continuar cavando. Uma mulher como Clair não sobe tão alto sem enterrar muitos corpos no caminho. Sorri pela primeira vez em horas. — Obrigada. — Não me agradece ainda. Essa história ainda vai doer mais antes de melhorar. Naquela noite, deitada em silêncio, pensei em tudo. Em Josh. Em Apolio. Em Clair. Mas, principalmente, em mim. E em como, de alguma forma c***l, eu estava no meio disso tudo. Talvez porque me importei com a pessoa errada. Ou talvez… porque, por dentro, eu também tivesse rachaduras que estavam começando a ceder. A cafeteria não era nada demais. Pequena, com mesas de madeira escura e decoração vintage meio cafona. Mas o cheiro do café fresco e o burburinho discreto da manhã abafavam qualquer tensão. Quando Josh entrou, vi de longe que ele estava diferente. Sem charme. Sem sorriso. Sem aquele ar de “eu controlo tudo”. Vestia jeans, um casaco amassado, e os olhos baixos como se o mundo estivesse pesando mais do que ele podia carregar. — Oi. — disse, parando à minha frente. — Senta. — respondi, sem sorrir. Ele obedeceu. Por alguns segundos, tudo o que fizemos foi encarar a xícara vazia no centro da mesa, como se ali dentro estivessem todas as palavras que ainda não sabíamos como dizer. — Obrigado por vir. — ele disse, por fim. Assenti com um movimento pequeno. — Eu devia ter te contado antes. Sobre tudo. Mas... — Mas você não sabia como, né? — completei. — E agora tá aqui. Tentando costurar algo que já rasgou. Ele fechou os olhos, respirou fundo. Quando abriu, me encarou com uma sinceridade que eu não esperava. — A Charlotte… ela é minha prima. As palavras pairaram no ar. Pesadas. Incômodas. Mas ele seguiu. — A gente cresceu junto. Nossas famílias sempre tiveram essa ideia maluca de que um dia a gente ia se casar. Tipo... destino. As alianças já estavam escolhidas antes mesmo da gente ter idade pra saber o que era gostar de alguém. Me mantive em silêncio. Ele precisava falar. — A gente namorou por anos. E... eu amava ela. De verdade. Mesmo com as brigas, mesmo com o peso que tudo carregava. Mas chegou um ponto em que aquilo começou a sufocar. Tudo era expectativa. Pressão. Ninguém ali amava por escolha — era porque estava escrito, sabe? — E então você foi para o Texas. — falei, baixo. Ele assentiu. — Eu fui pra fugir. Abrir a nova filial, começar algo sozinho. E foi lá que… conheci você. Uma parte de mim queria sorrir. A outra queria gritar. — Você se apaixonou por mim mesmo tendo alguém? — Sim. — ele disse, sem hesitar. — Não era só atração. Era diferente. Mais leve. Mais real. Fechei os olhos, sentindo a respiração falhar. — Josh, você diz isso como se o sentimento fosse suficiente pra apagar o que aconteceu. — Eu tô perdido, Lu. De verdade. Eu não sei como parar de errar. Eu olho pra trás e tudo o que vejo são pedaços que eu mesmo destruí. — Eu sei quem está te ameaçando. — soltei, de repente. Ele congelou. — Clair. Os olhos dele tremeram. — O Apolio me contou. Não queria que eu me envolvesse, mas... já tô até o pescoço nessa loucura. Josh engoliu em seco. — Ela disse que vai destruir todo mundo. — Ela já tá começando. — falei, apontando discretamente com o queixo. Ele seguiu meu olhar. No canto da cafeteria, sentado sozinho com um jornal nas mãos e o celular discretamente apontado para nós, estava um homem. Magro, cabelos tingidos de castanho escuro, o olhar nada sutil. Josh ficou pálido. — É do tabloide... eu conheço esse cara. O sangue me ferveu. Levantei o queixo, encarei o homem e, com a voz firme e clara, declarei: — Não se preocupa, querido. Gostamos da mesma fruta. O jornalista abaixou o jornal lentamente, irritado por ter sido exposto, e saiu da cafeteria sem dizer uma palavra. Sentei de novo. Passei as mãos no rosto. Afundei os dedos nos cabelos e respirei fundo, como quem tenta expirar a bagunça toda. — Eu não sei mais o que estou fazendo. — confessei. — Eu só... gostava de alguém. E agora tô no meio de um escândalo de família, ameaçada por uma mulher que nem conheço, ignorada por um cara que m*l me conhece e... — a voz falhou — eu nem consigo ir à faculdade direito. Minhas matérias tão atrasadas, meus trabalhos acumulando. Eu tô perdida, Josh. De verdade. Ele ficou me olhando, aflito. — E o Apolio? — perguntou, hesitante. — Ele... te machucou? — Não. — respondi rápido. Talvez rápido demais. — Só me mandou embora. Como se eu fosse peso. Como se eu nunca tivesse estado ali. Josh mordeu os lábios, inquieto. — Aconteceu alguma coisa entre vocês? Desviei o olhar. Senti o calor subir no rosto. — Nada que você precise saber. — respondi. Mas a imagem do sofá na varanda, o vinho, a madrugada... tudo veio à tona. Josh entendeu. Fechou os olhos, abaixou a cabeça. — Me perdoa, Luísa. — Eu te perdoo. — disse, com sinceridade. — Mas preciso que você se afaste. — O quê? — Sua amizade vai continuar me machucando. Principalmente agora que tem outra garota envolvida. Eu não posso ser o meio do caminho. Não mais. Ele hesitou. Quis dizer algo, mas engoliu as palavras. — Tá certo. — murmurou. — Eu vou respeitar isso. Ele se levantou devagar. — Cuida de você. Por favor. Assenti, engolindo as lágrimas. Ele saiu. E eu fiquei. Pedi um mocha. Sentei sozinha na mesa de canto. E, pela janela, observei Josh se afastar até desaparecer no movimento da cidade. E mesmo sabendo que aquela era a decisão certa… Meu coração ainda doía como se eu tivesse perdido algo que nunca foi realmente meu.
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