Subimos o elevador em silêncio.
Apolio estava com o maxilar tenso, mãos nos bolsos, e olhos fixos na contagem dos andares como se pudesse impedir o destino de acontecer se encarasse o número certo por tempo suficiente.
Eu, do meu lado, me sentia como uma criança entrando no quarto de um adulto perigoso. O peso no estômago. O suor nas palmas das mãos. A sensação incômoda de que eu estava prestes a presenciar algo que nunca deveria ter visto.
Quando a porta se abriu no andar de Clair, Apolio saiu primeiro. Caminhou até a porta 1203 com passos firmes, mas o ombro levemente caído entregava a tensão.
Tocou a campainha.
A porta se abriu quase de imediato. E ali estava ela.
Clair.
Alta, perfeitamente maquiada mesmo àquela hora, um robe de seda amarrado de maneira casual demais para ser inocente. Os olhos claros brilhavam com algo entre prazer e veneno.
Ela olhou para Apolio, e depois para mim. Seu sorriso se curvou como uma lâmina.
— Que tipo de visita interessante é essa? — perguntou, com a voz melódica demais para esconder o deboche.
Apolio ignorou o comentário.
— Podemos conversar?
— Claro. — ela se virou e começou a caminhar de volta para dentro, deixando a porta aberta. — Mas só nós dois.
Meus pés travaram.
— Ela fica. — disse Apolio, sem olhar para mim.
Clair riu, virando-se no meio da sala.
— Não. Ela não fica. Eu não sujo meu tapete com amantes, Apolio. Nem com turistas perdidas em histórias que não são delas.
Apolio respirou fundo, visivelmente se contendo.
Virou para mim.
— Luísa… espera aqui fora, por favor.
Senti o rosto queimar.
— Você tá me deixando aqui por causa dela?
— Não é por causa dela. É pra evitar algo pior. Só espera, por favor.
Olhei para Clair. Ela sorria.
Aquele sorriso de mulher que sabia que, por enquanto, ainda mandava no tabuleiro.
Eu engoli o orgulho, e assenti.
— Tudo bem.
Me afastei, caminhando até o corredor.
Mas antes de me afastar completamente, Clair passou por mim, lenta, deixando que o ombro roçasse propositalmente no meu. Sussurrou baixo:
— Aproveita essa espera.
Engoli a raiva, o nó na garganta, o gosto amargo da humilhação.
E esperei.
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Apolio fechou a porta, os ombros duros, o olhar fixo nela.
— O que você quer, Clair?
Ela se sentou no sofá com a leveza de quem nunca precisou se preocupar com consequência alguma.
— O que eu quero? Que pare de tentar fugir. Quero que você se lembre de quem somos.
— Não existe mais “nós”.
— Claro que existe. Legalmente, socialmente… e, se eu quiser, publicamente.
— Então diz logo. Quanto você quer pra acabar com isso? Qual o preço da minha liberdade?
Clair inclinou a cabeça com um sorriso cínico.
— Você ainda não entendeu. Eu não quero sua liberdade.
Ela se levantou devagar e se aproximou.
— Eu quero a sua prisão voluntária. Quero que continue usando a aliança. Que continue atendendo aos jantares de fachada. Que continue sendo meu marido, mesmo que odeie cada segundo disso.
Apolio arregalou os olhos, a voz falhando de raiva:
— Por quê?
— Porque eu gosto de ver você tentando ser feliz… e falhando. Gosto de saber que você respira outra mulher, mas dorme comigo. Gosto do controle. E principalmente... — ela se aproximou ainda mais — gosto de saber que, enquanto eu tiver isso… ninguém vai encostar no seu nome sem se sujar.
Ela pegou um envelope da mesinha de centro. Jogou sobre o sofá.
— As provas do que o seu pai fez. Desvios, contratos falsos, contas no exterior. Está tudo aí. Eu não preciso inventar nada. Só preciso entregar isso para as pessoas certas.
O mundo girou.
Apolio sentiu a respiração pesar. As mãos trêmulas.
Clair sussurrou, venenosa:
— Mande aquela menina embora. Agora.
Ele hesitou.
Clair repetiu, mais firme:
— Agora.
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A porta se abriu com força.
Apolio surgiu, os olhos duros.
— Vai pra casa, Luísa. Isso não é lugar pra você.
— O quê?
— Eu disse pra ir embora. Agora.
As palavras vieram como uma facada. Secas. Sem espaço pra réplica.
Ele fechou a porta antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Fiquei ali, parada, encarando a madeira fria da entrada. A respiração acelerada. O peito apertado.
Lá dentro, ouvi passos. Movimentos. Risos abafados.
O gosto do abandono tomou conta da minha boca.
Peguei o celular, desci correndo as escadas, e entrei no primeiro táxi que passou.
Não olhei pra trás.
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Ashley abriu a porta quando ouviu a chave girar. Eu entrei como um furacão, jogando a bolsa no chão.
— Luísa… o que aconteceu?
— Ele me mandou embora. — minha voz saiu entrecortada. — E eu conheci a esposa dele.
Ashley arregalou os olhos.
— Ele é casado?
— Com a mulher que tá ameaçando destruir a vida do próprio irmão. E sabe o pior?
Parei. Respirei fundo.
Ashley se aproximou, me abraçando. Eu tremia.
— Eu tô no meio de um jogo que eu nem sabia que existia. E acho que acabei de perder a primeira rodada.