Capítulo 13

859 Palavras
Subimos o elevador em silêncio. Apolio estava com o maxilar tenso, mãos nos bolsos, e olhos fixos na contagem dos andares como se pudesse impedir o destino de acontecer se encarasse o número certo por tempo suficiente. Eu, do meu lado, me sentia como uma criança entrando no quarto de um adulto perigoso. O peso no estômago. O suor nas palmas das mãos. A sensação incômoda de que eu estava prestes a presenciar algo que nunca deveria ter visto. Quando a porta se abriu no andar de Clair, Apolio saiu primeiro. Caminhou até a porta 1203 com passos firmes, mas o ombro levemente caído entregava a tensão. Tocou a campainha. A porta se abriu quase de imediato. E ali estava ela. Clair. Alta, perfeitamente maquiada mesmo àquela hora, um robe de seda amarrado de maneira casual demais para ser inocente. Os olhos claros brilhavam com algo entre prazer e veneno. Ela olhou para Apolio, e depois para mim. Seu sorriso se curvou como uma lâmina. — Que tipo de visita interessante é essa? — perguntou, com a voz melódica demais para esconder o deboche. Apolio ignorou o comentário. — Podemos conversar? — Claro. — ela se virou e começou a caminhar de volta para dentro, deixando a porta aberta. — Mas só nós dois. Meus pés travaram. — Ela fica. — disse Apolio, sem olhar para mim. Clair riu, virando-se no meio da sala. — Não. Ela não fica. Eu não sujo meu tapete com amantes, Apolio. Nem com turistas perdidas em histórias que não são delas. Apolio respirou fundo, visivelmente se contendo. Virou para mim. — Luísa… espera aqui fora, por favor. Senti o rosto queimar. — Você tá me deixando aqui por causa dela? — Não é por causa dela. É pra evitar algo pior. Só espera, por favor. Olhei para Clair. Ela sorria. Aquele sorriso de mulher que sabia que, por enquanto, ainda mandava no tabuleiro. Eu engoli o orgulho, e assenti. — Tudo bem. Me afastei, caminhando até o corredor. Mas antes de me afastar completamente, Clair passou por mim, lenta, deixando que o ombro roçasse propositalmente no meu. Sussurrou baixo: — Aproveita essa espera. Engoli a raiva, o nó na garganta, o gosto amargo da humilhação. E esperei. ⸻ Apolio fechou a porta, os ombros duros, o olhar fixo nela. — O que você quer, Clair? Ela se sentou no sofá com a leveza de quem nunca precisou se preocupar com consequência alguma. — O que eu quero? Que pare de tentar fugir. Quero que você se lembre de quem somos. — Não existe mais “nós”. — Claro que existe. Legalmente, socialmente… e, se eu quiser, publicamente. — Então diz logo. Quanto você quer pra acabar com isso? Qual o preço da minha liberdade? Clair inclinou a cabeça com um sorriso cínico. — Você ainda não entendeu. Eu não quero sua liberdade. Ela se levantou devagar e se aproximou. — Eu quero a sua prisão voluntária. Quero que continue usando a aliança. Que continue atendendo aos jantares de fachada. Que continue sendo meu marido, mesmo que odeie cada segundo disso. Apolio arregalou os olhos, a voz falhando de raiva: — Por quê? — Porque eu gosto de ver você tentando ser feliz… e falhando. Gosto de saber que você respira outra mulher, mas dorme comigo. Gosto do controle. E principalmente... — ela se aproximou ainda mais — gosto de saber que, enquanto eu tiver isso… ninguém vai encostar no seu nome sem se sujar. Ela pegou um envelope da mesinha de centro. Jogou sobre o sofá. — As provas do que o seu pai fez. Desvios, contratos falsos, contas no exterior. Está tudo aí. Eu não preciso inventar nada. Só preciso entregar isso para as pessoas certas. O mundo girou. Apolio sentiu a respiração pesar. As mãos trêmulas. Clair sussurrou, venenosa: — Mande aquela menina embora. Agora. Ele hesitou. Clair repetiu, mais firme: — Agora. __ A porta se abriu com força. Apolio surgiu, os olhos duros. — Vai pra casa, Luísa. Isso não é lugar pra você. — O quê? — Eu disse pra ir embora. Agora. As palavras vieram como uma facada. Secas. Sem espaço pra réplica. Ele fechou a porta antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Fiquei ali, parada, encarando a madeira fria da entrada. A respiração acelerada. O peito apertado. Lá dentro, ouvi passos. Movimentos. Risos abafados. O gosto do abandono tomou conta da minha boca. Peguei o celular, desci correndo as escadas, e entrei no primeiro táxi que passou. Não olhei pra trás. ⸻ Ashley abriu a porta quando ouviu a chave girar. Eu entrei como um furacão, jogando a bolsa no chão. — Luísa… o que aconteceu? — Ele me mandou embora. — minha voz saiu entrecortada. — E eu conheci a esposa dele. Ashley arregalou os olhos. — Ele é casado? — Com a mulher que tá ameaçando destruir a vida do próprio irmão. E sabe o pior? Parei. Respirei fundo. Ashley se aproximou, me abraçando. Eu tremia. — Eu tô no meio de um jogo que eu nem sabia que existia. E acho que acabei de perder a primeira rodada.
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