Capítulo 19

1428 Palavras
O sol entrava em faixas tímidas pela fresta da cortina. A cidade ainda acordava lá fora, mas aqui dentro… o caos tomava forma de calmaria. Acordei com um calor estranho no corpo — mas não era o cobertor. Era um braço. Um braço masculino, pesado e quente, encaixado sobre minha cintura. Senti minha respiração prender. Abri os olhos devagar, como quem teme a realidade. Apolio estava atrás de mim, respirando com calma. Dormíamos de conchinha. Conchinha. Pelo amor de Deus. Antes que eu pudesse tentar sair dali com discrição, a porta do quarto se escancarou. — Ah, não… — Ashley parou, estalou os olhos na nossa direção e soltou uma gargalhada tão alta que a planta no canto quase caiu do vaso. — Nem o destino esperava por essa! — Ash! — gritei, ainda sem me mexer, completamente paralisada pelo pânico e pela vergonha. Apolio acordou num sobressalto, meio grogue, piscando confuso. — Que…? O quê? — Relaxa, casal. Tá tudo bem. — Ashley ria como se tivesse presenciado a cena do século. — Eu fiz café. Se conseguirem se levantar sem tropeçar um no outro, a cozinha é logo ali. Ela saiu saltitante, ainda rindo. Eu me afastei rapidamente de Apolio, sentindo o rosto em chamas. Ele também se moveu, coçando a cabeça e tentando manter a compostura. Nenhum de nós disse nada. Só nos levantamos. Nenhum olhar. Nenhuma palavra. Seguimos Ashley como dois adolescentes pegos no flagra pela mãe. Na cozinha, o cheiro do café recém-passado era quase tão forte quanto o constrangimento. Ashley cantarolava alguma música dos anos 2000 enquanto colocava açúcar em sua xícara, fingindo não notar o clima. Peguei uma caneca no armário, enchi de café e, com mãos um pouco trêmulas, estendi para Apolio. — Aqui… — murmurei, ainda evitando seu olhar. — Obrigado. — Sua voz soou mais rouca do que o normal. Talvez fosse só o efeito do sono. Talvez fosse outra coisa. Por alguns minutos, ficamos ali, tomando café em silêncio, enquanto Ashley fazia comentários aleatórios sobre a ressaca e um sonho que teve com um cachorro falante. E, sinceramente, foi um alívio. Então o telefone de Apolio tocou. Ele atendeu quase no mesmo segundo. — Pronto… Sim… — Fez uma careta discreta. — Em uma hora?! Eu estou chegando. Desligou com um suspiro e se virou para nós. — Tenho que ir. Reunião importante com investidores. Ashley fez um joinha sem olhar para ele. Eu o acompanhei até a porta, ainda sentindo o calor do braço dele na minha pele. Quando abri a porta, ele parou, sem pressa. — Luísa… — começou, com uma tranquilidade tão inesperada que eu o encarei pela primeira vez desde o episódio “conchinha”. — Eu sei que a gente tá vivendo dias... surreais. Mas ontem à noite, mesmo com tudo, foi… bom. Fiquei em silêncio, observando seus olhos. Ele parecia genuíno. E pela primeira vez, talvez desde que nos conhecemos, parecia vulnerável. — Você quer sair comigo? — ele perguntou, com um meio sorriso, como se desafiasse a própria lógica. — Tipo… um encontro. Só nós dois. Nada de ex-esposas malucas nem bebidas demais. Só... a gente tentando ver no que isso dá. Eu ri, meio nervosa, meio surpresa. — Você sempre é tão direto assim? — Eu sinto que não tenho muito tempo pra rodeios. Hesitei. Parte de mim queria dizer “isso é uma péssima ideia”. Mas a outra parte — aquela que gostou de adormecer ao lado dele, mesmo sem perceber — sussurrou: por que não? — Tudo bem. — Falei devagar, como quem está pisando em um campo minado. — Mas sem tequila, ok? Ele sorriu, aliviado. — Combinado. Posso te buscar amanhã de manhã? — Amanhã de manhã? É um encontro ou uma entrevista de emprego? — Pode ser os dois. Mas prometo que levo café. Ri, balançando a cabeça. Ele se inclinou levemente, como se quisesse se despedir de forma mais... pessoal. Mas parou no meio do caminho. E só disse: — Até amanhã, Luísa. E então se foi. Fiquei parada ali por alguns segundos, com a porta aberta e o coração batendo forte. Ashley apareceu com sua xícara na mão e um sorriso torto no rosto. — Você tá ferrada, sabia? — Por quê? — Porque agora você realmente quer saber no que isso vai dar. E ela estava certa. — Ashley tinha razão. Eu não sabia se o que estava fazendo era realmente uma escolha sensata. Quer dizer... levando em consideração tudo — o fato de que ele era irmão do meu ex quase-namorado, o fato de que a ex-esposa dele era uma espécie de vilã de novela mexicana, o fato de que nós nos conhecíamos havia, sei lá, dois cafés e uma conchinha — aquilo podia ser rápido demais. Mas lá estava eu, deitada na cama, encarando o teto como se ele tivesse as respostas do universo. Comecei a listar os prós e contras mentalmente: Prós: – Ele é bonito. Tipo, perigosamente bonito. – Inteligente. – Tem uma voz que faz meu cérebro travar. – Carrega a Ashley como se ela fosse de papel. Contras: – É irmão do meu ex. – Teve uma esposa maluca. – Provavelmente tem mais problemas emocionais do que eu consigo contar. – Dormiu de conchinha comigo e agiu como se fosse a coisa mais natural do mundo. Solto um suspiro longo. Então, um pensamento me atinge como um tijolo: No Texas eu era namorada… aqui, pelo visto, eu sou a outra. — Isso não importa. — Digo alto, balançando a cabeça, como se o gesto pudesse apagar o pensamento feito um quadro branco. Fico em silêncio por alguns minutos, olhando para o teto, como se ele fosse me oferecer um sinal. Nada. Só uma rachadura na pintura e uma mosquinha voando em círculos. A porta do quarto se abre e Ashley entra com uma xícara de chá e uma expressão curiosamente serena. — Posso? — Claro. — Sento na cama, dando espaço. Ela se joga do meu lado, cruzando as pernas como uma adolescente em noite de pijama. — Estava pensando... — começa, soprando o chá. — Ainda tô trocando umas mensagens com o Max. Viro o rosto, surpresa. — Sério? — É. Nada demais. Só… por segurança, sabe? Se o Apolio for um psicopata disfarçado de galã, pelo menos alguém vai saber onde você esteve por último. — Ashley! — Eu tô brincando. — Sorri. — Mais ou menos. Mas o Max parece legal. Meio atrapalhado, mas não é um b****a. — Engraçado… — murmuro, pensativa. — Você acha que o Apolio é um b****a? Ela me observa por alguns segundos, séria. Depois encolhe os ombros. — Eu acho que ele é... complexo. Sabe aquele tipo de pessoa que cresceu tendo que esconder tudo o que sente? Acho que ele é esse tipo. Mas ele tem olhado pra você de um jeito diferente, Lu. Não é só sobre te provocar ou se vingar do irmão. Eu vejo isso. Fico em silêncio. Só que, de repente, um pensamento me atravessa como um raio. — d***a! — O quê? — Ele não me disse pra onde a gente vai! — Me levanto num salto. — Como eu vou saber que roupa usar? E se for um café da manhã num restaurante chique? E se for trilha? E se for mergulho? Eu não sei! Ashley ri tanto que quase derruba o chá. — Respira, garota. Manda mensagem pra ele, simples assim. Pego o celular com dedos ligeiramente trêmulos. Abro o chat com Apolio. Meu dedo hesita sobre o teclado, mas escrevo: "Oi... só pra saber: tem um dress code pro nosso encontro? Tipo... salto alto ou tênis de caminhada?" Ele responde quase que imediatamente, como se estivesse esperando minha mensagem: "Tênis. Vamos a um parque." Um parque? — Um parque?! — Leio em voz alta, confusa. Ashley se ajeita. — Uau. Isso é... fofo. — Isso é estranho! Ele parece o tipo de pessoa que vai a uma degustação de vinhos escondida num cassino ilegal em Las Vegas, não a um parque! — Talvez ele esteja tentando impressionar você sendo alguém mais… acessível. — Ou talvez ele esteja me levando a um parque de armas medievais e eu precise lutar pela minha vida. — Drama queen. — Ashley revira os olhos. — Vai ser bom. Um parque é seguro. E romântico. E ele quer te ver de tênis. Isso é praticamente um casamento no mundo do Apolio. Solto uma risada nervosa, mas respiro fundo. Talvez Ashley esteja certa. Talvez um passeio no parque seja bom…
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