O sol entrava em faixas tímidas pela fresta da cortina. A cidade ainda acordava lá fora, mas aqui dentro… o caos tomava forma de calmaria. Acordei com um calor estranho no corpo — mas não era o cobertor. Era um braço. Um braço masculino, pesado e quente, encaixado sobre minha cintura.
Senti minha respiração prender.
Abri os olhos devagar, como quem teme a realidade. Apolio estava atrás de mim, respirando com calma. Dormíamos de conchinha. Conchinha.
Pelo amor de Deus.
Antes que eu pudesse tentar sair dali com discrição, a porta do quarto se escancarou.
— Ah, não… — Ashley parou, estalou os olhos na nossa direção e soltou uma gargalhada tão alta que a planta no canto quase caiu do vaso. — Nem o destino esperava por essa!
— Ash! — gritei, ainda sem me mexer, completamente paralisada pelo pânico e pela vergonha. Apolio acordou num sobressalto, meio grogue, piscando confuso.
— Que…? O quê?
— Relaxa, casal. Tá tudo bem. — Ashley ria como se tivesse presenciado a cena do século. — Eu fiz café. Se conseguirem se levantar sem tropeçar um no outro, a cozinha é logo ali.
Ela saiu saltitante, ainda rindo. Eu me afastei rapidamente de Apolio, sentindo o rosto em chamas. Ele também se moveu, coçando a cabeça e tentando manter a compostura.
Nenhum de nós disse nada. Só nos levantamos. Nenhum olhar. Nenhuma palavra.
Seguimos Ashley como dois adolescentes pegos no flagra pela mãe.
Na cozinha, o cheiro do café recém-passado era quase tão forte quanto o constrangimento. Ashley cantarolava alguma música dos anos 2000 enquanto colocava açúcar em sua xícara, fingindo não notar o clima. Peguei uma caneca no armário, enchi de café e, com mãos um pouco trêmulas, estendi para Apolio.
— Aqui… — murmurei, ainda evitando seu olhar.
— Obrigado. — Sua voz soou mais rouca do que o normal. Talvez fosse só o efeito do sono. Talvez fosse outra coisa.
Por alguns minutos, ficamos ali, tomando café em silêncio, enquanto Ashley fazia comentários aleatórios sobre a ressaca e um sonho que teve com um cachorro falante. E, sinceramente, foi um alívio.
Então o telefone de Apolio tocou. Ele atendeu quase no mesmo segundo.
— Pronto… Sim… — Fez uma careta discreta. — Em uma hora?! Eu estou chegando.
Desligou com um suspiro e se virou para nós.
— Tenho que ir. Reunião importante com investidores.
Ashley fez um joinha sem olhar para ele.
Eu o acompanhei até a porta, ainda sentindo o calor do braço dele na minha pele. Quando abri a porta, ele parou, sem pressa.
— Luísa… — começou, com uma tranquilidade tão inesperada que eu o encarei pela primeira vez desde o episódio “conchinha”. — Eu sei que a gente tá vivendo dias... surreais. Mas ontem à noite, mesmo com tudo, foi… bom.
Fiquei em silêncio, observando seus olhos. Ele parecia genuíno. E pela primeira vez, talvez desde que nos conhecemos, parecia vulnerável.
— Você quer sair comigo? — ele perguntou, com um meio sorriso, como se desafiasse a própria lógica. — Tipo… um encontro. Só nós dois. Nada de ex-esposas malucas nem bebidas demais. Só... a gente tentando ver no que isso dá.
Eu ri, meio nervosa, meio surpresa.
— Você sempre é tão direto assim?
— Eu sinto que não tenho muito tempo pra rodeios.
Hesitei. Parte de mim queria dizer “isso é uma péssima ideia”. Mas a outra parte — aquela que gostou de adormecer ao lado dele, mesmo sem perceber — sussurrou: por que não?
— Tudo bem. — Falei devagar, como quem está pisando em um campo minado. — Mas sem tequila, ok?
Ele sorriu, aliviado.
— Combinado. Posso te buscar amanhã de manhã?
— Amanhã de manhã? É um encontro ou uma entrevista de emprego?
— Pode ser os dois. Mas prometo que levo café.
Ri, balançando a cabeça. Ele se inclinou levemente, como se quisesse se despedir de forma mais... pessoal. Mas parou no meio do caminho. E só disse:
— Até amanhã, Luísa.
E então se foi.
Fiquei parada ali por alguns segundos, com a porta aberta e o coração batendo forte.
Ashley apareceu com sua xícara na mão e um sorriso torto no rosto.
— Você tá ferrada, sabia?
— Por quê?
— Porque agora você realmente quer saber no que isso vai dar.
E ela estava certa.
—
Ashley tinha razão.
Eu não sabia se o que estava fazendo era realmente uma escolha sensata. Quer dizer... levando em consideração tudo — o fato de que ele era irmão do meu ex quase-namorado, o fato de que a ex-esposa dele era uma espécie de vilã de novela mexicana, o fato de que nós nos conhecíamos havia, sei lá, dois cafés e uma conchinha — aquilo podia ser rápido demais.
Mas lá estava eu, deitada na cama, encarando o teto como se ele tivesse as respostas do universo. Comecei a listar os prós e contras mentalmente:
Prós:
– Ele é bonito. Tipo, perigosamente bonito.
– Inteligente.
– Tem uma voz que faz meu cérebro travar.
– Carrega a Ashley como se ela fosse de papel.
Contras:
– É irmão do meu ex.
– Teve uma esposa maluca.
– Provavelmente tem mais problemas emocionais do que eu consigo contar.
– Dormiu de conchinha comigo e agiu como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Solto um suspiro longo. Então, um pensamento me atinge como um tijolo: No Texas eu era namorada… aqui, pelo visto, eu sou a outra.
— Isso não importa. — Digo alto, balançando a cabeça, como se o gesto pudesse apagar o pensamento feito um quadro branco.
Fico em silêncio por alguns minutos, olhando para o teto, como se ele fosse me oferecer um sinal. Nada. Só uma rachadura na pintura e uma mosquinha voando em círculos.
A porta do quarto se abre e Ashley entra com uma xícara de chá e uma expressão curiosamente serena.
— Posso?
— Claro. — Sento na cama, dando espaço.
Ela se joga do meu lado, cruzando as pernas como uma adolescente em noite de pijama.
— Estava pensando... — começa, soprando o chá. — Ainda tô trocando umas mensagens com o Max.
Viro o rosto, surpresa.
— Sério?
— É. Nada demais. Só… por segurança, sabe? Se o Apolio for um psicopata disfarçado de galã, pelo menos alguém vai saber onde você esteve por último.
— Ashley!
— Eu tô brincando. — Sorri. — Mais ou menos. Mas o Max parece legal. Meio atrapalhado, mas não é um b****a.
— Engraçado… — murmuro, pensativa. — Você acha que o Apolio é um b****a?
Ela me observa por alguns segundos, séria. Depois encolhe os ombros.
— Eu acho que ele é... complexo. Sabe aquele tipo de pessoa que cresceu tendo que esconder tudo o que sente? Acho que ele é esse tipo. Mas ele tem olhado pra você de um jeito diferente, Lu. Não é só sobre te provocar ou se vingar do irmão. Eu vejo isso.
Fico em silêncio. Só que, de repente, um pensamento me atravessa como um raio.
— d***a!
— O quê?
— Ele não me disse pra onde a gente vai! — Me levanto num salto. — Como eu vou saber que roupa usar? E se for um café da manhã num restaurante chique? E se for trilha? E se for mergulho? Eu não sei!
Ashley ri tanto que quase derruba o chá.
— Respira, garota. Manda mensagem pra ele, simples assim.
Pego o celular com dedos ligeiramente trêmulos. Abro o chat com Apolio. Meu dedo hesita sobre o teclado, mas escrevo:
"Oi... só pra saber: tem um dress code pro nosso encontro? Tipo... salto alto ou tênis de caminhada?"
Ele responde quase que imediatamente, como se estivesse esperando minha mensagem:
"Tênis. Vamos a um parque."
Um parque?
— Um parque?! — Leio em voz alta, confusa.
Ashley se ajeita.
— Uau. Isso é... fofo.
— Isso é estranho! Ele parece o tipo de pessoa que vai a uma degustação de vinhos escondida num cassino ilegal em Las Vegas, não a um parque!
— Talvez ele esteja tentando impressionar você sendo alguém mais… acessível.
— Ou talvez ele esteja me levando a um parque de armas medievais e eu precise lutar pela minha vida.
— Drama queen. — Ashley revira os olhos. — Vai ser bom. Um parque é seguro. E romântico. E ele quer te ver de tênis. Isso é praticamente um casamento no mundo do Apolio.
Solto uma risada nervosa, mas respiro fundo. Talvez Ashley esteja certa. Talvez um passeio no parque seja bom…