Capítulo 20

1139 Palavras
Saí de casa pouco depois das nove. Ashley ficou me observando como uma mãe observa o primeiro encontro da filha adolescente, com um sorrisinho torto no rosto e os braços cruzados. — Você está bonita. — ela disse. — Você já me viu com esse tênis furado umas dez vezes. — Sim, mas dessa vez você combinou com um sorriso nervoso e um brilho nos olhos. É novo. Reviro os olhos, mas sorrio. Meu estômago parecia ter engolido um beija-flor de tão inquieto. Eu não sabia o que esperar. Um passeio no parque com Apolio? Era como imaginar Darth Vader regando margaridas. Quando ele chegou para me buscar, estava vestindo uma camiseta preta simples, calça jeans e tênis brancos. Nada extravagante, nada que dissesse “CEO de empresa milionária” ou “estou aqui para intimidar você”. Era quase... comum. Aquilo me assustou mais do que qualquer outra coisa. — Pronta? — ele perguntou, encostado no carro, com um sorriso discreto. Assenti. Durante o trajeto, falamos pouco. Ele ligou o som do carro e uma música leve e instrumental tocava ao fundo. Achei aquilo inesperadamente agradável. Como quase tudo nele ultimamente. Chegamos a um parque grande, daqueles com lagos artificiais, patinhos flutuando, pessoas andando com seus cachorros e crianças correndo com pipas coloridas. — Você trouxe um disfarce de velhinho aposentado também? — pergunto, olhando ao redor. Ele ri, e aquela risada sincera me desarma. — Achei que você gostaria de algo simples. Algo... normal. — Ele hesita. — Eu não faço isso com frequência. — Andar? — Convidar alguém pra caminhar no parque. Sorrio, surpresa com a vulnerabilidade inesperada. Caminhamos lado a lado. Às vezes nossos braços se esbarravam e, por algum motivo, eu não queria me afastar. Apolio parecia mais leve, mais humano. Comentava sobre como o som das folhas era parecido com o que ouvia quando era pequeno, e me contou que odiava andar de bicicleta porque uma vez caiu e quebrou os dois dentes da frente. "Tive que ir à escola parecendo um castor traumatizado," ele disse. E eu ri alto, imaginando a cena. Paramos numa banca de água de coco, e ele comprou dois. — Sabe que tem muita gente que odeia isso, né? — digo, encarando o copo com o canudo. — E mesmo assim... todo mundo sempre aceita quando alguém oferece. Bebo um gole. Ok, ele tinha razão. Nos sentamos num banco de madeira debaixo de uma árvore. Os raios de sol atravessavam as folhas e dançavam no chão como pequenos fantasmas dourados. Ficamos em silêncio por um tempo, mas era um silêncio confortável. Um daqueles que não pedem por palavras porque o momento já está cheio o bastante. — Você sabe que isso é estranho, né? — sussurro. — Sei. — A gente se conheceu num caos, fomos parar num bar, depois dormimos de conchinha, e agora estamos... aqui. — olho ao redor. — Parece um filme r**m. — Ou um bom. Daqueles que ganham prêmios alternativos em festivais franceses. Solto uma risada abafada. — Por que você me chamou pra sair? Ele vira o rosto em minha direção, sério. — Porque eu gosto do jeito que você olha pra mim sem medo. Fico sem palavras. Não é o tipo de coisa que se escuta de alguém como ele. Ou de qualquer um, pra ser honesta. — Então... isso aqui é tipo um primeiro encontro oficial? — pergunto, tentando aliviar o peso daquela declaração. — É o que você quiser que seja. — Bom, então... — digo com uma careta divertida. — Espero que tenha trazido um currículo impresso. Vou te fazer umas perguntas difíceis. — Tipo? — Você sabe cozinhar? — Só se for omelete. Mas é uma omelete excelente. — Tem trauma de infância? — Vários. Quer que eu ordene por intensidade emocional ou impacto psicológico? — Pretende me beijar? Ele me olha com os olhos semicerrados e um sorriso no canto dos lábios. — Isso depende. — Ele se aproxima levemente. — Você quer que eu te beije? Minha respiração falha por um segundo. Sinto meu coração bater como se tivesse pulado de um penhasco e ainda estivesse caindo. — Talvez. — respondo, num sussurro. E ali, naquele banco, entre o farfalhar das folhas e o sabor gelado da água de coco, Apolio se inclina com calma, sem pressa, sem artifícios. Ele só... me beija. E é doce. E quente. E desajeitado o suficiente para ser real. Um beijo que não termina com fogos de artifício, mas com um suspiro aliviado. Como se, pela primeira vez, estivéssemos fazendo algo certo. Quando paramos em frente ao meu prédio, hesitei por um instante. — Você quer subir? — perguntei com naturalidade, quase sem pensar. — Não é um convite com segundas intenções, só… só pensei que seria bom continuar conversando lá em cima. Apolio olhou para mim com aquele meio sorriso de canto que ele parecia guardar para momentos específicos, como se cada expressão dele fosse escolhida a dedo. — Eu adoraria. — disse com sinceridade, e seu olhar deixou claro que era verdade. — Mas tenho uma reunião agora, no horário do almoço. Fiquei enrolando porque não queria que esse dia acabasse assim tão cedo. Meu peito apertou de um jeito bom, daqueles que confirmam que você está exatamente onde deveria estar. — Tudo bem… — sorri. — Outro dia, então. — Promete? Assenti, e ele aproximou o rosto. O beijo não veio nos lábios, mas sim na bochecha, bem próximo à linha do maxilar. Quente, firme e gentil. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo cada milímetro de sensação. — Obrigado por hoje, Luísa. — ele disse, com a voz rouca e baixa, antes de destravar a porta do carro para que eu saísse. — Eu que agradeço. — respondi, com o coração galopando no peito. Desci do carro e entrei no prédio com um sorriso escondido nos cantos dos lábios. Assim que fechei a porta do apartamento, encostei as costas nela e respirei fundo. Ashley, largada no sofá com uma xícara de café e o cabelo preso num coque bagunçado, me olhou com os olhos semicerrados. — E então? — perguntou, como quem já sabia a resposta. — Ele me beijou. — falei, e o sorriso escapou antes que eu pudesse contê-lo. Ashley deu um gritinho animado, como se fosse adolescente de novo. — Eu sabia! Meu Deus, isso aqui vai virar novela mexicana! Mas olha… tô vivendo por isso, tá? Me joguei ao lado dela, ainda com a pele quente e a alma leve. Por um instante, tudo parecia no lugar. Como se o caos lá fora tivesse dado uma trégua só pra me deixar respirar. Mas no fundo, uma parte de mim sabia que não ia durar muito. Porque nada entre mim e Apolio era simples. Nunca foi. E talvez… nunca fosse mesmo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR