Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – O Jogo de Olhares
As manhãs na Guardian tinham um brilho próprio — não o das lâmpadas frias do teto nem o de telas acesas muito cedo, mas o de um ritmo que tomava corpo antes mesmo do primeiro café. O elevador abria as portas e despejava gente polida, passos comedidos, perfumes distintos e uma sucessão de “bons dias” que se encaixavam como teclas de um piano: previsíveis, porém necessários. Cláudia — Cacau para quase todos — chegava sempre cinco minutos antes do horário, um ritual que não era sobre pontualidade, mas sobre controle. Controle do salto que não podia vacilar, controle do cabelo preso num coque sem um fio fora do lugar, controle do tom de voz que não se elevava nem diante do caos. Era o jeito que encontrara de existir em uma empresa onde quase tudo girava em torno de homens que falavam alto e de números que gritavam mais alto ainda.
Ela atravessou a recepção com a elegância de quem conhece o próprio impacto e não depende dele. O blazer creme, os brincos discretos, a pasta de couro fechada por um botão dourado — cada detalhe compunha uma armadura delicada, aprendida ao longo de anos: não permitir que ninguém confundisse gentileza com permissão. Sorriu para a recepcionista e seguiu até os elevadores, ciente do reflexo pintado nas paredes de aço. Gostava de olhar para si naquela superfície e reconhecer não a moça do bairro onde crescera, mas a mulher que conquistara espaço entre reuniões, planilhas e crises contornadas com diplomacia.
— Bom dia, Cacau! — chamou alguém às costas dela.
O “bom dia” veio antes do nome, como quem anuncia um truque antes de executá-lo. Ela não precisou se virar para saber. Havia uma música na voz, um sorriso que se encostava na palavra. Luca Bianchi tinha essa mania — ou dom — de tornar qualquer cumprimento mais leve do que a realidade permitia.
Ela se virou, mantendo o corpo de lado, a pasta protegida pelo antebraço.
— Bom dia, Luca.
Ele estava sem gravata e com a camisa de algodão branco levemente dobrada nos punhos. O cabelo escuro, ainda úmido, tombava para um lado numa rebeldia calculada. Era bonito, claro; mas bonito não era o mais perigoso nele. O perigoso era o jeito como parecia sempre estar participando de uma brincadeira particular, cujo enredo só ele conhecia. Aquele meio sorriso, como se tivesse recém-lembrado de um segredo bom. Os olhos, um castanho que, sob as luzes frias, ganhavam um brilho morno.
— Se você apertar esse botão agora — apontou para o painel do elevador —, eu vou precisar passar o dia inteiro sem o seu comentário sobre a pauta do conselho. Não faça isso comigo.
Cacau inclinou, sem querer, o canto dos lábios.
— E o que o impede de subir comigo e ouvir meu comentário?
— O compromisso de respeitar a distância segura entre mim e seu senso de ironia — ele respondeu, um passo mais próximo, sem invadir de fato. — É afiado. Pode cortar.
— Quase sempre corta o que precisa ser cortado — disse, apertando o botão. — Mas, se quer muito ouvir, eu falo no caminho.
As portas se abriram. Eles entraram. Ele ficou do lado oposto, como quem respeita fronteiras invisíveis, mas o reflexo de ambos se tocava no aço escovado. Cacau notou — e fingiu não notar — o olhar rápido de Luca para o reflexo do coque impecável. Havia algo de infantil no modo como ele capturava pequenos detalhes, como se catalogasse cada aspecto de quem estava diante dele. “Observador demais para a própria segurança”, pensou.
— O conselho vai implicar com a verba de mídia — disse ela, aquecendo o assunto como se aquecesse as mãos ao redor de uma caneca. — E vão testar sua paciência quando o Omega entrar na pauta.
— A minha paciência é elástica — ele brincou. — Mas o Omega está no trilho. Você vai lá? Dá sorte quando você está.
— Eu fico na antessala. A sorte de vocês entra com o Mateo. — Olhou para o andar subindo: 3, 4, 5. — Não se esqueça: o conselheiro Roberto sempre pede números na primeira pergunta. Tenha os números antes da pergunta.
— Eu normalmente improviso — respondeu, meio sério, meio rindo.
— Eu sei — ela devolveu, com doçura mínima. — É por isso que eu estou dizendo.
As portas se abriram no sétimo. O andar da presidência sempre tinha cheiro de papel novo e café feito na hora. Ali, ninguém corria; as urgências vestiam salto baixo. Cacau seguiu até sua mesa ao lado da porta do CEO, conferiu a agenda, alinhou pequenas arestas de horários, confirmou com duas mensagens discrete ao jurídico. Luca encostou no balcão, apoiando o cotovelo como quem se sentia em casa em qualquer lugar.
— E se a gente fugisse agora? — disse, baixo, conspirador. — Só você e eu, um café na esquina. Cinco minutos. Eu prometo devolver você inteira e no horário.
A frase entrou na sala como uma brisa morna. Ela sentiu, no corpo, a tentação do riso. Aquela abordagem, tão Luca, já fora ensaiada outras vezes, em variações sutis: “E se”, “só por um minuto”, “pense numa pausa merecida”. São coisas assim que distinguem um flerte vulgar de um flerte bom: a habilidade de parecer um convite e uma piada ao mesmo tempo.
— Cinco minutos? — ela arqueou a sobrancelha, apesar de saber a resposta. — E o relatório do comitê de risco?
— Eu levo. Levo até no colo, se quiser — disse ele, e percebeu o duplo sentido tardio, abrindo as mãos num gesto de rendição. — Ok, isso soou errado. Eu quis dizer que carrego o relatório. O papel. Não… — parou, riu de si mesmo. — Você sabe me entender.
— Pior que eu sei — ela permitiu, tocada pelo ridículo gentil. — Mas eu não fujo de pauta. E você não foge de números. Evidência antes da saliva. Foi o que o seu pai disse na última reunião.
— Meu pai diz muitas coisas que soam melhor na voz dele — Luca suspirou, mas sem peso real. — Tá bom. Sem fuga. Mas guarda essa dívida. Um café, um dia.
— Eu guardo — respondeu, sincera demais no pequeno brilho que escapou do olhar. — Um dia.
Ele saiu com passos leves, como quem aceitou uma derrota que na verdade guardava dentro um plano alternativo. Cacau o acompanhou com os olhos por um segundo a mais do que o profissional permitiria, e depois devolveu a atenção aos e-mails. Não se dava o direito de narrativas internas cor-de-rosa — principalmente ali, onde cada rumor ganhava vida própria em menos de um turno. Aquele jogo entre os dois era tão tênue quanto perigoso. Tinha gosto de açúcar queimado: doce, mas podia amargar.
À tarde, a empresa pulava num compasso mais apressado. Havia um evento de parceiros no auditório, e o hall recebia fornecedores, consultores, jornalistas. Cacau ficou um tempo na recepção supervisionando a credencial de convidados, uma função que ninguém lhe pedira, mas que ela assumia quando sentia o cheiro de confusão. Conferia nomes, checava listas, acolhia egos com um sorriso que não prometia mais do que educação.
Luca apareceu outra vez, agora com paletó, crachá preso à lapela. Parou a uma distância respeitosa e inclinou a cabeça.
— Os deuses do auditório estão nervosos. O microfone resolveu pregar peça — disse, sempre como quem trazia um boletim de humor.
— Eu já mandei o time de TI com equipamento reserva — ela respondeu, digitando no tablet, sem olhar para ele. — E pedi água no palco. Jornalista irritado, microfone mudo e garganta seca é receita para crise.
— Você tem uma planilha até para o apocalipse? — ele perguntou, divertido.
— Tenho. E nela você tem cinco gráficos de performance para apresentar sem improviso — disse, por fim encarando-o —. Confia em mim.
Ele assentiu com uma seriedade rara. E naquele assentir havia um tipo de ordem silenciosa: a de que, sim, apesar do tom leve e do riso fácil, Luca sabia reconhecer terreno firme. O terreno firme era, muitas vezes, o que ela construía à frente dele.
— Confio — disse simples. — Obrigado.
Cacau desviou o rosto um segundo, como quem se esconde de um elogio que pesa mais do que devia. Voltou a si quando percebeu uma fila se formando ao balcão para retirada de crachás. E foi no meio desse movimento que aconteceu: o estalo, o espelho quebrado de um ritual que ela ingenuamente acreditava, em certos momentos raros, que lhes pertencia.
Luca, a dois passos de distância, inclinou-se levemente na direção da nova recepcionista — Paula, jovem, cabelo castanho em ondas, olhos grandes sempre à beira de um entusiasmo — e soltou o mesmo sorriso. Não um sorriso parecido; o mesmo. A artesania da curvatura no canto da boca, o brilho de provocação nos olhos, a pergunta moldada com humor nosso-de-cada-dia:
— E se você me salvar hoje? Um crachá fora de lugar, uma senha perdida, qualquer desculpa para conversar dois minutos. Eu prometo que não demoro mais do que isso.
Paula riu, um riso nervoso e lisonjeado, e respondeu com bochechas coradas; Cacau não ouviu as palavras, apenas captou a textura do som — leve, afoita. Viu a mão dele tocar a bancada com a mesma atitude com que tocara o balcão ao lado da mesa dela pela manhã. Viu o corpo inclinar-se para frente no mesmo ângulo calculado. Viu, sobretudo, sua própria ilusão refletida no rosto de outra.
O incômodo veio como uma fisgada curta, dessas que o corpo tenta ignorar, mas que deixam rastro. Cacau respirou. Ajustou, por hábito, a manga do blazer. E sorriu para a senhora que perguntava onde assinava a lista. Profissionalismo é, às vezes, a arte de não permitir que o coração entre pelos poros.
É um hábito, pensou, com um tanto de amargura embrulhado em lógica. A sedução como linguagem, o flerte como politeísmo — vários altares, o mesmo ritual. E aquela doçura particular quando olhava para ela? Talvez fosse também só a técnica apurada de um homem que aprendeu cedo a escutar com os olhos.
A culpa, sabia, não era dele. Ou não inteira. Ele nunca prometera nada; eram meias-palavras, risos semi-ditos, convites que paravam no limiar. A culpa, se houvesse, era do lugar que o próprio corpo dela escolhia ocupar quando ele se aproximava: um lugar de atenção aumentada, de luz que se acende no escuro. “Não romantize”, repetiu a si mesma, como mantra.
Terminado o movimento do credenciamento, ela recolheu a prancheta e regressou ao elevador. No espelho de metal, conferiu o coque, a maquiagem, o olhar. Havia, na pupila, um pouco menos de brilho. “É só trabalho”, recordou; e esse pensamento, embora seco, lhe devolveu o eixo.
No fim do dia, a luz do pôr-do-sol desenhava um dourado oblíquo sobre as mesas. O auditório esvaziava, os últimos convidados recolhiam seus casacos, e a equipe desmontava banners com a rapidez de quem já tinha fome. Cacau passou pelo corredor dos fundos em direção à copa para pegar um copo d’água. Lá, encontrou Luca sozinho, a gravata solta no bolso, a camisa com um vinco novo no ombro. Ele girava o copo na mão, pensativo. Parecia cansado de um jeito que o humor não disfarçava.
— Parabéns pelos gráficos — ela disse, encostando de leve a porta com o pé. — Conquistou Roberto antes da primeira ironia.
— Milagre de Cacau — ele sorriu sem energia, mas sorrindo. — Obrigado por ter me forçado a preparar.
Ela abriu a geladeira, pegou uma garrafa, serviu para os dois. Quando virou, ele a olhava de um jeito diferente — menos brincadeira, mais bruto, como quem se vê surpreendido por algo que insistiu o dia inteiro em não nomear. Ela reconheceu. Reconhecia quando a música trocava de tom.
— Você ficou chateada comigo — ele disse, direto, mas sem dureza.
— Eu? — ela fez o caminho mais longo: o da pergunta que atrasa a resposta. — Por quê?
— Não sei — ele deu de ombros. — Tive a impressão de que… — parou, escolheu o verbo com o cuidado raro que brindava a pouca autoestima — de que eu exagerei no personagem.
Ela sorriu com gentileza, uma gentileza que era escudo.
— Você é sempre você, Luca. Às vezes mais. Às vezes menos. Não precisa pedir desculpa por ser quem é.
— E se eu quisesse ser outro perto de você? — perguntou, e a pergunta ficou entre eles como uma lâmina de vidro. Frágil, translúcida, cortante.
Cacau sustentou o olhar um instante longo. O corpo, por um momento traidor, inclinou-se por dentro — o coração indo dois passos à frente que as pernas nunca dariam. Mas a resposta veio do continente onde ela construíra a própria segurança: um continente pavimentado de limites.
— “Querer” é um verbo bonito — disse, apoiando o copo na bancada. — Mas você não consegue.
Houve silêncio. Dos bons. Dos honestos. Aqueles que não evitam o que dói, mas também não apressam. Ele bebeu um gole d’água, ela observou a sombra que o vinco da camisa projetava no braço. “Um dia”, ela pensou, recordando a dívida de um café que prometera guardar. “Um dia” parecia, agora, um país distante.
— Então me ensina — ele pediu, de repente, com aquela vulnerabilidade que só aparecia quando o riso cansava. — Me ensina o que fazer para não estragar as coisas com você.
Cacau respirou, surpreendida pela sinceridade. O peito relaxou um milímetro.
— Comece não repetindo comigo o mesmo roteiro que você repete por aí — disse, sem veneno. — Não me prometa fugas de cinco minutos. Me traga números prontos. E, se um dia for me chamar para um café, que seja por mim. Não por esporte.
A frase era uma corda estendida sobre o abismo. Ele olhou para a corda como quem avalia a travessia.
— Está bem — respondeu, sério. — Por você.
Ela recolheu a pasta na cadeira, sem pressa. Quando atravessou a porta, sentiu a respiração voltar ao ritmo natural. “Disse o que precisava”, reconheceu, com a satisfação discreta de quem mantém firme o próprio contorno.
No saguão, as luzes já tinham baixado um tom, o poliéster dos banners faiscava menos. Cacau seguia em direção à saída quando parou, não por vontade, mas por instinto. À direita, junto ao balcão, Luca conversava com Paula, a mesma recepcionista da manhã. A cena era simples: duas pessoas ao fim de um evento. O pior, porém, não estava no que era simples. Estava na repetição quase coreografada.
Ele inclinou a cabeça no mesmo ângulo, disse algo que parecia piada privada, apoiou o cotovelo com o mesmo gesto, passou a mão pelos cabelos e, ao final, fez uma pergunta qualquer que arrancou da garota um riso claro, dessas risadas que as pessoas guardam para quando se sentem vistas. Paula tocou a própria nuca, ajeitou uma mecha, olhou por um segundo para o chão como quem busca apoio para o súbito de timidez. E ele, satisfeito no efeito que provocara, despediu-se erguendo dois dedos como quem jura voltar.
Cacau não era ciumenta; não gostava de admitir que notara o incômodo. Mas havia algo c***l — ainda que involuntário — em reconhecer naquele roteiro uma peça que ela em parte acreditara ser feita à sua medida. “Não é pessoal”, insistiu a si mesma, talvez para se proteger do contrário: “É pessoal demais.” Guardou as chaves na bolsa, arrumou a alça no ombro, treinou um sorriso neutro enquanto cruzava a porta giratória. O vento da noite veio mais frio do que esperava, mas o coração ardia num lugar pequeno, discreto, o suficiente para lembrá-la de que continuava viva.
Na calçada, o reflexo do prédio no vidro da marquise mostrava sua silhueta recortada e, atrás, outra silhueta que ela reconheceria mesmo de olhos fechados. Luca chamou seu nome ao longe, mas ela preferiu não virar. Precisava de uma distância. Precisava se lembrar de quem era sem o brilho dele perto.
— Cacau! — a voz, insistente, aproximou-se. — Espera.
Ela parou. Virou de frente, mas não reduziu os centímetros que os separavam.
— Desculpa se eu… — ele procurou palavras, e pela primeira vez naquele dia não encontrou as mais leves. — Se te fiz pensar coisas. Eu sou um i****a às vezes.
— Às vezes — ela concordou, sem crueldade. — E outras vezes você é brilhante. Mas nada disso importa agora. É tarde. E amanhã cedo a empresa volta a acontecer.
— É — assentiu. — A gente… — calou. A frase vinha pedindo futuro, mas o verbo não tinha licença para atravessar. — Boa noite.
— Boa noite, Luca.
Ela seguiu pela calçada, os passos medidos, o salto mordendo o concreto com elegância. Ele ficou, mãos nos bolsos, a observá-la por um instante a mais do que o exato, como quem acompanha um cometa: sabe que não é sua, mas não consegue não olhar. Quando voltou para dentro, cruzou novamente com Paula, que se despedia dos colegas. Luca sorriu — um sorriso menor, mais consciente de si. E, pela primeira vez naquele dia, não disse nada.
No quarto, mais tarde, Cacau soltou o cabelo, esfregou as têmporas com a ponta dos dedos e apoiou o queixo no joelho, sentada na cama. À sua volta, o apartamento arrumado da forma como gostava: pouco, preciso, lindo no suficiente. A cidade murmurava do lado de fora, carros cortando a madrugada sem pressa. Ela revisitou mentalmente a sequência do dia: as portas que se abriam, os reflexos, os rituais, o copo d’água na copa. Revisitou o momento em que, por um segundo, acreditou que ele poderia ser “outro” perto dela — e o momento em que percebeu que talvez não. Era um homem treinado em hiperatenção, em acolher com frases fáceis e olhos gentis. E ela, uma mulher treinada em sobreviver ao encanto.
Pegou o celular, abriu a agenda do dia seguinte, listou de memória os pontos da pauta, digitou uma mensagem para a equipe de comunicação sobre o tom do post pós-evento. A vida se tornava simples quando transformada em tarefas. Não porque doía menos, mas porque ocupava as mãos.
Por fim, antes de deitar, se olhou no espelho do corredor. Encarou sem pressa a mulher que era: harmonia de força e contenção, beleza que não pedia licença, orgulho que a protegia da facilidade. Deu a si mesma um sorriso curto, meio cansado, meio vitorioso.
Deitou. Apagou o abajur. O escuro não a assustava; sempre gostou do silêncio cheio de pensamentos. E, naquele silêncio, sem querer, imaginou — duas mãos no papel, uma xícara de porcelana clara, o barulho pequeno de colher batendo na borda: um café. Não a fuga apressada de cinco minutos, mas um encontro com hora marcada, com assunto que vale a pena, com o Luca que ela poderia enxergar além do polimento, sem a plateia dos corredores. Um dia, prometeu a si mesma, e a promessa soou menos ingênua do que parecia: era, de certo modo, uma fronteira.
Do outro lado da cidade, Luca também rolava sobre o colchão, incapaz de encontrar o lugar mais frio do travesseiro. Lembrou da frase que ela dissera — “me chama por mim, não por esporte” — e sentiu o peso doce da bronca. Pisou, com cuidado, no território interno que raramente visitava: aquele onde o charme não explica tudo. Aprende, pediu a si mesmo, olhos no teto. Aprende a ser outro onde importa.
A noite, benevolente, guardou os dois no mesmo mapa. Em algum ponto entre o elevador e o espelho, entre a copa e a porta giratória, havia nascido algo que ainda não tinha nome. E, ao longe, como um trovão que demora a chegar, a empresa preparava o dia em que os corredores deixariam de ser palco de flertes para se tornarem cenário de sobrevivência. Mas isso — a explosão, a fumaça, o grito, o corte — viria depois. Por enquanto, havia o fio fino da expectativa. E a lembrança precisa do que se pretende proteger.