A manhã amanheceu com uma luz nova, daquelas que parecem anunciar o fim de um ciclo.
O som das rodinhas de um carrinho de medicação deslizando pelo corredor antecedeu a voz calma do médico que empurrou a porta do quarto. Luca estava sentado, meio inclinado, o olhar preso à janela.
Era a primeira vez, em dias, que parecia de fato desperto.
— Bom dia, Bianchi — disse o médico, folheando a prancheta. — Tenho boas notícias. Seus exames estão ótimos. A recuperação tem sido impressionante.
Luca arqueou uma sobrancelha, desconfiado. — Então quer dizer que posso escapar daqui?
O médico sorriu, já acostumado à impaciência de quem se recupera rápido demais. — Vai receber alta ainda hoje. Mas quero uma semana de repouso em casa, sem esforço, sem aventuras e, principalmente, sem trabalho.
— É pedir demais — murmurou ele.
— É pedir o mínimo pra quem quase teve um traumatismo — rebateu o médico, com bom humor. — Não transforme sorte em teimosia, combinado?
Cacau, que estava parada perto da janela, não conseguiu conter o sorriso.
— Eu juro que vou tentar supervisionar isso à distância.
O médico riu. — Espero que sim. Ele precisa de alguém que o mantenha no eixo.
— É por isso que ela tá sempre por perto — respondeu Luca, olhando para Cacau por tempo demais para ser apenas brincadeira.
O médico despediu-se, deixando um rastro de otimismo. Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a preencher o quarto.
Cacau ajeitou alguns papéis na mesa, apenas para disfarçar o aperto que sentia no peito.
— Então é hoje… — disse ela, sem olhar pra ele. — Enfim livre do hospital.
— E sem minha carcereira preferida — respondeu ele, com um sorriso enviesado.
Ela riu, mas os olhos marejaram discretamente. — Vai ser estranho não te ver reclamando do café nem me pedindo relatório no meio da madrugada.
— E vai ser estranho não ter alguém pra me chamar de teimoso cinco vezes por dia.
O riso deles se dissolveu num silêncio doce, mas cheio de peso.
Cacau sabia que a função dela ao lado dele — cuidar, vigiar, proteger — terminava ali.
Ele sabia que perderia a rotina em que o olhar dela era a primeira coisa que via todas as manhãs.
A porta se abriu, e Antonella entrou com o perfume de casa boa e a elegância natural de sempre. Atrás dela, Giovanna segurava uma sacola com roupas dobradas e um sorriso discreto.
— Nosso paciente parece outro — disse Antonella, indo até o filho e tocando-lhe o rosto. — Graças a Deus.
— Acho que a fé da senhora teve um papel nisso — respondeu ele, beijando-lhe a mão.
— E a paciência da Cacau também — completou Giovanna, piscando para ela. — Eu não teria sobrevivido à teimosia dele.
Cacau riu, tímida. — Eu quase não sobrevivi.
Antonella se aproximou dela, tocando-lhe o braço com ternura. — Obrigada, minha querida. Por ter ficado.
Cacau sorriu, sem saber o que responder.
Ajudou Antonella a organizar os pertences de Luca, fingindo que aquele era apenas mais um dia de trabalho.
Mas, ao se despedir, o coração dela pesou.
— Acho que é minha deixa — disse, tentando soar leve. — Agora ele está em boas mãos.
Giovanna a abraçou. — Você foi essencial.
Antonella repetiu o gesto, sincera. — Agradeço como mãe.
E então Cacau se virou para ele.
Luca ainda estava sentado, observando cada movimento como quem tenta memorizar tudo.
Ela hesitou antes de dizer: — Se precisar de qualquer coisa…
— Eu sei. — Ele sorriu, aquele sorriso calmo que sempre desarmava as defesas dela. — Você aparece, como sempre faz.
Ela assentiu.
E saiu.
Luca a acompanhou com o olhar até a porta se fechar.
O som do salto dela desaparecendo no corredor do hospital foi a primeira ausência que doeu.
O estacionamento do hospital brilhava sob o sol das nove.
O carro da família Bianchi esperava próximo à entrada principal.
Giancarlo já conversava com o médico, resolvendo os últimos detalhes da alta. Antonella e Giovanna cuidavam das malas. Mateo, que voltara de uma noite longa e sem descanso, observava o irmão com um alívio difícil de esconder.
— Finalmente livre, hein? — disse, abrindo um sorriso cansado.
Luca o abraçou com força. — Livre e mais teimoso do que nunca.
A família trocou olhares cúmplices.
Era como se aquele breve momento de normalidade fosse um milagre.
No entanto, entre os sorrisos e abraços, havia um vazio que Luca não conseguiu disfarçar.
Olhou em volta, procurando sem admitir: queria vê-la ali, Cacau, de braços cruzados e olhar firme, supervisionando tudo como fazia sempre.
Mas ela já tinha ido. E, de repente, aquele dia tão esperado lhe pareceu mais silencioso do que devia.
A The Guardian estava diferente.
As luzes do hall pareciam mais frias, os passos mais contidos, os cumprimentos mais tensos.
A empresa sobrevivera à explosão e à crise, mas ainda carregava cicatrizes — e Luca também.
Quando chegou à sede com Giovanna e Mateo, foi recebido com aplausos discretos.
Abraços, sorrisos contidos, palavras de boas-vindas.
Mas nada o preparou para o que sentiu quando a viu entrar.
Cacau apareceu no final do corredor, segurando uma pasta e tentando parecer distraída.
Usava um tailleur simples, mas o olhar denunciava emoção.
Ao vê-lo de pé, caminhando ainda com leve hesitação, ela não resistiu: atravessou o hall e o abraçou.
— Achei que só voltaria semana que vem — disse, a voz trêmula.
— E eu achei que ia enlouquecer deitado naquela cama.
O abraço durou mais que o necessário, mas ninguém comentou.
Giovanna desviou o olhar e fingiu interesse em um relatório sobre investimentos, com um meio sorriso.
— Eu fiquei com tanto medo… — sussurrou Cacau, recuando um passo, mas ainda perto demais.
— Eu sei. — Luca sorriu, cansado. — E o que me manteve firme foi saber que você estaria aqui quando eu voltasse.
Cacau piscou, engolindo o choro. — Promete que vai cuidar de você?
— Só se você prometer o mesmo.
— Fechado. — respondeu ela, tentando disfarçar o sorriso com uma seriedade profissional.
Giovanna se aproximou, colocando a mão no ombro do irmão.
— O Conselho quer te ver amanhã cedo.
— Amanhã? — ele arqueou a sobrancelha. — O médico disse repouso.
— Pois é — disse ela, com ironia. — Boa sorte explicando isso pra ele.
Todos riram. Mas o riso era apenas uma ponte para o inevitável.
Cacau sabia que aquele seria o último dia em que ficariam tanto tempo juntos.
O fim do expediente chegou devagar, com o peso de quem não queria ir embora.
Cacau terminou de organizar relatórios e fechou o computador. O reflexo da tela apagando revelou o próprio rosto cansado, e só então ela percebeu que não estava pronta para voltar pra casa.
Fazia semanas que sua rotina se resumia ao hospital: o bip do monitor, o cheiro de antisséptico, o som da voz dele chamando seu nome.
Agora, o silêncio da sala parecia gritante.
Quando entrou no apartamento, o contraste foi quase doloroso.
O ar parado, o sofá perfeitamente alinhado, o abajur apagado. Tudo igual — e completamente diferente.
Largou a bolsa, tirou os sapatos e ficou parada no meio da sala, olhando em volta.
Era estranho voltar a ter espaço demais.
Abriu a janela. O ar fresco entrou, mas não bastou para preencher o vazio.
Fez café — mais por costume do que por vontade.
E quando o aroma tomou o ambiente, veio a lembrança dele pedindo o mesmo café, com o mesmo sorriso de sempre, dizendo que o dela era o único que “não tinha gosto de hospital”.
Cacau riu sozinha, e logo depois chorou.
Não era tristeza pura. Era falta.
A falta de uma presença que não admitia chamar de amor, mas que pesava como se fosse.
Sentou-se no sofá e deixou o tempo passar sem perceber.
A xícara esfriou nas mãos.
O celular, sobre a mesa, vibrou.
Na mansão Bianchi, a noite caiu leve.
O quarto de Luca estava iluminado apenas pelo abajur.
Sobre a mesa, uma pilha de relatórios e o notebook aberto, que ele fingia revisar.
Na verdade, o olhar se perdia no mesmo parágrafo há quase dez minutos.
A casa estava cheia — mas ele se sentia sozinho.
Giovanna passou pela porta e encostou o ombro no batente.
— Posso apostar que você não tá trabalhando de verdade.
Luca sorriu. — Só fingindo.
Ela entrou, sentando-se na poltrona. — Sabe que a Cacau voltou pra casa hoje, né?
— Eu sei. — Ele fechou o notebook, sem olhar pra ela. — E o silêncio daqui ficou igual ao de lá.
Giovanna arqueou uma sobrancelha. — Engraçado, né? Como às vezes o que falta pesa mais do que o que dói.
Ele riu sem graça. — Vai começar com filosofia agora?
— Tô só dizendo. — Ela se levantou. — Se sentir falta, liga.
— Não posso.
— Pode sim. Só não quer admitir.
Giovanna saiu, deixando-o com o eco das próprias palavras.
Luca ficou olhando o celular na mesa por longos minutos.
Digitou. Apagou. Digitou de novo. Apagou.
Até que finalmente escreveu:
Obrigado. Por tudo.
Cacau estava deitada no sofá, o notebook aberto em algum noticiário mudo, quando o celular vibrou de novo.
O nome dele na tela fez o coração dela disparar.
Leu a mensagem uma, duas vezes.
Sorriu.