Capítulo 8 – Entre Ficar e Seguir

1568 Palavras
A manhã amanheceu com uma luz nova, daquelas que parecem anunciar o fim de um ciclo. O som das rodinhas de um carrinho de medicação deslizando pelo corredor antecedeu a voz calma do médico que empurrou a porta do quarto. Luca estava sentado, meio inclinado, o olhar preso à janela. Era a primeira vez, em dias, que parecia de fato desperto. — Bom dia, Bianchi — disse o médico, folheando a prancheta. — Tenho boas notícias. Seus exames estão ótimos. A recuperação tem sido impressionante. Luca arqueou uma sobrancelha, desconfiado. — Então quer dizer que posso escapar daqui? O médico sorriu, já acostumado à impaciência de quem se recupera rápido demais. — Vai receber alta ainda hoje. Mas quero uma semana de repouso em casa, sem esforço, sem aventuras e, principalmente, sem trabalho. — É pedir demais — murmurou ele. — É pedir o mínimo pra quem quase teve um traumatismo — rebateu o médico, com bom humor. — Não transforme sorte em teimosia, combinado? Cacau, que estava parada perto da janela, não conseguiu conter o sorriso. — Eu juro que vou tentar supervisionar isso à distância. O médico riu. — Espero que sim. Ele precisa de alguém que o mantenha no eixo. — É por isso que ela tá sempre por perto — respondeu Luca, olhando para Cacau por tempo demais para ser apenas brincadeira. O médico despediu-se, deixando um rastro de otimismo. Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a preencher o quarto. Cacau ajeitou alguns papéis na mesa, apenas para disfarçar o aperto que sentia no peito. — Então é hoje… — disse ela, sem olhar pra ele. — Enfim livre do hospital. — E sem minha carcereira preferida — respondeu ele, com um sorriso enviesado. Ela riu, mas os olhos marejaram discretamente. — Vai ser estranho não te ver reclamando do café nem me pedindo relatório no meio da madrugada. — E vai ser estranho não ter alguém pra me chamar de teimoso cinco vezes por dia. O riso deles se dissolveu num silêncio doce, mas cheio de peso. Cacau sabia que a função dela ao lado dele — cuidar, vigiar, proteger — terminava ali. Ele sabia que perderia a rotina em que o olhar dela era a primeira coisa que via todas as manhãs. A porta se abriu, e Antonella entrou com o perfume de casa boa e a elegância natural de sempre. Atrás dela, Giovanna segurava uma sacola com roupas dobradas e um sorriso discreto. — Nosso paciente parece outro — disse Antonella, indo até o filho e tocando-lhe o rosto. — Graças a Deus. — Acho que a fé da senhora teve um papel nisso — respondeu ele, beijando-lhe a mão. — E a paciência da Cacau também — completou Giovanna, piscando para ela. — Eu não teria sobrevivido à teimosia dele. Cacau riu, tímida. — Eu quase não sobrevivi. Antonella se aproximou dela, tocando-lhe o braço com ternura. — Obrigada, minha querida. Por ter ficado. Cacau sorriu, sem saber o que responder. Ajudou Antonella a organizar os pertences de Luca, fingindo que aquele era apenas mais um dia de trabalho. Mas, ao se despedir, o coração dela pesou. — Acho que é minha deixa — disse, tentando soar leve. — Agora ele está em boas mãos. Giovanna a abraçou. — Você foi essencial. Antonella repetiu o gesto, sincera. — Agradeço como mãe. E então Cacau se virou para ele. Luca ainda estava sentado, observando cada movimento como quem tenta memorizar tudo. Ela hesitou antes de dizer: — Se precisar de qualquer coisa… — Eu sei. — Ele sorriu, aquele sorriso calmo que sempre desarmava as defesas dela. — Você aparece, como sempre faz. Ela assentiu. E saiu. Luca a acompanhou com o olhar até a porta se fechar. O som do salto dela desaparecendo no corredor do hospital foi a primeira ausência que doeu. O estacionamento do hospital brilhava sob o sol das nove. O carro da família Bianchi esperava próximo à entrada principal. Giancarlo já conversava com o médico, resolvendo os últimos detalhes da alta. Antonella e Giovanna cuidavam das malas. Mateo, que voltara de uma noite longa e sem descanso, observava o irmão com um alívio difícil de esconder. — Finalmente livre, hein? — disse, abrindo um sorriso cansado. Luca o abraçou com força. — Livre e mais teimoso do que nunca. A família trocou olhares cúmplices. Era como se aquele breve momento de normalidade fosse um milagre. No entanto, entre os sorrisos e abraços, havia um vazio que Luca não conseguiu disfarçar. Olhou em volta, procurando sem admitir: queria vê-la ali, Cacau, de braços cruzados e olhar firme, supervisionando tudo como fazia sempre. Mas ela já tinha ido. E, de repente, aquele dia tão esperado lhe pareceu mais silencioso do que devia. A The Guardian estava diferente. As luzes do hall pareciam mais frias, os passos mais contidos, os cumprimentos mais tensos. A empresa sobrevivera à explosão e à crise, mas ainda carregava cicatrizes — e Luca também. Quando chegou à sede com Giovanna e Mateo, foi recebido com aplausos discretos. Abraços, sorrisos contidos, palavras de boas-vindas. Mas nada o preparou para o que sentiu quando a viu entrar. Cacau apareceu no final do corredor, segurando uma pasta e tentando parecer distraída. Usava um tailleur simples, mas o olhar denunciava emoção. Ao vê-lo de pé, caminhando ainda com leve hesitação, ela não resistiu: atravessou o hall e o abraçou. — Achei que só voltaria semana que vem — disse, a voz trêmula. — E eu achei que ia enlouquecer deitado naquela cama. O abraço durou mais que o necessário, mas ninguém comentou. Giovanna desviou o olhar e fingiu interesse em um relatório sobre investimentos, com um meio sorriso. — Eu fiquei com tanto medo… — sussurrou Cacau, recuando um passo, mas ainda perto demais. — Eu sei. — Luca sorriu, cansado. — E o que me manteve firme foi saber que você estaria aqui quando eu voltasse. Cacau piscou, engolindo o choro. — Promete que vai cuidar de você? — Só se você prometer o mesmo. — Fechado. — respondeu ela, tentando disfarçar o sorriso com uma seriedade profissional. Giovanna se aproximou, colocando a mão no ombro do irmão. — O Conselho quer te ver amanhã cedo. — Amanhã? — ele arqueou a sobrancelha. — O médico disse repouso. — Pois é — disse ela, com ironia. — Boa sorte explicando isso pra ele. Todos riram. Mas o riso era apenas uma ponte para o inevitável. Cacau sabia que aquele seria o último dia em que ficariam tanto tempo juntos. O fim do expediente chegou devagar, com o peso de quem não queria ir embora. Cacau terminou de organizar relatórios e fechou o computador. O reflexo da tela apagando revelou o próprio rosto cansado, e só então ela percebeu que não estava pronta para voltar pra casa. Fazia semanas que sua rotina se resumia ao hospital: o bip do monitor, o cheiro de antisséptico, o som da voz dele chamando seu nome. Agora, o silêncio da sala parecia gritante. Quando entrou no apartamento, o contraste foi quase doloroso. O ar parado, o sofá perfeitamente alinhado, o abajur apagado. Tudo igual — e completamente diferente. Largou a bolsa, tirou os sapatos e ficou parada no meio da sala, olhando em volta. Era estranho voltar a ter espaço demais. Abriu a janela. O ar fresco entrou, mas não bastou para preencher o vazio. Fez café — mais por costume do que por vontade. E quando o aroma tomou o ambiente, veio a lembrança dele pedindo o mesmo café, com o mesmo sorriso de sempre, dizendo que o dela era o único que “não tinha gosto de hospital”. Cacau riu sozinha, e logo depois chorou. Não era tristeza pura. Era falta. A falta de uma presença que não admitia chamar de amor, mas que pesava como se fosse. Sentou-se no sofá e deixou o tempo passar sem perceber. A xícara esfriou nas mãos. O celular, sobre a mesa, vibrou. Na mansão Bianchi, a noite caiu leve. O quarto de Luca estava iluminado apenas pelo abajur. Sobre a mesa, uma pilha de relatórios e o notebook aberto, que ele fingia revisar. Na verdade, o olhar se perdia no mesmo parágrafo há quase dez minutos. A casa estava cheia — mas ele se sentia sozinho. Giovanna passou pela porta e encostou o ombro no batente. — Posso apostar que você não tá trabalhando de verdade. Luca sorriu. — Só fingindo. Ela entrou, sentando-se na poltrona. — Sabe que a Cacau voltou pra casa hoje, né? — Eu sei. — Ele fechou o notebook, sem olhar pra ela. — E o silêncio daqui ficou igual ao de lá. Giovanna arqueou uma sobrancelha. — Engraçado, né? Como às vezes o que falta pesa mais do que o que dói. Ele riu sem graça. — Vai começar com filosofia agora? — Tô só dizendo. — Ela se levantou. — Se sentir falta, liga. — Não posso. — Pode sim. Só não quer admitir. Giovanna saiu, deixando-o com o eco das próprias palavras. Luca ficou olhando o celular na mesa por longos minutos. Digitou. Apagou. Digitou de novo. Apagou. Até que finalmente escreveu: Obrigado. Por tudo. Cacau estava deitada no sofá, o notebook aberto em algum noticiário mudo, quando o celular vibrou de novo. O nome dele na tela fez o coração dela disparar. Leu a mensagem uma, duas vezes. Sorriu.
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