Jooheon estava assustado.
Olhava para o outro lado dos muros, para as muitas dezenas de soldados e só conseguia ver o pior vindo dali, e ele não queria aquilo. Hyunwoo lhe prometera uma chance para evitar tudo, todavia, era mais do que claro que o alfa não confiava nele. Eles estavam indo para uma batalha, era nítido.
— Venha, vamos partir. — o alfa passou por ele, carregava uma expressão que Jooheon não estava acostumado a ver — O que houve?
— Você prometeu que daria uma chance a ela.
— E eu darei.
O ômega olhou em volta, não era o que parecia.
— Não, você não acredita que ela vai se entregar. — soltou o que há muito tempo queria dizer — Está indo batalhar, meu marido, do contrário não usaria uma couraça e nem uma espada tão longa e pesada.
Hyunwoo não gostava daquela expressão de medo, porém era necessário. Jooheon iria conhecer um lado do mundo ao qual nunca fora preparado, o lado onde os alfas matam uns aos outros, mesmo se tratando de batalhas que não lhe pertenciam diretamente. Além disso, o ômega não sabia de fato quem sua appa era, pelo menos, não por completo, sempre preferira não dar ouvidos ao que diziam pelas ruas da cidade.
— Tem razão, não acredito que ela vá se entregar. — usou p************s, uma expressão fechada — Sendo assim, é melhor que não vá.
— Eu irei.
O alfa nada disse, deu-lhe as costas e seguiu caminho para as escadarias da Fortaleza. Jooheon o seguia com uma expressão decidida, e independente do rumo das coisas, ele não iria dar uma de fraco e chorar, permaneceria firme como um Wu deveria ser.
Já montava sozinho, não tinha mais medo do animal. Estava trajado para uma viagem de vários dias, quase irreconhecível aos seus trajes costumeiros, todavia estar assim lhe dava uma sensação de ser o seu “ideal”. Ia com Hyunwoo bem à frente da cavalaria composta por pouco mais de 200 soldados. Em comparação com o numero de soldados de Templos, eles pareciam em desvantagem, mas o ômega sabia que se tratando de Wu Hyunwoo, ele sequer precisava de um exército.
Hyunwoo, forte como mil.
[... Herança dos Alfas ...]
Enquanto subia e descia, Taekwoon sentia o contato do corpo quente de Hongbin logo abaixo do seu. O beta se perguntava o momento exato em que havia cedido e não recordava-se mais dele. Porém estava ali, estava a sentir todo aquele calor e entregava-se novamente aos toques e caprichos do príncipe herdeiro. Preferia não se importar com o que ele próprio havia dito, assim aproveitaria melhor o momento.
E que momento!
— Eu enlouqueceria se não pudesse tê-lo novamente. — o Kim lhe sussurrava — Arranharia as paredes e rasgaria minha própria pele com as unhas.
O beta riu.
— Seria c***l demais da minha parte. — fingiu-se de bom, mas o sorriso no rosto dizia outra coisa — Todavia, fico curioso para ver como a cidade ficaria sendo governada por um rei louco.
— Acho que seria um espetáculo e tanto.
O alfa meneou a cabeça para trás, os movimentos de Taekwoon eram lentos e assustadoramente prazerosos, não se importava em humilhar-se ou arrastar-se pelas ruas, desde que no fim pudesse sentir aquilo, algo que só o Jung conseguia lhe dar.
E naquela noite ele não resistiu, sua semente ficou dentro do beta, e já não se importava mais com aquilo, não conseguia pensar em nenhum outro para lhe dar filhos além dele. Não sabia por quanto tempo aquele desejo absurdo duraria, todavia o aproveitaria até o último segundo, prenderia Taekwoon dentro daquele quarto se isso não fosse uma atitude tão sádica.
— Quero me casar com você.
As palavras do alfa fizeram a expressão de Taekwoon se fechar, o beta saiu de sobre seu corpo e deixou a cama, enrolando em um dos lençóis azuis de seda.
— Que eu saiba, você já tem um compromisso. — o Jung parou ao lado da janela, os muros eram muito distantes dali, lhe traziam uma sensação estranha — Um prometido, não é?
— Posso desfazer esse compromisso para ficar com você.
Mas Taekwoon não gostou daquelas palavras. Para Hongbin, tudo soava como algo normal, mas não era. O beta se colocava no lugar do outro beta ou ômega que havia sido prometido ao príncipe, alguém que por muitos anos, quiçá pela vida toda, preparou-se para aquele casamento, e que agora poderia ser facilmente trocado como algo velho que havia quebrado.
Não era justo e nem bonito.
— Vocês alfas pensam de um jeito muito errado. — agora ele vestia-se, queria sair logo dali — Honre com seus compromissos, majestade, não me interessa ser um substituto para alguém que não o apetece.
— A última vez que eu o vi ele era praticamente uma criança.
— Então tenho mais um motivo. — o Jung parecia estar com raiva, finalmente recordara-se dos motivos que o faziam querer evitar o Kim — Seu prometido reaparecerá formado e atraente, o desejará e eu serei jogado fora como um brinquedo desgastado.
Hongbin inquietou-se, havia errado novamente.
— Eu não faria isso.
— É exatamente o que está tentando fazer com ele agora, majestade. — o príncipe podia ver isso, Taekwoon esquecia seu nome quando zangava-se — O trocou por alguém cuja única coisa que sente é desejo, e eu não posso correr o risco de me prender a alguém que me enxerga apenas como um buraco para meter o p*u.
O alfa ficou sem respostas, tudo o que conseguiu fazer foi observar Taekwoon vestir-se e por fim sair do quarto batendo a enorme porta, cometera mais um erro grave, e aquele parecia ter sido o pior deles.
Se expressava m*l, dizia coisas no momento mais inoportuno e esse era seu maior defeito. Sentia vontade de ser seu irmão agora, alguém com obrigações menores, alguém livre para escolher com quem se casar e constituir família. Seu irmão sabia usar as palavras, sabia pensar.
Coisa que Hongbin nunca fora muito bom.
— Esbarrei em seu beta no corredor, ele parecia com raiva. — havia um ditado na terra dos Leões que dizia “não pense em demônios, pois eles aparecem, Yuvin estava parado na porta, havia uma expressão curiosa e ao mesmo tempo debochada em seu rosto — O que você fez?
O príncipe herdeiro suspirou.
— Quero me casar com ele, mas ele não quer. — parecia surreal dizer isso — Diz que devo honrar meus compromissos, me casar com quem fui prometido.
E Yuvin concordava, por mais que essa já não fosse a vontade do futuro, aquele compromisso não podia ser simplesmente ignorado.
— Ele não quer ferir os sentimentos do seu noivo, sabe que existe outro alguém entre vocês dois e não quer que ele saia machucado, é uma atitude nobre, ele seria um rei melhor que você. — o mais novo nunca fora alguém de amenizar as coisas, especialmente quando se tratava de seu irmão — É mais sensato que você.
Já ouvira isso outras vezes.
— Estou começando a achar que sua atividade favorita é disparar farpas em mim. — dissera, mas estava brincando — Aposto que tem um plano maligno para me destronar futuramente.
— Se eu quisesse ser rei, você não me impediria, irmão.
Isso também era verdade, era mais do que claro que quase todo o Conselho apoiaria Yuvin caso o mesmo reivindicasse o trono acusando seu irmão mais velho de ser incapaz de governar, era capaz de no fim das contas o próprio Hongbin o apoiar nisso.
— Me ajude, irmão, o que faço para ficar com Taekwoon?
O mais novo revirou os olhos, sabia bem onde aquela história iria parar, Hongbin sempre foi o tipo de pessoa que permanece com a mesma ideia na cabeça até que aconteça ou que se torne um problema. E em vista das circunstancias, acabaria se tornando um problema um dia ou outro. Yuvin fechou a porta, era melhor que aquela conversa tivesse poucos ouvidos.
Não havia muito o que ser feito, além disso, tinham pouco tempo para pensar, a família de seu prometido chegaria em no máximo três dias para a oficialização do noivado.
— Há muitos empecilhos, se desfizer seu compromisso com Kookheon vai acabar gerando uma briga enorme entre nossas famílias, além disso, Taekwoon não vai aceita-lo. — era complicado pensar a tão curto prazo — Sua única chance, ainda que turva, é que ele desista de se casar com você, sendo beta, serão mais compreensivos com ele.
— E como se convence alguém a desistir de ser Rei?
— Uma paixão avassaladora.
O mais velho riu, Yuvin falava como se aquilo fosse muito fácil. Mas um estalo houve na cabeça do futuro Rei, olhou para seu irmão de maneira muito sugestiva, só havia alguém capaz de fazer nascer uma paixão rápido assim, e por sorte esse alguém estava muito perto.
— Não me olhe assim.
— Faça isso por mim, irmão, estou te implorando. — Hongbin se ajoelharia se fosse preciso — Já o vi encantar ladys e lordes e dormir com eles na noite que os conheceu, ainda recebe cartas da maioria deles, sei que pode convencer Kookheon a me trocar rapidinho.
— Não.
— Seria um escândalo.
— Vai haver um escândalo de um jeito outro de outro. — a essa hora, o mais velho usaria todos os argumentos que lhe servissem — Podemos amenizar, fazemos uma troca, você no meu lugar.
— E se eu estiver apaixonado por alguém?
— Está?
Não, não estava, mas Yuvin não cederia aos caprichos do irmão de forma tão fácil, não antes de avaliar todos os caminhos e os prováveis problemas que cairiam sobre ele. Além disso, precisava ver como Kookheon estava agora e ter certeza de que valeria a pena correr aquele risco.
Afinal, em partes algo ali precisava ser bom para ele também.
[... Herança dos Alfas ...]
Hoseok estranhava a festa repentina, não havia motivo para que ela ocorresse e sempre que perguntava a alguém, tudo o que lhe diziam era que não precisavam de um motivo, que apenas queria festejar e já bastava. Mas o ômega sabia que havia algo muito errado ali, eles estavam escondendo algo, as pessoas ficavam nervosas sempre que chegava perto, até mesmo Mill, um dos poucos a quem era próximo.
— Está grávido? — chutava alguns motivos, mas não chegava nem perto.
— Queria estar, mas não. — o ômega mais baixo estava ansioso para ter um bebê, todavia ainda era muito jovem, não tinha motivos para ficar preocupado — É apenas uma festa, Hoseok, o senhor Jeonghan e Junji querem beber e possivelmente colocar a vista em risco, e sendo casados fica um pouco difícil fazer isso sem gerar uma briga, a festa é quase uma desculpa para praticar tais atos.
— Se é apenas isso, por que tenho que me arrumar?
— Não foi você mesmo que quis isso?
Era verdade, os últimos dias haviam sido turbulentos para o Kim, muitas coisas se passavam por sua cabeça, especialmente as p************s de seus pais, era doloroso saber que eles estavam certos. Perdeu o apetite, perdeu a energia, por hora tudo o que o ômega fazia era ficar em casa e observar a vida através das janelas das torres altas. Perdeu muito peso, além disso, estava pálido.
— Sim, mas... eu não sei.
— Como se sente agora que se veste como ômega?
— Não sinto nada. — era sua realidade — Mas quando me visto como alfa já não faz mais nenhuma diferença, acho que permaneci como estava por costume, antes eu me achava especial, achava que estava lutando pela minha liberdade, agora percebo que fui um i****a.
— Um i****a?
— Não percebe, Mill? — era algo que o próprio Hoseok se dera conta há pouco tempo — Eu sempre fui livre, e não tinha nada a ver com a forma que me vestia ou me comportava, meus pais sempre me deram toda a liberdade que eu quisesse e minhas birras só serviam para machucá-los e deixá-los preocupados, eu sou um ômega e nada do que eu faça mudará isso.
— Você não gosta de ser ômega?
— Eu achava que sendo ômega eu seria preso como os outros, amava minha casta, mas tinha medo das coisas que ela poderia me proporcionar, por isso eu fugia. Mas eu nunca precisei fugir, estou cansado de ser uma piada e uma vergonha para minha família, a vida inteira eu só fui um m*l educado e grosseiro, afastei as pessoas de mim.
Mas nunca afastou Mill, seu cunhado era seu único verdadeiro amigo. O mais baixo o abraçou e juntos os dois desceram para o Grande Salão, onde os festejos aconteciam.
Tinha muita gente ali, o suficiente para perder a conta, mas a maioria com rostos familiares, alguns parentes, amigos da família e construtores de barcos, pessoas daquele convívio e mais um ou outro que os acompanhara naquele evento. Todavia, seus olhos não se demoraram a ver alguém a mais na mesa principal, este sentado entre seu pai e seu avô, bebendo com eles como se fossem iguais.
Estranhou, por mais que tentasse mudar, seu hábito de ir contra Hyungwon acabava falando mais alto, seu sangue ferveu.
— Diga-me, Mill, diga-me de uma vez por todas o que acontece aqui.
— Vamos para nosso lugar, eles já irão anunciar.
Mill só precisava o segurar um pouco mais.
Foi difícil, Hoseok estava inquieto, e se não fosse a presença de seu appa ali já teria feito um escândalo, manter-se calma era muito mais difícil do que ele imaginava. E já pelas tantas, quando o salão estava completamente lotado, viu seu avô ficar de pé e chamar a atenção dos demais, a banda parou e todos olharam para o mais velho.
— Hoje é um dia muito feliz! — ele dizia, já havia bebido um pouco além do que um homem velho podia se dar ao luxo de beber e continuar são — Vejam! — balançava um papel, este nitidamente tinha um selo real nele — Meu filho, Hyungwon, agora é meu filho, filho mesmo! — enrolava nas palavras, balançava um pouco — O rei assinou o documento, Hyungwon é oficialmente Choi Hyungwon agora, meu filho e principal herdeiro!
As coisas se passaram de uma maneira diferente aos olhos de Hoseok, ele podia ver as canecas se erguendo, ouvia as pessoas gritando, batendo palmas, mas tudo bem devagar, arrastando-se. Quando viu o Chae ali, imaginou se tratar de qualquer coisa, mas de todas aquela parecia ser a pior opção.
Não.
— Não! — acabou deixando escapar — Isso não...
— Hoseok, por favor, não faça um escândalo, eu imploro.
Apertou forte os punhos, sentia as unhas perfurando a palma da mão, precisou de muito para conseguir se conter. Aquela festa de pouco lhe serviu, a musica parecia estranha e as pessoas mais ainda. Ele estava confuso, dividia-se entre o que deveria ou não sentir. Estava com raiva por terem lhe escondido aquilo por tanto tempo, então era isso que estavam fazendo? Se organizavam para meter Hyungwon naquela família sem que ele pudesse fazer algo para impedir.
Não era justo, não podiam tê-lo enganado.
Mas faria diferença saber ou não?
Estava confuso demais e a musica alta não o deixava pensar direito, usou a desculpa de estar sentindo muito calor para sair dali sem que Mill o seguisse. Mas só arrumou outro problema, pois ao distanciar um pouco, percebeu que não era seu cunhado quem o seguia, e sim Hyungwon.
O alfa agora estava a poucos centímetros, olhando de perto a sua fuga.
— Sinto muito decepcioná-lo. — disse-o — Sei que esperava que essa fosse nossa festa de noivado.
O ômega riu, era mais um riso de pura aflição.
— Encontre seu lugar, alfa, não sou para o seu bico.
Mas aquelas palavras não feriam mais, agora Hyungwon estava em seu mesmo patamar, não era mais um órfão perdido no mundo, tinha um sobrenome importante agora, estava em uma posição importante, tornara-se cunhado de um príncipe, algo que o colocava entre os nobres. E Hoseok nada poderia fazer para mudar isso.
— Sou seu tio agora, não pode mais me torturar. — aquelas foram as palavras mais frias que Hyungwon já havia lhe dito — Mas isso me faz pena...
O alfa estava visivelmente bêbado, balançava de um lado para o outro, sua voz estava embolada, mas ele parecia usar de toda a sua sinceridade, Hyungwon estava dizendo o que já deveria ter dito há muito tempo. Talvez tenha sido por isso que ele bebeu tanto, precisava ter toda a sua coragem com ele.
— Pena de mim?
— De nós dois. — riu — Eu deveria ter fodido você há muito tempo.
— Não é meu tio de verdade, não compartilhamos sangue, nem fomos criados com esse pensamento, nunca o verei como um tio e nem você me verá como sobrinho, ninguém verá.
O alfa meneou a cabeça para o lado, sorriu.
— Está dizendo isso... por que quer f***r comigo, não é?
O menor assustou-se, não se dera conta do peso exato do que havia dito e agora conseguia notar o real sentido de tudo, ele praticamente tinha dado uma desculpa, um lembrete, para que Hyungwon soubesse que as coisas não mudariam entre eles.
— Não vou conversar com você, está bêbado. — mas sequer saíra do lugar — O quanto você bebeu?
— Por que quer saber?
— O suficiente para esquecer tudo amanhã?
Talvez, mas somente o amanhã poderia dar uma resposta concreta. Hoseok o encarou por longos segundos, e não tinha certeza do que fazia quando o beijou. Hyungwon não esperava aquele contato, mas seu reflexo fora corresponder e deixar que a língua do ômega entrasse em sua boca.
O Kim não sabia porquê o beijava, só sabia que queria aquilo. E quando se afastou, rogava aos deuses para que na manhã seguinte não restasse mais nenhuma memória na mente do alfa. Sentiu-se afoito e apressou os passos para longe dali antes que Hyungwon se desse conta do que havia acontecido. Ainda ouviu o alfa:
— Eu vou me lembrar, Hoseok.