Capítulo 6

1706 Palavras
Dandara O garçom nos serviu com um prato lindo de costela, comemos em um silêncio confortável, enquanto Giancarlo me contava a respeito de sua carreira em direito penal e civil, ele estava trabalhando em uma firma realmente muito renomada, a mudança ocorreu há apenas um mês e ele ainda estava se adaptando, ele disse que pensou em me visitar, mas achou melhor avisar antes devido o rompimento abrupto de nossa amizade, ele não sabia se eu queria renovar esse relacionamento, mas a forma como ele disse isso deu a entender que ele estava falando menos do que queria. —Suponho que minha mãe forneceu os detalhes sobre como me encontrar? —Talvez ela tenha deixado escapar o lugar onde estudava... —Então, resolveu que me abordar na porta da faculdade seria menos invasivo? — Perguntei erguendo uma sobrancelha. —Em minha defesa, estava tomando café ali perto. Foi um encontro casual. —Seria casual se costumasse frequentar aquele bairro, mas como trabalha em outra região e mora em outro bairro esse encontro foi tudo, menos casual, Gian. —Você também daria uma ótima criminalista, sabia? — Elogiou de olhos semicerrados e ficamos em silêncio numa troca de olhares avaliativa, um adversário estudando as intenções do outro, era como se não estivéssemos no meio de um restaurante movimentado, fui a primeira a romper o contato e remexi na bolsa religando o celular e o deixei na mesa. Ele terminou de comer e meu celular começou a vibrar loucamente acumulando notificações, depois de me desculpar peguei o aparelho e dei uma olhada para ver se havia recebido alguma mensagem importante, meu coração bateu mais rápido num ritmo de pânico familiar que só me lembrava coisas ruins, tentei me recompor ao ver várias mensagens e 19 ligações perdidas. 19! Revirei os olhos para a superproteção do meu namorado. Arthur: Ainda está jantando com seu amigo? Arthur: Está tudo bem? Arthur: Já chegou em casa? Estou preocupado, me liga quando chegar. Suspirei e respondi rapidamente que ainda estava no restaurante e que ficaria bem. —Namorado? — Questionou cuidadoso, mas senti a tensão emanar dele. —Sim. — Respondi tentando amenizar o significado daquela informação. —Devo me preocupar com ameaças e agressões? Não quero minha roupa ridiculamente cara, amassada ou rasgada. — Comentou tentando aliviar o clima estranho que surgiu de repente. —Não. – Dei uma risada tensa e guardei o celular na bolsa sem querer lidar com Arthur nesse momento. — Ele não é disso, mas é um pouco super protetor, sabe. —Hum rum. — Resmungou ao beber o café. Ergui os olhos e ele estava me observando analiticamente sobre a xícara, as pernas cruzadas com elegância os bíceps marcados na camisa social, o tornozelo elegantemente posicionado em cima do joelho, as coxas delineadas pelo tecido macio da calça, ele sempre foi magro, mas agora parecia um pouco mais encorpado e atlético, mas a postura era a mesma, apenas mais polida, um advogado pescando mentiras e soube imediatamente o que ele estava pensando, pois ele já havia usado esse mesmo olhar antes. Há alguns anos. —Ele não é assim e não tenho mais 16 anos, Giancarlo. — Argumentei na defensiva. —Não foi isso que insinuei. —Mas foi o que pensou. — Rebati mais incisivamente do que pretendia. Ele me encarou magoado, depois chamou o garçom e recusou quando me ofereci para pagar a metade da conta, na verdade, ele chiou e me olhou com raiva como um gato que teve seu r**o pisoteado, parecia realmente irritado quando saímos do restaurante e fomos para o estacionamento em um silêncio amuado, ele abriu a porta e embarquei no carro. Protestei quando o vi digitar meu endereço no navegador, não me surpreendia que ele soubesse exatamente onde morava, minha mãe era realmente uma grande fofoqueira. Mas apesar de me sentir segura em meu bairro, me preocupei com Giancarlo dirigindo um carro daquele tarde da noite pela Brasilândia. A viagem foi silenciosa, acho que ambos não queríamos entrar em um assunto delicado, mas as palavras não ditas ainda pairavam entre nós quando ele estacionou no meio-fio, no lado oposto da rua em frente à minha casa. — Está entregue. — Disse ao se virar para me olhar, e ele parecia mais cauteloso comigo. — O Arthur não é como ele. — Senti a necessidade de fazê-lo entender isso. Estava tensa ao me virar para observá-lo, sentia que precisava encerrar aquilo de uma forma mais amigável. Ele franziu as sobrancelhas esperando que eu continuasse. — Estamos juntos há três anos, ele é mais velho é verdade, mas é responsável e vem de uma família muito boa, ele me ajudou de muitas formas e sou grata a ele. —Está se esforçando muito para me convencer. — Rebateu incomodado, claramente ele não acreditava no meu julgamento e aquilo me irritou um pouco. A minha credibilidade com ele estava no negativo e queria mudar isso, essa noite cheguei à conclusão de que todo o sentimento de insatisfação que me acompanhava desde que mudei pra São Paulo, não era por causa da minha escolha estudantil, era porque eu não finalizei as coisas com Gian, era porque estávamos em suspenso e eu nunca havia me posicionado a respeito do rompimento da nossa amizade e percebi que o queria na minha vida novamente, não havia dúvidas disso. —Não preciso te convencer de nada, só estou esclarecendo para que não forme um preconceito contra ele antes de conhecê-lo. — Expliquei num tom ameno e paciente que usaria com uma criança articulada demais para a idade. —Pretende nos apresentar? — Ele se virou surpreso, mas não contente. — Bem, não é por isso que fomos jantar? Para renovar nossa amizade? Pude notar a miríade de emoções que cruzou seu rosto, mas ele ficou indiferente antes que pudesse identificá-las, uma máscara, ele tinha que ter uma para ser um bom advogado. Soltei o cinto e me virei para sair incomodada com o silêncio impassível dele, mas ele travou as portas e o encarei irritada. —Desculpe, não quis ser intrometido e possessivo... — Justificou num sussurro, Gian possessivo? Não conseguia imaginar isso, mas a ideia me deixava curiosa e um pouco empolgada. Bani o pensamento da mente, ele passou a mão no cabelo e abriu um botão da camisa, logo abaixo do colarinho. — Apenas fiquei preocupado. —Não foi culpa sua. — Disse ainda segurando a porta, sabia que ele se culpava pois conheci Airton através dele e sabia que ele estava preocupado que me metesse em uma enrascada de novo, mas Arthur não era assim e eu havia mudado, cresci e me tornei uma mulher. — Era i****a e jovem demais, não foi sua culpa o que aconteceu, você me avisou e eu ignorei. —Dara... — Chamou num sussurro sofrido. — Não, tudo bem. Giancarlo, aquilo foi bom, me ajudou a amadurecer. Ele assentiu e se empertigou no banco, depois destravou as portas e desceu para abrir a minha, sorri para ele. Ao descer já estava tirando as chaves da bolsa, atravessamos a rua e ele esperou que eu abrisse o portão, entrei e ao me virar para trancar, parecia que ele queria me dizer algo, mas estava hesitando. —Estarei de folga no domingo, por que não vem almoçar aqui se estiver livre? —Posso mesmo? —É uma boa oportunidade para conhecer o Arthur. —Ah, claro. O seu namorado— Ele parecia desapontado, mas revirou os olhos exasperado e parecia que um peso havia sido tirado de meus ombros. — Devo trazer alguma coisa? Uma sobremesa? — Um vinho. — Sugeri. — Mas não uma porcaria de vinho seco e caro, um bom e barato vinho tinto suave. Ele sorriu e pegou o celular. —Anote meu número, acho que como a levei para comer carne, mereço o bônus de ter meu contato salvo em sua agenda. —Justo. Peguei meu aparelho e anotei seu número, em seguida mandei uma mensagem para que ele tivesse meu número também, fiquei na ponta dos pés para jogar os braços em seu pescoço e me inclinei para beijar seu rosto, a barba rala fez cocegas e tentei não pensar muito no quanto aquela sensação era agradável ao abraçá-lo. — Obrigada pelo jantar. — Disse sem soltá-lo. Ele hesitou e quando seus braços se moveram ao meu redor para me abraçar de volta, senti a saudade de dez anos acumulada na força com que ele se agarrou a mim, Gian não me soltou e sussurrei em seu ouvido sentindo ele mergulhar o rosto em meu cabeço como se nunca quisesse sair dali. — Você ainda é meu Watson, nunca deixou de ser. O soltei, devagar ele se afastou, ainda estava sorrindo quando minhas mãos soltaram seu pescoço ele abriu a boca e parou olhando para meu decote, franzi o cenho quando percebi que o colar que ele me deu no meu aniversário de 16 anos havia escapado para fora da blusa e ele o encarava com uma palidez quase doentia, como se não acreditasse no que estava vendo. — Você não jogou fora? — Sussurrou incrédulo e franzi o cenho fazendo pouco caso da sua reação. — Por que jogaria fora? Eu o uso desde aquela noite há oito anos. — Você odeia presentes. — Me lembrou como se eu houvesse esquecido do fato. — Não esse... — Declarei constrangida, um sorriso se insinuou e algo se iluminou em seus olhos quando ele se abaixou e beijou minha bochecha. — Ainda se lembra do valor de PI? — Perguntou num sussurro que dizia que ele não estava apenas se referindo ao colar. — Elementar, meu caro Watson. — Sorri e tranquei o portão, meu coração acelerou com a intensidade de seu olhar, mas pelas frestas das grades observei que ele não se moveu. —Boa noite, Sherlock. — Murmurou. Sorri e entrei em casa, apenas quando acendi as luzes e acenei do pórtico da sala é que ele atravessou a rua e entrou no carro, esperei até que ele partisse e quando ele passou devagar em frente à casa acenei novamente e entrei na sala com um sorriso largo que morreu ao perceber que não estava sozinha. — Como foi o jantar?
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