Capitulo 5

2745 Palavras
Dandara Fiquei assistindo Giancarlo jogar sua fala mansa em cima de Laila e ela estava toda cheia de risinhos. Laila, cheia de risinhos... o inferno iria congelar. Em defesa dela, Giancarlo sempre foi gracioso e sociável, muito simpático quando queria agradar, um advogado perfeito com certeza, ele estava vestido como um, mas será que ele realmente havia se tornado um? Em qual área atuava para ter uma Porsche novinha aos 27 anos? Vestido de grife impecavelmente da cabeça aos pés, dava para ver apenas pelo brilho do sapato que tudo que ele vestia era caro, caro demais. Eles perceberam que os encarava, e ergueram as sobrancelhas. — Você ainda sabe enfeitiçar os outros. — Murmurei fazendo uma careta. —Tenho que saber, como irei pôr comida na mesa se perder minhas habilidades sociais? O ignorei, convencido, mas ele tinha razão, sempre teve muito talento no trato com pessoas, sem contar o intelecto afiado, aposto que deve ter se dado bem na vida, só espero que não defenda bandidos, os canalhas de colarinho branco, embora não esteja em condições de criticá-lo por isso, afinal a justiça não diz que todos têm direito a defesa? —Bom, o fretado já vai sair, bom jantar! Cuide da minha amiga, tá. —Ela está em boas mãos. — Assegurou com um sorriso tranquilizador, o que sempre teve um efeito muito positivo com a minha mãe. — Podemos te deixar em algum lugar? —Não, irei de fretado é rápido. Apreciem o jantar, a Dara não vai querer chegar tarde e vocês já perderam tempo demais. Me despedi dela com um beijo no rosto, ofereci mais uma vez uma carona, ela recusou. Assim que ela embarcou o ônibus partiu e ergui a sobrancelha surpresa ao ver Gian abrir a porta do carro para mim, que fofo. — Obrigada. —Disponha, senhorita. O assisti dar volta no carro com uma graciosidade impressionante, tentei não me encolher ao ver o terno Armani pendurado em um cabide na parte detrás do carro, meu Deus, apenas esse terno custava o que acumulei na minha poupança em três anos de trabalho duro e guardando cada moeda que sobrava, e olha que o que resta da minha herança está lá também. — Alguma sugestão de onde comer, ou seguiremos minha escolha? — Apenas escolha um lugar simples. — Pedi e rezei para o "simples" dele ser algo que poderia pagar caso ficasse irritada e precisasse ir embora depressa. Suspirei ao passar o cinto. — Certo, acha que vou te levar em algum restaurante ridiculamente caro e francês, mademoiselle? —Não sei, mas provavelmente frequenta constantemente restaurantes franceses ridiculamente caros, pelo menos é o que seu carro e suas roupas ridiculamente caros sugerem. —Provavelmente. — Ele concordou e passou o próprio cinto. — Ou pode ser apenas mais uma das infinitas especulações que devem estar rondando essa cabecinha inteligente. — Ele sorriu ladino e digitou algo no computador de bordo, era assim que chamavam aquela telinha que fica no console? Não faço a mínima ideia. — E que tal um bom e calórico restaurante norte-americano? Ou prefere comida italiana? Suponho que ainda aprecie uma boa massa... — Norte-americano. — Murmurei agradecida e rezei para ele me levar ao Mcdonalds, mas sabia que não iriamos comer hambúrguer. O GPS indicou uma rota e ele dirigiu suavemente pela rodovia, estávamos próximos a zona sul então julguei que poderia ir embora sem problemas, teria que pedir para ele me deixar na estação de metrô mais próxima, mas ele continuou dirigindo até chegarmos a um shopping na Zona Oeste, um que era refinado demais a meu ver, a julgar pelo público que passeava ao redor com cachorros que eu sabia, serem de raças muito caras. Estremeci quando ele conduziu o carro pelo estacionamento à procura de uma vaga, ele buscava uma das maiores. Assim que ele estacionou desafivelei meu cinto, rápido demais ele desceu e no segundo seguinte estava abrindo a porta para mim, mordi o lábio segurando uma risada quando ele se empertigou para se recompor da corrida leve. —Sabe, sou perfeitamente capaz de abrir a porta sozinha. —Sei disso, mas isso não quer dizer que deva. —Com medo de que bata a porta de seu carrão? — Zombei arqueando a sobrancelha. —Não sou tão materialista, por que não pode apenas aceitar um gesto de cavalheirismo? —Aprendeu isso na universidade? Ele gargalhou. Uma risada gostosa e grave que inundou meu corpo com um sentimento familiar e nostálgico e por um instante o sentimento não me trouxe desconforto, recordei as nossas longas conversas embaixo de um pé de figueira até tarde da noite, as brincadeiras os passeios de braços entrelaçados ou quando ele me levava nas costas depois das exaustivas aulas de educação física. — Mulheres... — Resmungou exasperado e pisquei me afastando do passado. — Chamam os homens de brutos, mas quando agimos diferente reclamam da mesma forma. Criaturas impossíveis. —Parece acostumado a lidar com a situação, acho que algumas delas te ensinaram algo... —Algumas. — Declarou semicerrando os olhos verdes, ele me ofereceu a mão para descer, aceitei, pois realmente o carro era um pouco alto e para o meu azar eu era baixa demais mesmo de salto e nem um pouco graciosa. Nos encaminhamos ao elevador enquanto ele vestia o terno, gentilmente ele me conduziu com a mão na base da minha coluna, tentei não demonstrar surpresa com o ato ao posicionar a bolsa no antebraço e a frente do corpo, não porque achava o gesto atrevido, de forma alguma, os limites de minhas interações com Giancarlo sempre foram confusos ou inexistentes, mas sempre funcionou bem entre nós. O que me incomodava é que depois dele ninguém havia me tratado de tal forma, com tamanha gentileza e cortesia, era estranho, mas parecia que estava habituada demais a lidar com pessoas rudes, ásperas e indiferentes, então me sentia estranha pois estava acompanhada de um exímio lorde inglês, apesar da descendência europeia. Não me surpreendi quando um garçom atencioso se aproximou Giancarlo pediu por uma mesa para dois em um canto mais afastado, ele queria uma conversa intimista e parte de mim se empertigou com aquilo, passara a odiar conversas assim, talvez também tivesse me tornado alguém rude e áspera que odiava falar sobre minha vida pessoal, principalmente quando o tema envolvia erros do passado. Fomos conduzidos a uma mesa, Giancarlo puxou uma cadeira para mim, sentei-me devagar observando o restaurante, estava calmo e moderadamente cheio, o lugar era decorado rusticamente, muita madeira e uma iluminação em tom alaranjado, era como a luz do pôr do sol, morna e acolhedora. Aprovei sua escolha, já conhecia o lugar, mas o frequentava apenas em datas comemorativas, quando algum amigo fazia aniversário e saíamos para comer juntos, e todos rachavam a conta. — Pelo sorriso em seu rosto parece ter aprovado a escolha, continua uma apreciadora de carne? —Algumas coisas não mudam. —De fato... Ele se sentou e colocou as mãos à frente do rosto me analisando, fiquei nervosa com aquele olhar aguçado em cima de mim. — Você está muito bonita, esse estilo casual Chick combina com você. — Elogiou num tom baixo e rouco que me fez ruborizar, ninguém conseguia me deixar vermelha, não consegui responder e para me ajudar ele mudou de assunto. —Já se decidiu? Sou um mafioso ou defensor de traficantes? Ergui as sobrancelhas surpresa e agradecida com a mudança de assunto, o garçom voltou com um pão preto quentinho e manteiga. Esperei ele sair e me servi com uma fatia de pão me preparando para aquilo, Giancarlo era uma lâmina cuidadosamente afiada e parecia mais assertivo do que nunca. — Dado o seu cavalheirismo diria que se encaixa mais como um mafioso, sem contar que sua descendência italiana é mais um fator. — Foi isso que deduziu ao analisar meu perfil? Se ainda te conheço você já contabilizou até mesmo minhas meias. — Desculpe — Abaixei a mão que segurava o pão subitamente envergonhada. — Estou tentando largar o hábito. — Continua com o olhar perspicaz e a mente aguçada, isso a beneficiaria bastante se tivesse seguido a carreira de promotora. — Também beneficia minha carreira na enfermagem, sabia? Ele suspirou e cortou uma fatia de pão, o garçom voltou e pedi um Chopp, precisaria de álcool para enfrentar Giancarlo, o advogado. —Sim, concordo. Por que mudou de ideia? Estava tão determinada quanto a escolha do curso. — As coisas às vezes não saem como planejado. — Bobagem, se está se referindo a dinheiro sei que é inteligente o suficiente para ter entrado na USP se quisesse, ou mesmo conseguir uma bolsa integral na Mackenzie. —Também sabemos que teria que ter dinheiro de qualquer forma, pois teria de comprar livros e livros e ainda lidar com o preconceito da burguesia se escolhesse a Mackenzie. —Então, realmente passou para a USP? —Coloquei Direito como minha segunda opção no Prouni e no Sisu, consegui passar para a USP em Direito e Enfermagem, mas optei por cursar enfermagem em uma faculdade privada aceitável, mais barata, acessível e que me permitisse trabalhar no meu tempo livre. Sua boca se contorceu em uma linha rígida, havíamos feito planos para faculdade quando éramos amigos, mas nada saiu como planejado, pelo menos não para mim. Meus pais não podiam bancar minhas despesas para estudar em Teresina, muito menos uma faculdade particular, portanto na primeira oportunidade que me apareceu me mudei para o mais longe possível e comecei a me virar, uma conquista e tanto para uma filha única, desde então eu só podia contar comigo mesma e estava me saindo muito bem, obrigada. — Eles têm um curso decente e são reconhecidos pelo MEC. Não entendia por que precisava convencê-lo, comecei mais tarde é verdade, mas era uma das mais inteligentes da turma, ganhava bem e conseguia me virar, conseguia até guardar um dinheiro na poupança. E sempre acreditei que o aluno é que torna as coisas possíveis, não importa se a faculdade é renomada ou não, o esforço individual faz toda a diferença. —Não estou criticando, só não entendo por que desistiu do direito. — Me apaixonei por outra área, Giancarlo. Acontece. Isso é tudo. Cortei o assunto desconfortável, não queria que logo ele me recriminasse pela minha escolha, já foi difícil demais comunicá-la a meu pai que tinha um sonho tosco de ter uma filha juíza, e todo o incentivo que me deu na minha vida escolar foi a presença esparsa em reuniões escolares e acenos de cabeça para uma nota dez em qualquer matéria, enquanto minha mãe se matava de trabalhar em uma casa de família para sustentar toda a família. — Você está indo muito bem. O encarei surpresa e ele sorriu ao segurar minha mão sobre a mesa, e não foi o relógio caro que chamou minha atenção, foi o calor do gesto, foi perceber o quanto a mão dele era maior que a minha, ela cobria perfeitamente o dorso da minha e aquilo me deu uma sensação morna de proteção, sorrindo apertei a mão dele por baixo e aquele sentimento voltou, aquela sensação quente que ia se espalhando pelo meu corpo e me dava vontade de retribuir seu carinho. — É sério — Continuou olhando em meus olhos, aquele verde intenso sempre me hipnotizou. — Isso não é como sonhávamos, mas a vida não é um sonho. Você saiu com cartas ruins e está se saindo muito bem, Dara. —Oh, obrigada. Isso é muito vindo de alguém, já formado, com carro próprio e que usa um terno de mais de 5 mil reais aos 27 anos. Talvez tenha soado como uma crítica, mas estava apenas assombrada e talvez... com um pouco de inveja. — Uau, dito assim parece que minha vida é mamão com açúcar. Rebateu prontamente e com um pouco de sarcasmo, seu ressentimento foi comprovado quando soltou minha mão e a ausência do toque me incomodou. — Bem, que tal me dizer mais a seu respeito, aí poderei opinar com base em todos os fatos, montar argumentos com base em suposições é algo perigoso. Tentei amenizar a mordida sorrindo para ele, Giancarlo se recostou na cadeira e me analisou, nosso pedido chegou à mesa e belisquei a cebola frita. —Justo. Sorri, ele comeu a cebola e bebeu água. — Bem, depois que me mudei para a capital, iniciei minha pós-Graduação e atuei por três anos na defensoria pública de Teresina, ganhava pouco, mas queria sair das graças de minha família, um amigo de meu pai assistiu um caso meu que ganhou holofotes na mídia e quando terminei ele me ofereceu uma vaga em seu escritório que é muito famoso aqui em São Paulo, portanto, aqui estou. —Então, não é um mafioso? — Perguntei segurando o riso. — Não. — Afirmou me olhando com intensidade. — E não trabalha com mafiosos? — Insisti agora sorrindo abertamente. —Também não, lamento não poder realizar suas fantasias baseadas em romances com mafiosos. Disse sorrindo, o divertimento brilhando em seus olhos verdes e luminosos, suspirei aliviada, sabia que Giancarlo era talentoso e possuía uma das mentes mais afiadas e precisas que conhecia, mesmo quando éramos mais jovens sabia que ele teria sucesso em qualquer área que escolhesse, afinal não é qualquer um que cursa o último ano do ensino médio e o primeiro ano de faculdade simultaneamente aos 16 anos. — É uma pena, você seria menos maricas se fosse um mafioso ou advogado de um mafioso. —Ele sorriu e vi um pouco de alívio em sua postura quando seus ombros relaxaram. Por que minha opinião era importante? Ele havia se saído muito bem. —Ficará feliz em saber Dara, que não sou nem um pouco maricas, apesar do meu visual engomadinho. —Se você diz. —Zombei, ao beber o chope. Ele ficou me observando, um meio sorriso no rosto e olhos aguçados. O que ele estava pensando? Sabia que ele queria me perguntar muitas coisas, por que nunca liguei para ele? Por que rejeitei suas ligações ao ponto de mudar de chip apenas para sumir do radar? E sem conseguir mais postergar aquele jogo de gato e rato, pousei a caneca na mesa devagar e ergui os olhos para ele seguindo as instruções de minha mãe, "sempre se desculpe olhando nos olhos das pessoas para que vejam a sinceridade e se ela não está lá, o pedido não deveria existir." — Desculpe. A palavra parecia uma bola de arame ao sair de minha boca, ele estremeceu e congelou, seu sorriso tremeluziu e foi diminuindo aos poucos. E decidi que não queria entrar naquele assunto, não, eu não estava pronta para dizer a ele que quando saí de Picos não o procurei por vergonha, que estava tão envergonhada com minhas atitudes que não consegui engolir meu orgulho e dizer que ele estava certo, que todos estavam certos sobre meus erros e que eu queria outra chance, apenas uma chance de escolher o certo, de escolher ele, não conseguia dizer aquilo... —Por julgá-lo através das aparências. — Esclareci constrangida. Mentira, não era por isso que estava me desculpando. — Aceito suas desculpas. — Disse friamente, ele sabia. Giancarlo sabia que não me referia as alfinetadas, mas não queria falar disso hoje. E rezava para que a conversa enveredasse para outro tópico. —Vi sua mãe na última vez que passei na cidade. Aquilo era novidade, minha mãe não havia falado nada na última vez em que conversamos por chamada de vídeo. —Oh, é mesmo!? —Questionei nem um pouco surpresa. — Ela deve ter ficado muito feliz, sempre gostou mais de você do que de mim. —Isso não é verdade, Dara. — Disse me repreendendo e sorri para aliviar o clima. —Pode até ser, mas ela sempre gostou muito de você. —Não posso culpá-la, sou muito carismático. — Gabou-se com um sorriso convencido. —Arrogante. — Murmurei fingindo repulsa e começamos a rir de um jeito nada discreto, o ataque de risos durou muito até que as gargalhadas se tornaram risadas, depois sorrisos felizes enquanto observávamos um ao outro com carinho, saudade e conforto, era a primeira vez que me sentia totalmente confortável comigo e minha situação de vida desde que saí da casa dos meus pais, era um pouco assustador perceber que a solução para meu desconforto nunca se tratou de um lugar e sim de uma pessoa. — Senti sua falta. — Idem.
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