- Bianca da Silva Oliveira, compareça à sala da gerência!
M.erda! O que era daquela vez?
Ontem foi o almoço que eu demorei além da conta. Antes de ontem foi uma discussão com um cliente no caixa. Hoje só podia ser porque cheguei atrasada. Sem contar que na semana passada isso também tinha acontecido umas três vezes. Mas que culpa eu tinha de morar em um sitio e ter que me deslocar cerca de dez quilômetros todos os dias para trabalhar naquela porcaria de supermercado e ganhar uma miséria no final do mês? Minha bicicleta velha volta e meia me deixava na mão e eu tinha que terminar o percussão a pé, ou aventurar alguém me dar uma carona. Às vezes sobrava dinheiro para pagar a Van que fazia aquele trajeto, mas do meio do mês em diante a grana encurtava e só restava a bicicleta. Eu estava juntando dinheiro para comprar uma moto, mas minha avó precisou de uma consulta de emergência e os remédios foram caros, e lá se foi meses de economia. Paciência. Pela minha vozinha eu fazia qualquer coisa. Ela era tudo na minha vida. Tudo mesmo! minha mãe tinha morrido quando eu era pequena e ninguém sabia quem era meu pai. Ela nunca contou pra ninguém quem foi o cara que a engravidou aos dezesseis anos e aquele segredo morreu com ela, aos vinte anos de idade, vítima de um assalto i****a no meio da rua, porque ela se recusou a entregar o celular. Minha vó me contou quando que fiz dez anos, antes disso ela me dizia que minha mãe tinha viajado e que um dia voltaria. Eu tinha pouca lembrança dela. Aos quatro anos uma criança não fixa muita coisa na cabeça. Mas eu lembrava do dia que meu avó enfartou e morreu. Eu já tinha quinze anos e foi uma das piores experiências da minha vida. Desde então, somos eu e minha vozinha Izabel. Nós somos o mundo uma da outra e eu faço o possível e o impossível para vê-la bem.
- Bianca da Silva Oliveira, compareça à sala da gerência!
O carrinho que aguardava na fila estava abarrotado de compras. Se eu começasse a passar ia demorar. Mas a ordem era o cliente em primeiro lugar.
Comecei a registrar as compras da cliente.
- Bianca da Silva Oliveira, compareça à sala da gerência!
- Que inferno! Eu estou atendendo! - falei entredentes
Carolina, minha amiga que estava no caixa ao lado virou pra mim.
- Vai logo Bianca, estão te chamando.
Respirei fundo.
- Você termina aqui pra mim?
- Vai, eu termino.
Com o coração aos saltos atravessei o longo corredor do atacadão mais famoso de São Luiz do Maranhão. O Atacadão Galvão era o maior supermercado da capital e fazia apenas seis meses que eu estava trabalhando ali. Esperei completar dezoito anos para arrumar um emprego de carteira assinada, por que b***s eu já fazia desde os quatorze.
Subi os infindáveis degraus até a sala da gerente. Uma mulher carrancuda que com certeza não ia aliviar minha barra.
- Me chamou dona Marta?
Ela nem me olhou.
- Chamei, sente-se.
Sentei dura feito um poste.
- Pois não?
Ela finalmente me encarou e eu soube que estava ferrada.
- É seu primeiro emprego não é Bianca?
Engoli em seco.
- Sim
Ela limpou a garganta.
- Vejo que ainda não tem ideia de onde está trabalhando não é?
Será que iam me prender se eu dissesse uns desaforos para aquela m*l amada?
- Tenho sim senhora, por que?
- Você chega atrasada, demora no almoço, briga com os clientes, atende de cara f**a. Você acha que isso aqui é a casa da mãe joana, menina?
Não. É a p***a de um trabalho e*****o que vocês pagam uma merreca.
- Eu moro longe e...
Ela levantou a mão.
- Sentimos muito pelas suas dificuldades, mas o nosso setor pessoal já decidiu. Você não está dentro dos padrões para trabalhar na nossa empresa.
Estou sendo demitida?
- Você está demitida Bianca. Assine aqui seu aviso prévio.
Ela queria mesmo que eu trabalhasse mais trinta dias ali? Nem f.odendo.
Levantei devagar e a olhei seria.
- Meta seu aviso prévio no c.u. Posso ir embora?
Ela arregalou os olhos.
- Me respeite sua pirralha, eu vou providenciar para que você pague a multa por não cumprir o aviso. Vou falar imediatamente com o Sr. Anthony!
Sorri cinicamente pra ela e peguei a folha do aviso rasgando ao meio.
- Tome. Metade no seu c.u e metade no do Sr. Anthony. Adeus.
Desci as escadas correndo e esbarrei em um ou dois colegas no caminho.
- Que p***a é essa Bia? Ficou doida?
- Sai da minha frente Kaique, eu estou caindo fora. Fui demitida. Aquela vaca me colocou na rua.
Me aproximei do meu caixa e puxei minha bolsa debaixo da bancada.
- Tchau Carol, fique ai mesmo e feche o caixa.
-Ei! O que aconteceu? Volta aqui menina...
Sai em disparada para o estacionamento onde eu prendi minha bicicleta ao gancho de ferro e com as mãos tremulas soltei o cadeado.
E agora? Como eu pagaria a fatura do meu cartão? Eu tinha comprado muita coisa confiando naquele emprego. Pagava m*l, mas dava para cobrir meus gastos. Minha vó ficaria preocupada e iria querer pagar minhas contas. Eu precisava correr atrás de um novo emprego, urgentemente. Agora, no entanto, eu só queria ir pra casa e chorar de raiva. Ninguém queria dar uma chance a quem arrumava o primeiro emprego. Estavam sempre de olho, procurando uma falha para fazer o que fizeram comigo. Ninguém se importava de nos orientar, de falar como as coisas deviam ser. Aqueles riquinhos filhos da p**a não imaginavam o que pobres como eu passavam para poder sobreviver. Eu estava cansada. Eu tinha apenas dezoito anos e já estava cansada de entrar e sair de inúmeros trabalhos e nenhum dava certo. Minha saga já vinha de longa data. Lavar pratos em restaurantes, fazer unha, pregar botões para costureiras, levar crianças para a escola e um infinidades de coisinhas miúdas que só me rendiam o dinheiro do shampoo e do perfume. Minha vó bancava a casa sozinha e seria muita ingratidão minha pedir luxo pra ela. Vivíamos da aposentadoria dela e da pensão deixada por meu avô e se não faltava o básico para sobrevivência, também não sobrava para coisas supérfluas, que uma adolescente gostaria de ter: um celular bom, uma roupa de marca, poder sair para comer coisas gostosas. Mas tudo bem, eu ainda não ia desistir. Ser demitida não era o fim do mundo. Eu procuraria outro emprego.
Fazer faculdade era meu sonho, mas naquele momento teria que ser adiado. Minha avó não poderia me manter na cidade para estudar. Um dia eu realizaria meu sonho. Por enquanto era sobrevivência mesmo.
Morar na zona rural de um estado como o Maranhão era um desafio. Tudo ali era difícil e minha sorte era que o sitio na minha vó era muito próximo da capital, então tinha luz elétrica, agua encanada e internet, mas existiam lugares piores onde a pobreza era extrema e garotas da minha idade dificilmente ficavam ali. Muitas iam embora para cidades grandes em busca de melhores condições de vida e nem sempre conseguiam. Eu preferia a vida calma no sitio e esperar que a sorte e a luta me dessem um futuro melhor. Eu tinha paciência para esperar. Paciência para algumas coisas, para outras não, afinal era uma boa sagitariana e meu sangue fervia com muita facilidade, de resto eu tirava tudo de letra.
Eu gostava de ficar pensando em coisas aleatória enquanto pedalava pela estrada que levava ao sitio. Aqueles pensamento me distraiam da distancia e quando eu menos esperava já avistava a casinha branca quase escondida nomeio de um monte de plantas floridas que minha vó faia questão de regar todos os dias pela manhã e pela tarde. Nosso cantinho era lindo. Tinha pés de manga, de caju, de goiaba, de tanta fruta que dificilmente comprávamos algumas daquelas coisas no mercado. Eu amava morar ali.
Como fazia todos os dias, deixei a bicicleta debaixo do é de manga e entrei em silêncio. Se eu bem conhecia minha vó, àquela hora da tarde ela estava sentada no sofá bordando alguma coisa e assistindo aquelas novelas mexicanas do SBT que eu sempre confundia os nomes. Pra mim todas eram iguais. E não deu outra. Ela estava no sofá. Nem bordando e nem assistindo. Estava dormindo. A TV ligada baixinho e o gato enroscado na perna dela. me aproximei devagar e toquei o cabelo dela.
- Vozinha...
Ela se assustou e pulou do sofá.
- Calam vó, sou eu.
Ela olhou o relógio tentando entender o que eu fazia li no meio da tarde.
- Bia, que horas são? Por que chegou cedo assim?
Me joguei no sofá irritada.
- Fui demitida.
Ela sentou ao meu lado acariciando minha perna.
- Oh meu amor, sinto muito. O que aconteceu?
Encolhi os ombros.
- Sei lá, aquela gerente não foi com a minha cara desde o início. Ela falou um monte de coisas lá e me mandou embora.
Izabel balançou a cabeça rindo.
- Você ficou calada Bianca? Não disse desaforos para a mulher não é?
Soltei uma gargalhada.
- Não. Eu só mandei ela enfiar o aviso prévio no c.u.
- Bianca!
- Ela disse que ia falar com um tal de Anthony e eu mandei enfiar no dele também.
Ela riu comigo.
- Menina! precisa controlar essa língua. Você ainda vai se meter em confusão.
Levantei me espreguiçando.
- Vou nada, vamos fazer café, estou com fome.
O barulho alto de uma aeronave se fez ouvir lá fora.
- Esses helicópteros de novo! Aff. A parte de r**m de morar muito perto da cidade.
Apurei os ouvidos.
- Vó, esses barulho não ta muito perto não?
Corremos para fora da casa.
- Meu Deus Bianca o que é aquilo?!
O vento açoitava as plantas e nós protegemos nossos cabelos do vento forte que saia das hélices de um helicóptero que descia bem ao lado da nossas casa.
- Ele tá caindo?!
A aeronave descia lentamente. Não parecia estar desgovernada. Parecia mais um pouso forçado, mas o piloto parecia estar no controle.
- Não. Ele está pousando no nosso quintal!!
- E se for um bandido?
Franzi a testa.
- Vó, um bandido de helicóptero? Acho que não.
- Será que é um cantor famoso?
A aeronave bateu no chão com um solavanco e levantou uma nuvem de poeira. Tossimos engolidas pelo vento e pela terra e esperamos a nuvem de poeira baixar.
Tudo estava muito quieto. Será que o piloto passou m*l? Ele estava vivo?
Andamos lentamente para perto do objeto preto e enorme que tinha decepado alguns galhos de arvores na tentativa de encontrar um espaço entre as plantas.
- Ai!!!
Gritamos de susto ao ver a porta abrir e um homem descer os três degraus da aeronave lentamente. Ele olhava ao redor, como se buscasse entender onde estava.
Ele deu alguns passos em nossa direção e minha vó tomou a frente me colocando atrás dela e pegando uma estaca solta da cerca.
- Fique onde está? Se chegar perto de nós eu esmago sua cabeça.
Ele levantou as mãos assustado.
- Calma senhora, eu não vou fazer nada com vocês.
O homem deu um passo atrás.
- Eu tive que pousar, meu combustível estava acabando. Eu sou do bem, acreditem.
Sai de trás da minha vó devagar e segurei o pedaço de p*u que ela ainda mantinha levantando.
- Calma vó, o moço parece dizer a verdade.
Ela deixou a madeira no chão e se aproximou lentamente, olhando o homem de cima a baixo.
- Você não é um ladrão, é?
Ele deu um meio sorriso.
- Não. Não sou um ladrão.
E se fosse era um ladrão bem lindo. Ele era alto, muito alto e apesar de ser magro, tinha músculos visíveis através da camiseta de malha de gola V preta. A calça jeans clara e rasgada nos joelhos marcava coxas grossas e o cabelo dele era curtinho e meio eriçado na frente. De longe parecia que os olhos dele eram verdes, mas a pele era morena. Os cílios eram grandes, bem diferentes para um homem. O rosto dele parecia de um artista de novela e os braços mostravam duas ou três tatuagens. Era o típico Bag Boy que as minhas amigas adoravam. Aposto que era um filhinho de papai brincando de aviação.
Ele fixou o olhar em mim e me analisou dos pés á cabeça. Sustentei o olhar dele e fiz uma pose rindo.
- E então? Dá pro gasto?
Ele ficou sem jeito.
- Desculpe, não quis ser invasivo.
Izabel me beliscou e se voltou para o homem que caiu do céu.
- O senhor quer entrar? Está ferido? Precisa de alguma coisa?
Ele virou e fitou a aeronave.
- O combustível acabou, esqueci de verificar antes de levantar voo.
- O Senhor ia pra muito longe?
Ele passou a mão na cabeça.
- Não. Ia para uma ilha. Ia para um jantar de noi...
Ele parou indeciso se contava seu destino ou não.
- O helicóptero é seu?
Ele se voltou para minha pergunta.
- O helicóptero é... do meu patrão. Eu ai encontrá-lo na ilha.
Bom, ele precisava dar um jeito de por combustível naquele trambolho e sair dali. Mesmo ele parecendo um herói de filme americano estava claro que não poderia ficar ali no nosso jardim.
Izabel, com seu coração mole sorriu para o monumento que não parava de me encarar.
- Entre um pouco, venha tomar um café enquanto você providencia o que fazer.
Ele nos seguiu calado e eu podia jurar que ele estava olhando para minha b***a apertada dentro da legging preta que eu usava.
Ele teve que abaixar para não bater a cabeça no batente da porta e se achou no meio da nossa sala. Ele olhou em volta, provavelmente achando engraçado a mistura de cores das cortinas, tapetes e almofadas. Nossa casa realmente parecia uma casinha de boneca.
- Sua casa é linda dona... como é o nome da senhora mesmo?
Ela sorriu encantada com o charme do bonitão.
- Izabel, mas pode de me chamar de vovó. Você tem idade para ser meu neto.
Ele sorriu e nos encarou.
- Eu... posso pedir uma coisa?
Minha vó me olhou desconfiada e voltou-se pra ele.
- Peça filho.
- Eu posso ficar aqui por uns dois? Eu preciso me esconder da minha família.
Aquele bonitão estava aprontando. Primeiro caiu do céu no nosso quintal e agora dizia que precisava se esconder? Que m***a ele e tinha feito?
- Não posso fazer isso? E se a polícia baixar aqui?
Ele balançou a cabeça.
- Não tem polícia nenhuma, eu só preciso fugir do meu pai. Ele quer me obrigar a fazer uma coisa que não quero.
Cheguei perto dele e o olhei de baixo.
- Você bem grandinho pra ter medo do seu pai, não acha?
Ele sorriu divertido.
- E você é bem pequena pra ser tão abusada não acha?
Mostrei a língua pra ele.
- Como é seu nome, seu medroso?
- Meu nome á An... ah, meu nome é Caio.
Estendi a mão pra ele.
- Prazer Caio, meu nome é Bianca da Silva Oliveira.