Que p***a eu estava fazendo?
Já não bastava a encrenca que eu estava metido e agora eu ainda achei de mentir meu nome.
Mas que m*l aquilo poderia me trazer? Eu daria um jeito de sair daquele sitio encantado o quanto antes e nunca veria aquelas duas pessoas estranhas e ao mesmo tempo engraçadas: uma velhota simpática e meio doida e uma garota atrevida e gostosa. Sim, a menina era bonita pra c*****o, mas só de olhar já, estava escrito na testa a palavra problema.
Acho que eu devia estar pagando todos os meus pecados naqueles últimos dias, porque era muito azar para uma pessoa só. Desde o momento que fui informado que tinha uma noiva, até aquela maldita ideia de pegar o helicóptero sozinho sem olhar o tanque de gasolina. Pra começar, eu nem deveria ter ido sozinho, mas a ideia era justamente me desviar do caminho e fingir que eu tinha perdido a rota. O imprevisto foi realmente o tanque de gasolina e a saída foi improvisar aquele pouso forçado logo depois de levantar voo. Uma brincadeira que poderia ter virado uma tragédia, se eu não tivesse conseguido pousar com segurança. Quer dizer, eu precisava descobrir se estava em segurança no meio daquelas duas.
Apertei a mão da garota mais tempo do que eu devia e apresentei meu melhor sorriso. Por dentro eu estava quase tendo um ataque.
- Certo Bianca, o prazer é meu.
A mulher mais velha tossiu e eu recolhi minha mão enfiando nos bolsos da calça.
- Então Sr… Caio. Porque precisa ficar aqui? Está fugindo de que?
Engoli o bolo da minha garganta. Era melhor não mentir mais.
- Meu pai quer me forçar a casar e o noivado é hoje.
Nas minhas costas a tal Bianca explodiu em uma gargalhada.
Virei devagar para ela.
- Qual é a graça?
Ela limpou os olhos marejados de lagrimas de tanto sorrir.
- Nada. É que é muito engraçado. Você pelo menos avisou a noiva que está pensando em largar ela no altar.
- Não vou casar. Seria só um jantar entre nossas famílias.
Ela arqueou a sobrancelha.
-Se eu fosse a noiva eu arrancava seu fígado depois.
Eu não quis dizer a ela que homem nenhum seria louco de não ir a um noivada com ela. Primeiro por que ela era muito linda e segundo por que eu não duvidava que ela realmente arrancasse o fígado do coitado.
A senhorinha nos deixou sozinhos e ela me olhou ainda rindo.
- Por que não quer casar? Me parece que já estar na idade de construir uma família.
Sorri cínico.
- Está me chamando de velho?
Ela encolheu os ombros.
- Velho não, mas que m*l ha em casar?
Eu não ia expor minha vida para aquele projeto de mulher fatal em fase de crescimento.
- Eu não quero e pronto. Será que posso usar o banheiro?
Ela fez sinal pro cima do ombro.
- Venha bonitão.
O banheiro não era muito diferente do resto da casa. Todo decorado com coisas coloridas e vasos de plantas. Bati minha cabeça na porta. Tudo naquela casa era em miniatura? ou eu que era alto demais?
As duas figuras me esperavam sentadas no sofá da sala.
Sentei na poltrona da frente e um gato pulou do braço do sofá. Só faltava aparecer um duende saindo de alguma daquelas portas.
- Bem mocinho, o que pretende fazer?
A senhora me olhava seria.
- Eu vou aviar meu… patrão do ocorrido e pedir que tragam combustível para que eu possa voltar pra casa, mas agora já é quase noite e eu… não quero dar as caras hoje.
A velha pareceu pensar um pouco.
- Alguém poderia ver essa geringonça estacionada aqui no meu sitio. Isso poderia me trazer problemas.
Olhei para a garota distraída no celular.
- Se perguntarem diga que é o namorado da sua filha.
Ela levantou o olhar surpresa.
- Eu? Namorando com um cara que tem um helicóptero? Ninguém ia acreditar, invente outra e ela é minha avó.
Elas moravam sozinhas?
- O helicóptero não é meu.
- Que pena! Você tem cara de rico.
Meu pai é milionário. Eu sou um b****a que estou me metendo nas maior confusão.
- Mas não sou.
A mulher mais velha levantou respirando fundo.
- Vou deixar você passar a noite, mas amanhã cedo você cai fora.
- Tudo bem, prometo que não trarei problemas para a senhora.
- Não quer tomar um banho?
- Sim, acho que preciso, eu tenho uma mochila na aeronave, vou lá buscar.
Levantei e abri a porta rapidamente, mas estanquei ao som de duas coisas; O latido irritado de dois cachorros e o grito da garota.
- Espera! Os cachorros!
Que d***o era aquilo? Eram dois monstros?
Os animais endiabrados partiram para cima de mim e no último minuto a garota se colocou entre mim e as feras com os dentes à mostra.
- Quietos! Volta Mike! Volta Mika!
Não! aquilo era uma piada! Mike e Mika?
Os cães se calaram e sentaram sobre as patas. Olhavam para a menina como se esperasse uma ordem e eu acreditei que eles avançariam sobre mim se ela mandasse.
- Prenda esses monstros. Se eles me morderem eu processo vocês.
Ela me empurrou para dentro da casa.
- Fica ai que eu vou prende-los.
Ela voltou minutos depois meio sem ar e toda suada.
- Pronto. Pode sair agora.
Olhei bem pra ela, duvidando que aquela menina fosse real.
- Como é mesmo o nome dos cachorros?
Ela me encarou de nariz empinado.
- Mike e Mika porquê?
Balancei a cabeça incrédulo e fiz mais uma pergunta.
- Mike e Mika no sentido de irmãos ou de um casal?
Consegui colocar uma expressão envergonhada nela.
- Eles são namorados.
Não tive como não ri.
Ela me olhou f**o.
- O que tem? Os animais também namoram!
Fiquei sério.
- E você? Tem namorado?
Outra pessoa respondeu.
- Não. Ela não tem. Prefere dormir dentro ou fora de casa Sr. Caio?
A garota apontou o helicóptero.
- É melhor pegar suas roupas e ficar calado não quiser dormir com os cachorros.
Peguei minha mochila e tentei me encaixar dentro do minúsculo banheiro. Pelo menos a agua era quentinha e a toalha era cheirosa.
Demorei mais tempo do que o normal lá dentro tentando, pensar numa forma de me sair daquela situação maluca. Teria que ligar para o Caio e devia estar puto comigo. Meu celular, que fiz questão de colocar no silencioso estava abarrota de mensagens e ligações. Apenas mandei uma única mensagem para o Caio a fim de evitar alvoroço.
“ Só avisa que está tudo bem e que eu volto logo”.
Mas com certeza, ia ter alvoroço sim, meu pai ia beber meu sangue, mas eu não estava nem ai. Eu não queria amarrar a corda no meu próprio pescoço e ir aquele noivado maluco.
Terminei o banho e sai do banheiro encontrado as duas mulheres na cozinha em volta do fogão.
Tudo ali era colorido e bem arrumado, desde a mesa com uma toalha florida, cortinas nas janelas e vários enfeites pendurados na parede. Era uma cozinha moderna, com vários aparelhos eletrônicos, mas via-se que era tudo muito simples e aconchegante.
A garota também parecia ter tomado banho e trocado de roupa e agora estava vestida com uma calça de elástico florida e uma regata curtinha que mostrava a barriga. Os cabelos longos, agora molhados batiam na cintura e a franja que antes praticamente cobria os olhos dela estava meio de lado. Ela tinha uma características bem diferente, parecia meio indígena ou oriental e avó também. Uma cor de pele bonita que combinava com os cabelos lisos e bem escuros. Não tinha como não analisar o corpo dela dentro daquela roupa que mostrava claramente uma cintura fininha e os s***s pequenos.
Parei na porta e tossi para anunciar minha presença. A senhora voltou-se e sorriu me chamando com um aceno de mão.
- Venha filho, sente e espere que estamos fazendo uma sopa e café.
A garota no entanto chegou perto da mesa e apontou uma tábua cheia de verduras.
- Sentar nada, vovó. Ele tem que ajudar também já que vai comer. Corta ai essas verduras pra mim, bonitão.
Bem típico dela. Seria de espantar que ela continuasse calada.
A senhora sorridente enxugou as mãos em um pano de prato.
- Então já que tem mãos para te ajudar, eu vou sentar ali e assistir meu jornal. Quando a sopa tiver pronta me chamem e por favor Bianca, trate bem o moço, ele é nosso hóspede.
Ela saiu e nos deixou sozinhos na cozinha.
Ela se aproximou sorridente e colocou as mãos na cintura.
- Não sou tão boazinha como minha vó, então cuide de me ajudar com essa sopa.
Peguei a faca e comecei a cortar os legumes.
- Você tem um nariz muito empinado sabia mocinha?
Ela fez pouco caso.
- Sabia.
Sacudi a cabeça e me concentrei em cortar a cenoura e a batata em cubinhos.
- Você é piloto de avião mesmo?
Bom, eu sabia colocar um helicóptero no ar.
- Sim, sou.
- Eu tinha um trabalho, fui demitida hoje.
Ela falava com aquela calma?
- Trabalhava onde?
- No Atacadão Galvão.
Desgraça!
A faca resvalou e por pouco não decepou meu dedo fora. Meu coração ameaçou sair pela boca e eu senti o ar faltar. Fechei os olhos por um segundo e tentei fazer minha voz sair sem tremer.
- No atacadão... Galvão, você disse?
Ela continuava de costas mexendo no fogão.
- Sim, mas a vaca da gerente me demitiu hoje.
Ela chamou a Marta de vaca?!
- Por que foi demitida?
Ela se jogou na cadeira ao lado da mesa. Meu coração já estava recuperando as batidas.
- Sei lá, ela nunca gostou da minha cara e sempre achava um jeito de me reclamar. Hoje eu cheguei atrasa e ela me demitiu. Que culpa eu tenho de morar longe e ter que ir de bicicleta? Mas também eu não fiquei calada, eu disse um monte pra ela. Mandei ela enfiar o aviso prévio no cu e ela falou que ia contar a um tal de Anthony ai e eu mantei meter no dele também, estou cheia dessa gente rica que fica pisando nos funcionários. Só porque eu sou pobre, não quer dizer que vou abaixar minha cabeça pra essa raça. Você também é empregado. Aposto que seu patrão te explora não é?
Passei dois ou três minutos tentando processar tudo que a menina tinha despejado em um único folego. Meu Deus! Aquela menina era completamente louca e trabalhava na minha empresa. E Agora? Como eu me sairia daquela situação? Era obvio que ia dar m***a.
- Não, meu patrão não me explora não.
- Quem é seu patrão? É um empresário bem rico não é? Pra ter um helicóptero e um piloto particular.
Era melhor afundar o pé na lama de vez.
- É bem rico sim, eu trabalho com Anthony Benete, o dono do atacadão Galvão.