Capítulo IV - Bianca

1473 Palavras
Pensei não ter escutado direito. Ele trabalhava na mesma empresa que eu tinha acabado ser demitida? - Como é? Você trabalha com o dono do Atacadão Galvão? Ele levou as verduras para a pia e começou a lavar de costas pra mim. Costas bonitas. Largas e delineadas na camiseta de malha, que era igualzinha a anterior, mas de cor diferente. - Sim, eu sou o piloto do Sr. Anthony. Me aproximei dele eufórica e bati em suas costas. - Que legal, Caio! Nós somos colegas de trabalho! Quer dizer... éramos. Agora eu sou uma desempregada. Então você conhece aquela mulher não é? A Marta? Ele virou-se e me entregou o vaso com as verduras e eu coloquei na panela que fervia sobre o fogão. - Sim, conheço. - Ela é muito chata não é? - Sim, é. Despejei as verduras dentro da panela. - Aposto que não tem namorado. Ele riu. - E você tem? Era a segunda vez que ele me perguntava aquilo. Ele tinha gostado de mim? Encarei-o séria. - Não, os homens são uns escrotos, eu não quero namorar não. Ele segurou a colher que eu estendi pra ele e eu comecei a lavar os pratos. - Nem todos são escrotos. Você é muito nova pra estar com essa visão. - Minha vó fala isso. - Ela tem razão. - Vamos ver. Se eu achar um príncipe por ai. Por enquanto eu quero é recuperar meu emprego. Ei! Ele se assustou com meu grito. - O que foi menina? - Você poderia pedir pra seu chefe me recontratar? Você tem moral com ele, ou é um reles empregado mesmo? - Eu tenho um pouco de moral com o chefe, sim. - Então você poderia dizer que eu sou sua namorada e ai ele me recontrata. Ah! Mas você está noivo, esqueci. Ele tirou o prato da minha mão e começou a enxugar. - Eu não estou noivo, eu não fui ao jantar de noivado lembra? Na verdade eu nem sequer beijei a Lavínia. Meu pai é que inventou esse casamento s*******o. Olhei bem pra ele e deduzi que a tal Lavínia devia estar adorando se casar com ele. Quem não queria namorar um gostosão daquele? - Por que seu pai quer te forçar a casar? Ele demorou pra responder. - É coisa de família, você não entenderia. - Você engravidou a moça e quer fugir da responsabilidade? Ele deu uma gargalhada. Era um som alto e bonito. Uma risada que combinava com ele e mostrava os dentes brancos e certinhos. - Claro que não Bianca! Eu acabei de dizer que nunca tivemos nada um com o outro. Terminei de lavar os pratos e puxei o pano da mão dele, secando as minhas. - Aposto que essa Lavínia é doidinha por você, não é? - Porque diz isso? Bati de leve no braço dele. - Você é bonito Caio. Tem pinta de galã de novela. Acho que as mulheres ficam caidinhas por você. Ele me olhou de alto a baixo com um sorrisinho de canto. - E você? Quantos corações já arrasou por ai? Empinei o nariz. - Um monte, mas eu nem ligo. Eu sou uma menina muito má. Ele me olhou rindo de um jeito engraçado e balançando a cabeça. - Você é muito atrevida. Por isso que te demitiram. - Eu sou mesmo, não levo desaforo pra casa não. - Às vezes é preciso recuar um pouco, mocinha. Não respondi e desliguei o fogo. - A sopa está pronta, põe na mesa que eu vou chamar minha vó. Sentamos em volta da pequena mesa da cozinha e comemos em silêncio. No final da refeição minha avó juntou as mãos, fechou os olhos e fez a oração de todos os dias agradecendo pelo alimento que tínhamos e pedindo uma noite de paz. Acho que ele estava meio sem jeito acompanhando as palavras da minha avó e parecia que era a primeira vez que ele rezava em voz alta. Izabel levantou e começou retirar os pratos da mesa. - Podem ir conversar um poucos crianças, eu termino de arrumar a cozinha. Conversar o que? o que eu teria pra conversar com um estranho? Se bem que ele não tirava os olhos de mim e eu pressenti que ele queria estreitar um pouco mais o contato comigo. Será que eu deveria? Ele era lindo, parecia uma boa pessoa, era trabalhador como eu e éramos até colegas de trabalho. Que m*l haveria em flertar um pouquinho? Se eu beijasse um homem daquele minha amiga Carol ia morrer de inveja. Levantei e fiz sinal pra ele. - Vem, vamos tomar café lá na sala. Sentamos na varanda da casa em silêncio. Ele olhava o nada, forçando os olhos tentando ver na semi escuridão cortada pela pouca luz que vinha dos postes de luz da estradinha na frente do sitio. - Como é morar em um lugar desses? Acho que eu não me acostumaria. Respirei fundo e olhei para frente tentando entender como ele via aquilo tudo ali. Realmente, para um homem que chegou ali de helicóptero, olhar aquela imensidão de mato, sem traços da civilização deveria ser muito estranho. - Eu gosto. Na verdade, eu só conheço isso aqui, mas imagino que morar em um apartamento moderno também deve ser legal. Ele virou o rosto na minha direção. - Sempre morou aqui? - Sim. Ele voltou a ficar calado um tempo e eu aproveitei para observá-lo um pouco. Era um homem muito lindo. Tinha um rosto forte, marcado por uma barba rala que se concentrava no queixo e tinha uma boca de lábios cheios. O olhos dele tinha pequenas ruguinhas na lateral que o deixavam ainda mais bonito e as mãos eram grandes e marcadas por veias um pouco altas. Era o estereótipo de galã do mundo atual, mas tinha marcas que pareciam próprias dele. - Como foi trabalhar no Atacadão Galvão? Eu ri balançando a perna. - Foi em uma seleção que fizeram com menores aprendizes lá na escola. Eu fui selecionada antes de fazer dezoito anos, mas só me chamaram depois por que as vagas de menor tinham acabado. Ele pareceu surpreso. - Você só tem dezoito anos? - Acabei de fazer. - Hum - Hum o que? não entendi. Ele soltou uma gargalhada de novo. - Nada sua onça, só falei hum, porque pensei que fosse mais velha. - Eu pareço velha? Ele bateu o pé no chão irritado. - Não menina, foi só uma expressão, calma! Olhei a aeronave parada na frente da casa e imaginei que tudo aquilo parecia uma cena de filme ou de novela. - Como vai tirar esse avião daqui. Ele encolheu os ombros. - Vou ligar para meu amigo Ca... para um amigo e ele vai mandar alguém pra me ajudar. - Você vai falar com seu patrão para me recontratar? Eu não fiz nada de errado, só cheguei atrasada umas duas vezes. Ele me olhou sério. - Vai todos os dias daqui para trabalhar no mercado? - Sim, vou de bicicleta. Ele respirou fundo e chutou algumas pedrinhas no chão. - Deixa comigo, garanto que você vai voltar pra seu trabalho. - Sério? Você acha que seu patrão vai atender se você pedir? - Vai, eu garanto. Ele tirou o celular do bolso e me estendeu. - Anota ai seu número, eu te ligo amanhã. Fiz o que ele pediu e salvei meu número no celular dele. Um celular de última geração. O piloto de um empresário rico devia ganhar bem. Ele pegou o telefone de volta e olhou a tela sorrindo. - Posso mandar mensagem te convidando pra sair? Engoli em seco, porque confesso que pensei nisso quando estava anotando meu número. - Mandar até pode, só não sei se eu vou aceitar. Dessa vez eu ri junto com ele. - Ah Bianca, você é uma figura. Levantei e chutei o pé dele. - Vamos entrar, vou arrumar uma cama pra você dormir. Nossa casa era pequena e além do meu quarto e da minha avó, só tínhamos mais um que fazíamos de quarto de bagunça. Tudo era devidamente arrumado e a cama estava sempre pronta para alguma visita. Ele olhou lentamente o ambiente e eu imaginei que talvez aquilo fosse simples demais até para um empregado de uma grande empresa. - Desculpe, mas não temos muito luxo aqui. Ele apertou os lábios. - Tem pelo menos um ventilador? - Isso tem, vou buscar. Ele encaixou o ventilado na tomada e virou pra mim. - Só isso? - Só. Queria mais alguma coisa? Ele virou as costas e sentou na cama. Parecia meio estranho e tinha ficado serio de repente. Acho que ele tinha se assustado com a simplicidade do quarto. - Não. está tudo bem. - É... então... boa noite Caio. Ele respondeu sem me olhar. - Boa noite Bianca.
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