O Caio abriu a boca para falar e fechou de novo caindo no sofá balançando a cabeça.
- Não! você ta de brincadeira comigo não está?
Passei a mão pelo cabelo pela milésima vez e dei mais uma volta dentro do meu escritório.
- Eu também queria estar brincando, mas te contei tudo sem tirar nem pôr uma vírgula.
- Cara, o que d***o deu em você?
Parei e sentei na minha cadeira jogando a cabeça para trás e fechando os olhos.
- p***a irmão, foi acontecendo tudo de uma vez e eu não conseguia raciocinar direito e quando eu menti meu nome, ai sim, foi tudo por água abaixo.
Caio ficou um minuto em silêncio.
- Para começar, porque pegou o helicóptero sozinho? Você poderia ter morrido seu louco.
- Eu sei, foi um ato meio maluco.
- Mas até ai, vá lá, você pilota muito bem. Mas a sequência de fatos cara, foi maluquice total!
Apertei as têmporas que latejavam desde às cinco da manhã, quando acordei naquela casinha de boneca e sai de lá uma hora depois quando meu piloto chegou com o combustível e um mecânico.
- Eu sei, mas eu pensei que alguém poderia me reconhecer e quis passar despercebido.
Caio riu nervoso.
- E tinha que dizer que seu nome era Caio p***a! podia dizer qualquer coisa!
- Eu achei que pela manhã iria sair dali e esquecer essa história.
Caio franziu a testa.
- Mas você vai esquecer essa história!
Bastou um olhar pra mim para o Caio entender que a história estava apenas começando.
- Anthony... pelo amor de Deus, você não ta pensando em...
Levantei a mão.
- Pode parar, eu vou ajudar a moça sim!
Caio levantou e se aproximou batendo na minha mesa com a punho fechado.
- Esquece isso, ela vai descobrir quem é você, deixa essa menina lá.
- Eu vou dar o emprego pra ela de volta. Ela precisa.
Ele me olhou sério.
- É só o emprego não é? Me diga que você não está pensando em levar a moça pra cama?
Levantei irritado.
- Que moça homem? Ela é só uma menina e acabou de fazer dezoito anos.
Ele riu irônico.
- Que eu saiba você já pegou meninas de dezoito anos.
- Eu pelo menos espero fazer dezoito e você que comeu minha irmã com dezessete!
- Não desvie o assunto, estamos falando de você e essa tal de Bianca ai.
Comecei a andar de novo em círculos pela sala.
- m***a, eu preciso consertar essa mentira.
- Conserte mesmo, e já, antes que essa m***a respingue em mim também.
- Meu pai já chegou? Ele falou alguma coisa sobre o jantar?
- Já chegou e tem mais. A Lavínia está ai também.
- Inferno!
Betânia adentrou a sala do jeito agoniado de sempre.
- Anthony, beba água e corra para a sala do seu pai. O homem está uma fera.
Respirei fundo e marchei para meu abatedouro com o Caio atrás de mim.
Ele estava andando de uma lado pra outro feito um leão enjaulado. A Lavínia estava sentada mexendo no celular. Não parecia tão nervosa para uma quase noiva que foi largada no jantar de noivado.
A Lavínia era uma incógnita. Era filha do sócio do meu pai e tinha vinte e cinco anos. A garota era bonita. Bonita até demais. Andava arrumada feito uma modelo e as unhas sempre impecáveis. Os cabelos loiros sempre escovados e o rosto coberto de maquiagem. Ela não estudava e não trabalhava e eu não sei como ela aguantava viver de loja em loja comprando roupa e se exibindo em vídeos na internet. Era a futilidade em pessoa e eu jamais namoraria com uma mulher daquelas, imagine casar com ela. No entanto éramos amigos desde criança e eu devia pelo menos respeito a ela e a família dela.
- Oi pai...
Ele avançou pra cima de mim, vermelho de raiva.
- Seu irresponsável! O que você fez?!
Me desviei dele e sentei calmamente na cadeira em frente à mesa abarrotada de papeis.
- Calma pai, morreu alguém?
Ele parou ao meu lado trincando os dentes.
- Eu vou te m***r!
- Tá, melhor o senhor me m***r do que eu mesmo me suicidar. Eu não quero casar com uma mulher que eu não amo... perdão Lavínia.
Fiz um sinal de desculpa e ela apenas torceu os lábios. No fundo, acho que nem ela queria casar daquele jeito.
- Custava dizer que não ia?
Olhei serio pra ele.
- O senhor ia concordar? Não. Então não falei.
- Onde você foi com meu avião?
O Caio resolveu se meter, para desgraçar ainda mais aquela tragédia.
- Ele pousou em um sitio e dormiu por lá.
Virei e o fuzilei com o olhar.
- Pousou onde?!
- No sitio encantado...
- Cala a boca Caio!
Anthony Benete estava a ponto de enfartar.
- Se explique para a Lavínia, você fez uma desfeita enorme para a moça.
Olhei para ela entretida no celular.
- Tem certeza que ela se incomodou tanto com isso?
Ela levantou o olhar distraída.
- Estavam falando comigo?
Levantei a sobrancelha e encarei meu pai com um sorriso meio cínico.
- Meu pai quer que eu te peça desculpas por não ter ido dizer que aceitava casar com você.
Ela fez uma cara amuada.
- Você me deixou quase no altar.
- Você quer casar com um cara que não te ama? Tem certeza disso?
O Caio tossiu.
- Quem vai gostar é o Fred.
Todos viraram pra ele, menos a Lavínia.
- Quem?!
Ele fez uma cara de inocente.
- Pergunta pra ela quem é o Fred.
Ela levantou alheia a todos os olhares curiosos sobre a existência de um possível namorado dela.
- Gente, eu posso ir embora?
Meu pai estava branco e não esboçou nenhuma palavra até a porta do escritório bater diante de duas bocas abertas e de um sorriso divertido do Caio.
Anthony Benete caiu sentado e fechou os olhos.
- O que foi isso?
Cruzei as pernas calmamente na frente dele.
- Minha libertação. Ao que parece a Lavínia desistiu de me perseguir.
- Vocês vão me m***r, não vão?
- Relaxa pai, vamos focar no casamento do Caio, ou você esqueceu que a Gabi está grávida?
Ele fuzilou o Caio com o olhar.
- Eu deveria te deserdar seu m***a.
Ele sorriu.
- E vai deixar sua filha pobre?
Até meu pai fez um sinal de riso meio disfarçado.
- Quer saber de uma? Vamos trabalhar.
Levantei e apoiei as mãos em cima da mesa dele.
- Desculpa pai, mas você entende meu lado não é?
Ele me encarou sério. Agora eu sabia que era meu pai ali me encarando e não o empresário Anthony Benete.
- Apesar de estar com vontade de apertar seu pescoço, eu entendo, mas não me irrite de novo e apareça hoje pra jantar em casa.
- Hoje eu vou, hoje é jantar de família. Eu te amo pai, você sabe.
Ele revirou os olhos.
- Suma daqui, eu quero falar sozinho com o Caio.
Belisquei o nariz dele.
- Vou falar com a Marta, ela está esperando na minha sala.
- Algum problema na loja dela?
Tentei disfarçar.
- Não, só alguns ajustes de pessoal mesmo.
Ele me apontou o dedo.
- Já sabe hein? se não se enquadrar no serviço, troca e contrata outra pessoa.
- Vou fazer isso.
Caio deu a última tacada dele. Eu ainda ia enforcar o Caio.
- Ouviu né Anthony, contrata OUTRA pessoa.
- Vai se f***r Caio.
Atravessei o longo corredor que interligava minha sala com a do meu pai e encontrei a Marta sentada à minha espera.
Marta era uma espécie de tia e prima. Foi criada pelos meus avós maternos e nunca casou e nem teve filhos. Minha mãe tinha exigido que meu pai a empregasse e há mais de dez anos ela mandava e desmandava na loja em que era gerente. Ela não ia gostar do meu pedido.
- Oi Marta, tudo bem?
Ela me abraçou calorosamente.
- Oi filho, o que aconteceu para me chamar aqui. Quase nem lembrava mais o caminho desse prédio.
Sentei e respirei fundo.
- Então, eu sei que houve uma demissão esta semana...
Ela me olhou confusa.
- Como assim, uma demissão essa semana? Nós demitimos e contratamos quase toda semana.
Limpei a garganta.
- Mas essa eu quero discutir melhor.
Ela se remexeu na cadeira um pouco inquieta.
- De quem está falando?
Bati os dedos na mesa, tentando soar menos preocupado do que eu realmente estava.
- Uma moça chamada Bianca.
- Ah! Aquela desaforada? Você a conhece?
E agora?
- Um amigo meu conhece e me pediu pra reconsiderar.
Marta levantou irritada.
- Menina m*l educada, nariz empinado. Eu não gostei dela.
Mas vai ter que engolir.
- Bom, eu quero que você a recontrate.
Ela me olhou contrariada.
- Tem certeza?
- Tenho. Ela trabalhava no caixa não era?
- Sim.
- Então eu quero ela em outro lugar.
Ela entendeu errado.
- Pelo menos isso. Coloco onde? Pra arrumar prateleiras?
Encarei-a sério.
- Não. Coloque como chefe de setor.
Ela arregalou os olhos.
- O que?!
- E dobre o salário dela.
- Anthony, você sabe quanto ganha um caixa na nossa empresa?
- Não. Quando ganha um caixa na nossa empresa?
- Dois salários mínimos!
- Só isso? Então triplique o salário da moça.
- Mas...
Levantei dando a reunião por encerrada.
- Ligue pra ela hoje e diga pra voltar amanhã, combinado?
Ela resmungou juntando os papeis.
- Eu sou contra.
- Mas eu não.
Ela me olhou de cara f**a.
- Mais alguma coisa?
- Sim, não diga que eu pedir isso. Faça como se você tivesse voltado atrás pode ser?
- Tenho escolha?
- Infelizmente não.
Ela virou antes de sair.
- Deixa seu pai saber que você está dando emprego para suas fodas.
E bateu a porta.