- Desculpe, eu não entendi. A senhora me chamou pra me recontratar e agora eu sou chefe de setor, é isso mesmo?
Eu ainda estava meio tonta com os últimos acontecimentos do dia. Na noite anterior, a Sra. Gerente chata dona Marta, me ligou e praticamente me convocou a voltar imediatamente ao serviço. Eu fiquei feliz? Sim. Me arrumei em tempo Record, peguei uma Van e cheguei pontualmente às 08:00h. A surpresa foi ser chamada ao escritório e ser informada que meu status de caixa, tinha magicamente mudado para chefe de setor.
- Isso mesmo, agora você é a responsável pelo setor de limpeza. Todos os funcionários daquela área devem se reportar a você e você traz as demandas para mim.
Ela tinha bebido?
- A senhora está bem?
Ela me olhou como se fosse capaz de me transformar em ** a qualquer momento.
- Estou ótima e gostaria que não me trouxesse problemas para que eu continue assim.
Fiquei calada.
- Seu salário também muda com o cargo, é claro.
Tentei parecer o mais natural possível.
- Muda? E para quanto?
Ela torceu os lábios.
- Três vezes o anterior.
Meu estomago revirou e eu balancei a perna tentando controlar o nervosismo, mas não ia dar o gostinho dela me ver nervosa.
- Ah é? Que ótimo.
Ela deu uma risadinha meio cínica.
- Só tem isso a dizer?
- Quer que diga o que?
- Agradecer pelo menos, mocinha ingrata.
- Obrigada.
Será que tudo aquilo foi o Caio que falou com o chefe dele? Ele tinha aquele poder junto ao chefe? Ao que parece sim, por que nem fodendo eu ia acreditar que aquela mulher voltou atrás por si só. Ela estava contrariada demais e parecia que estava fazendo aquilo por que foi obrigada. Bem feito.
Eu precisava agradecer ao Caio por ele ter intercedido a meu favor, mas só agora eu me dei conta que eu tinha dado meu telefone a ele, mas ele não tinha me dado o dele. Como eu iria falar com ele?
- A senhora sabe como eu posso falar com o Caio?
Ela parou o que estava fazendo e me olhou de forma estranha.
- Falar com quem?!
- Com o Caio. Ele não trabalho com o Sr. Anthony?
- De onde você conhece o Caio?
Por que ela estava tão surpresa? Será que ele era casado? Era melhor consertar logo a situação.
- Não conheço exatamente, ele é amigo de um amigo e preciso dar um recado pra ele.
- Pode me dar que eu passo o recado.
-É que é algo meio pessoal, sabe.
Ela fechou a agenda com força.
- O Caio não recebe visitas pessoais de funcionários. Ele fica no escritório central. Se quiser deixa o recado comigo.
Vamos ver se não recebe!
- Tudo bem, deixa pra lá. Posso ir?
- Deve ir. Vou ficar de olho em você pra ver se tem condições de exercer esse cargo.
Revirei os olhos.
- Eu vou dar um Show e a senhora vai enfiar sua língua no...
Ela me fuzilou com o olhar e eu resolvi engolir a palavra. Era melhor não arriscar aquela chance de poder trabalhar de novo.
- Fora daqui garota impertinente.
Rebolei até a porta.
- Tchau dona Marta!
Carol me esperava no corredor. Era a hora do seu descanso para o lanche e ela me seguiu doida para ouvir as novidades.
- E ai? Ela te recontratou mesmo?
- Sim. E pode desmaiar, mas ela me colocou como chefe de setor e triplicou meu salário.
Ela fez um OOO com a boca.
- Bianca! O que você fez? Trepou com o chefe?
Estanquei rindo.
- Quem dera, mas eu nem conheço esse chefe e ele deve ser um velho todo pelancudo. Ninguém com menos de sessenta anos tem um rede de supermercados não é, Carol?
- É Verdade, então por que ela fez isso?
Entramos na copa reservada para o lanche e descanso dos funcionários.
- Eu não te contei do cara lá do helicóptero?
- Sim, o gostosão chamado Caio.
- Isso. Ele é piloto do chefe e eu falei brincando pra ele pedir pra me recontratar e parece que ele fez isso mesmo.
Carol sentou e abriu o refrigerante. Todos os funcionários tinham direito a um lanche composto de um pastel e um suco ou refrigerante. Eu preferia levar minhas frutinhas de casa.
- Ele deve ser MUITO amigo, pra te mudarem de cargo e triplicarem seu salário, ele deve ter ficado a fim de você.
- Eu preciso falar com ele pra agradecer.
- Agradecer, hum... conta outra, você quer é encontrar com ele.
Rimos juntas.
- Também. Você sabe onde fica o escritório central da empresa?
- Morre quem souber. Eles não falam pra ralé não.
- Eu preciso descobrir.
- Não vai lá não, eles podem não gostar.
- Que nada! O Caio é empregado também. Eu mando chamar ele.
- Você é doida Bianca, isso sim.
- Doida nada, eu só faço o que eu quero fazer e eu vou achar o Caio.
Terminamos o lanche e eu fui conhecer meu novo ambiente de trabalho. Confesso que eu não estava com medo. Eu sabia o que um chefe de setor fazia: conferia se as prateleiras estavam organizadas, se estava faltando produto, se algum cliente procurava algo e não encontrava etc...eu ia dar conta do serviço. O pessoal daquela seção me olhou meio de lado sem entender como eu pulei de cargo em um estalar de dedos, mas o que eu podia fazer se nem eu mesma sabia? Minha maior preocupação agora nem era o cargo novo, era descobrir o endereço desse bendito escritório central e a oportunidade surgiu no meio da tarde quando Marta chamou um dos funcionários da minha seção e entregou um envelope a ele. Seria para levar no escritório? Aquele rapaz era um dos que fazia serviços para a Marta e parecia de confiança dela. Esperei ele sair para o estacionamento e fui atrás dele.
Ele já estava subindo na moto.
- Ei Felipe, espera!
Ele tirou o capacete.
- Que foi garota?
- Você vai onde?
- Vou entregar um documento para o chefe, por que?
Tirei meu celular do bolso.
- Faz um favor pra mim e não me pergunta nada. Leva meu celular e na volta você me entrega.
Ele franziu a testa.
- Porque?
- Falei pra não perguntar, leva logo.
Ele sorriu enfiando o celular no bolso da jaqueta.
- Você me deve uma, eu vou cobrar.
- Ta, depois eu pago, não tira do bolso e me entrega na volta.
- Você está aprontando, mas vou fingir que não sei de nada.
- Vai logo e não demora.
O Felipe demorou umas três horas e chegou quase no meu horário de saída. Eu esperava nervosa no estacionamento e corri assim que ele parou a moto.
- Me da o celular.
Ele me estendeu o aparelho.
- Você foi onde mesmo?
Ele sorriu pendurando o capacete no guidão da moto.
- Já falei que fui entregar um documento para o chefe.
- Na casa dele?
- Não maluca, no escritório.
- Tá bom, obrigada.
Ele se aproximou rindo.
- Agora eu quero um beijo.
Empurrei o rosto dele de perto do meu.
- Se enxerga Felipe, você tem namorada.
Virei as costas e sai correndo do estacionamento. Peguei minha bicicleta e fui direto para um ciber perto do supermercado. Um amigo trabalhava ali e ele era fera em computação.
- Oi Paulo, preciso de uma favor.
O Paulo era um dos meus melhores amigos. Tínhamos estudado juntos durante todo o ensino fundamental e conseguimos o trabalho juntos na seleção para menor aprendiz: eu no supermercado e ele ali no Ciber, para dar manutenção nos computadores.
- Diz ai Bia, o que quer?
Entreguei meu celular pra ele.
- Quero que descubra os locais exatos onde meu celular esteve nas últimas três horas.
Os olhos dele brilharam. O Paulo adorava bancar o detetive cibernético e uma vez ele invadiu os computadores da escola e copiou a prova de matemática. O professor descobriu, é lógico e ele foi suspenso por três dias e pagou uma multa.
- O que está aprontando sua doida?
- Quero descobrir um endereço.
Ele conectou meu celular ao computador e mergulhou na pesquisa. Meia hora depois me entregou uma folha impressa com quatro locais onde o celular parou. Dois minutos nos três primeiros e uma hora no quarto, ou seja, três sinais e o escritório. Bingo.
- Beleza Paulinho! Te devo uma.
- Vamos sair no fim de semana? A galera vai pro clube tomar banho de piscina.
- Vamos sim.
- Valeu gata.
Sai do Ciber e olhei o relógio: 18:00. Daria tempo? Era melhor deixar logo para o dia seguinte. O Caio já devia ter saído de lá.
Calma Bianca, o difícil foi o endereço e você já conseguiu. Amanhã você vai atrás dele.