— bom dia pessoal, para aqueles que não me conhecem, eu sou a professora de ciências, me chamo Francis.— fala a mulher baixinha sentada em frente a turma. Há hibridos de tudo quanto é tipo na minha turma. Estou sentado na ultima cadeira de uma das três fileiras do meio.
— ele é uma híbrida de coruja, e tem o dom da inteligência — Ruy sussurra para mim da cadeira da frente.
— ah, deve ser por isso que ela é professora.— murmuro de volta, observando a enorme e iluminada sala ao nosso redor, a parede à minha direita é quase toda de vidro, nos dando uma bela visão da floresta que se espalha até onde nossos olhos alcançam.
— sim. Há apenas um dos professores que não tem esse dom. Ele é nosso professor de esportes.
— ah, deve...
— ESSA CADEIRA É MINHA! — sou interrompido por uma voz grave e grossa. Movo meu olhar que até então estava no rosto de Ruy para o dono da voz. Dou de cara com dois olhos negros vibrantes, tão negros é impossível distinguir as íris das pupilas.
— o-o que? — pergunto, saindo do transe.
— essa cadeira é minha — diz o garoto que deve ter uns dois metros, Cabelo tão preto quanto os olhos, de onde sai duas orelhas felinas do mesmo tom. O encaro de cima abaixo. A pele bronzeada, os musculos rígidos e a cauda n***a que se move freneticamente atrás dele...
— VOCÊ É s***o?!— grita, cruzando os braços.
— n-não...— olho para Ruy, e capto a súplica em seus olhos: sai dessa cadeira agora!!!!!
Pego meio sem jeito o livro de ciências que está sobre a mesa e saio da cadeira. A sala toda está em silêncio, até mesmo a professora. O i****a se joga na cadeira de qualquer jeito. Espero que tenha uma baita dor de coluna. O Amaldiçoo internamente.
— ahn... Sente aqui— fala a professora apontando para a cadeira vazia na frente. Encarando o chão e caminho até a cadeira morrendo de vergonha, Ignorando os risinhos lá do fundão.
— você é o Thomas, certo? — pergunta a professora bem baixinho, de modo com que só eu consiga ouvir.
— sim. — digo com um certo alívio. E então ela faz o que eu temia:
— pessoal, esse é o Thomas. Um híbrido de leão — fala bem alto, para todos escutarem. Por que isso sempre acontece com os alunos novos!? Agora posso dizer que estou vivendo um livro adolescente no qual isso sempre acontece. O garoto novo é tímido, a professora apresenta ele, depois vira motivo de piada... A diferença é que os mocinhos(as) dos livros sempre viram o jogo. O que não tenho certeza se vai acontecer no meu caso.
A realidade é tão decepcionante, tão limitada...
— parece mais um híbrido de urso. De pelúcia. – fala alguém lá fundo, fazendo todos ao meu redor gargalharem e fazendo-me me encolher mais ainda.
— mais respeito pessoal! Agora eu quero ordem aqui — fala a professora com a voz neutra, o que não cala a maioria das vozes. Noto que ela é afeiçoada a palavra “pessoal”.
— você não tem um dom, não é thomas? — pergunta ela, de forma simpática. n**o com a cabeça.
— como esperado — a voz irritante continua fazendo piadinhas! O que desencadeia outra onda de risos.
Olho para trás, tentando achar o autor dessas gracinhas, e dou de cara com um par de olhos negros me encarando. Ele está com um sorriso sarcástico no rosto e uma garota morena no colo. Me pergunto se isso é permitido ou se a professora apenas está com medo de interferir naquilo.
— como vocês sabem, a nossa escola é feita para todos, independentemente se eles tem dons ou não. Bem vindo à escola Thomas — ela continua, ignorando a falta de vergonha que está acontecendo lá atrás. A mulher baixinha volta para sua mesa e dá início a aula.
(****)
— ... ninguém sabe ao certo quando e como nossas características de animais surgiram. — explica a professora – o que sabemos é que, elas são passadas de geração para geração, geralmente pelo gene dominante. Ou seja: se um híbrido de gato e uma hibrida de cachorro tiverem um filho, o gene do homem será predominante, nascendo assim outro híbrido de gato, mas à casos raros em que isso não acontece, e o filho pode ter as características da mãe. Também podemos ter diferentes níveis de “hibricidade” se é que isso é uma palavra. Eu por exemplo, não tenho nenhum característica visível de que animal sou uma híbrida, mas se olhar de perto pode ver que eu tenho olhos de coruja. Essa pequena característica já me faz uma híbrida. — os alunos estão todos calados prestando atenção na aula, até os espertinhos do fundo estão ouvindo.
A professora vai até o armário no canto da sala, onde pega uma pequena máquina e volta para sua mesa.
— a grande maioria de vocês tem as orelhas correspondentes ao animal do qual derivaram, essa é a característica mais comum de todas, outros podem ter uma cauda, chifres... E várias outras. Mas o mais raro de todos são os dons. Estão vendo isso? — diz levantando a pequena máquina metálica de formato retangular com a mão — isso é uma pequena invenção desenvolvida para medir quantos por cento de cada um de vocês é... Animalesco. Digamos que ele mede a quantidade de características de animais vocês tem. Basta apenas colocar o polegar aqui. — ela aponta para a engenhoca.
— querem tentar? Não dói nada. – quando ninguém se voluntaria, ela continua:
— olhem, eu vou testar em mim.— ela coloca a máquina na mesa e coloca o dedo nela.
32% híbrido. Fala uma voz robótica vindo do aparelho.
— viram? E Isso é porque eu eu só tenho olhos diferentes e um dom. Querem tentar?— dessa vez, a maioria da sala levanta a mão.
— Aaron? Poderia nos dá a honra? – chama a professora. Olho para trás tentando ver quem é o tal Aaron. Então o i****a que me expulsou da cadeira tira a garota de seu colo e caminha até a mesa da professora.
— quais são suas características? – pergunta Francis, querendo que ele fale para toda a classe.
— eu sou um híbrido de pantera n***a, tenho uma cauda, essa orelhas, presas e o dom de controlar sombras – ele explica, estufando o peito de tanto orgulho por ter tantas características.
As garotas soltam alguns suspiros. Bando de idiotas.
— coloque o dedo aqui por favor.— O desgraçado assente levemente com a cabeça e ergue a mão para fazer o que foi pedido.
43% híbrido. A voz robótica fala novamente. Ele volta sorrindo para sua cadeira, mas não sem antes me lançar um sorriso debochado. MAS QUE FILHO DE UMA p**a!!
— Scott.— chama a professora, então um garoto alto e forte do cabelo castanho caminha até ela.
— qual são suas características?
— eu sou um híbrido de uso, tenho essas orelhas e super força.
39%híbrido.
— Ruy?
— eu sou um híbrido de coelho, e só tenho essas orelhas mesmo. – fala meu novo amigo, um tanto constrangido.
20%híbrido.
Há alguns risinhos ecoando pelas sala enquanto ele volta para a sua cadeira. Quero rasgar a cara de cada um desses malditos.
Os garotos continuam indo e recebendo diferentes níveis. 22%, 25%, 31%, 39%... Apoio meu queixo nas mãos, super entediado enquanto observo um por um os alunos demostrarem seus atributos.
— Thomas?— sou tirado do meu quase sono pela voz da professora. m***a.
— s-sim?
— faça as honras — Levanto meio nervoso e vou em direção a mesa. Sentindo o nervosismo emanar de mim, fazendo minha cauda ficar agitada dentro da camisa.
— aposto cinquenta pilhas de que é menos que 15%. — fala o i****a lá atrás.
— sério? Apostado.— responde scott, o garoto hibrido de urso, que aparentemente é seu amigo. Coitado.
— você só tem orelhas e presas, certo?— pergunta a professora. Não ouso negar ou assentir, então apenas Coloco o dedo na máquina, morrendo de nervosismo.
73%híbrido.
E BUUUM, a bomba nuclear caiu. O que eu temia aconteceu. Mas pelo menos isso serviu para calar toda a sala. Olho por cima dos ombros e encaro Ruy, que me olha espantado, assim como todos da sala.
— errrr... Acho que a máquina está quebrada. Tente novamente.— diz a professora. Coloco o dedo novamente na máquina.
73%híbrido. Estremeço ao ouvir a voz robótica novamente.
— p-professora, acho que não está funcionando direito.— intervenho antes que alguém desconfie de mim.
— estranho. Estava funcionando. Perfeitamente.— ela continua, alternando o olhar entre mim e a máquina. Dou de ombros e volto para minha cadeira, tentando não deixar o nervosismo transparecer.
— bom, já que esse treco não está mais funcionando, irei explicar outro assunto. Agora vamos para a fisiologia do seus corpos. Como cada um de vocês derivou de um animal diferente, a fisiologia de cada vocês são completamente diferentes se comparadas umas com as outras, mas há algumas semelhanças se levarmos o parentesco dos animais. Vejamos...— ela olha para cada aluno da sala – Thomas, Alissa, Juniel e Aaron. Venham aqui na frente por favor. — affs! De novo! Levanto um pouco atrapalhado e vou até lá novamente.
Ela nos faz ficar lado à lado antes de continuar.
— como podem ver, há uma pequena semelhança entre eles. O motivo é que os animais do qual derivam são... Primos, digamos assim. O juniel é um híbrido de lince — ela aponta para o garoto alto ao meu lado, que tem mechas pretas e brancas no cabelo, de onde saem duas orelhas parecidas com as minhas, só que possuem um pequeno tufo de pelos em cima, exatamente igual a dos linces.
— Alissa de gato — continua a professora, apontando para a garota morena que empina os s***s para o escroto ao seu lado.
— Aaron de pantera e Thomas de leão. Vejam que todos esse animais se assemelham. As orelhas tem o mesmo formato e as presas também são parecidas. Agora podem ir sentar garotos. Eu só queria dá um exemplo. — vou para minha cadeira aliviado.
— isso também ocorre entre mim e as gêmeas – ela aponta para as duas garotas idênticas de cabelo azul lá atrás.— que são derivadas de pavão, que é ave assim como as corujas. Notem que elas tem olhos semelhantes aos meus...— ela continua explicando detalhadamente e dando exemplos, até que o sinal toca. Hora do intervalo.
(***)
— aqueles garotos são com quem você nunca deve mexer— Ruy sussurra para mim, enquanto devoro meu lanche.
— por que?— pergunto depois que bebo uma grande quantidade de leite.
— lembra o que te disse antes da aula começar? Eles se acham donos do lugar, nunca fale ou insulte um deles, okay?
— okay.— olho para a mesa em que essa galerinha está sentada. O tal Aaron está com uma garota no colo, mas já não é a mesma da sala. Ela beija o seu pescoço, enquanto ele conversa animadamente com os outros garotos.
— o Aaron é um i****a. — Ruy fala o óbvio, percebendo meu olhar. — ele já dormiu com todas as garotas dessa escola.
— credo. — exclamo, incrédulo.
— e ainda dizem que são os coelhos que transam muito — noto sua referência sarcástica, já que ele é híbrido de coelho e então começo a rir sem parar.
— você é louco!— digo entre as risadas, tampando inutilmente a boca com a mão e olhando para os lados rapidamente para ver se alguém está escutando nossa conversa.
— as melhores pessoas são. — diz rindo também. Paro de ri e noto a referência literária.
— espera! Você leu esse livro!?— pergunto exaltado.
— sim.— responde com um sorriso simpático. Alice no país das maravilhas Um livro feito por humanos. Eu comprei um de um mercador que atravessava os portais em busca de inovações. O livro era sensacional, mas tive que me desfazer dele, já que coisas assim, feitas diretamente por humanos não são permitidas. Outra hipocrisia, já que praticamente tudo hoje é de alguma forma, ligada às coisas humanas.
— como você conseguiu??
— eu achei um exemplar super velho nas coisas do meu pai.— responde entre as garfadas de cereal.
— você ainda tem?— pergunto curioso.
— sim, tá lá em casa, no porão, provavelmente. se quiser eu te empresto depois.
— claro que eu quero!— então ele gosta de ler. Ruy já conseguiu mais 5 pontos comigo.
— atenção.— fala uma voz no auto-falante da parede — à partir de hoje, vocês terão que seguir um toque de recolher, não quero ninguém fora de suas casas depois das 7 horas da noite. E aquele que não cumprir essa regra será suspenso da escola. — termina a voz que acho ser do diretor.
— por que isso?— pergunto para Ruy. Sua orelhas movem-se para os lados antes dele responder.
— err... Eu não queria te assustar, já que é seu segundo dia aqui. Mas já assassinaram dois híbridos, dentro de um mês.— estremeço com a notícia.
Dois em um mês?! Não há assassinatos há anos, as mortes sempre são de alguma causa natural ou acidente. Embora tenhamos uma parte animal, não somos tão selvagens assim a ponto de m***r aos outros.
— n-nossa. Quem morreu??
— uma garota híbrida de gato, eu a conhecia, ela era muito simpática. E um garoto híbrido de tigre, eu não o conhecia...
— nossa.— repito.
— deve ser por isso que o diretor nos quer em casa à noite.— balanço a cabeça, afirmando. E então termino meu lanche, sem tirar esses assassinatos da cabeça.