A primeira coisa que faço quando chego em casa é livrar minha cauda da camisa longa que a escondia, ela move-se freneticamente, enfim livre.
Já passa das três da tarde, e estou morrendo de fome, apesar de ter comido bastante na escola. Agradeço internamente por ter aquecedor na casa e vou para a cozinha. Abro a porta da geladeira e dou uma checada no seu interior. Queijo, leite, iogurte, carne, ovos, frutas, suco... Pego o queijo e o presunto, colocando-os no balcão, depois vou até o armário da parede onde tenho quase certeza de que ainda tem pão, apesar de eu ter comprado ontem mesmo.
Com sorte, ainda tem alguns.
Faço dois mistos improvisados e os colocos no microondas, ajustando o timer para um minuto apenas, acho que será o suficiente. Coloco um pouco (muito) de leite em um copo e sento no balcão, esperando o lanche ficar pronto, enquanto bebo o leite.
(***)
Quando enfim escuto o barulhinho do microondas, o que parece ser uma eternidade depois, já bebi dois copos de leite e estou no terceiro. Pulo do balcão e caminho até o forno com uma certa agilidade felina, que infelizmente só se manifesta quando não preciso dela. Abro o microondas e tiro os dois mistos, depois volto para o balcão e devoro tudo em menos de cinco minutos.
Posso comer um boi inteiro e não engordo uma simples grama, agradeço mentalmente por isso, senão eu já estaria com uns 500 quilos, se isso é possivel.
Olho em volta, morrendo de tédio. Preciso achar algo para fazer urgente! Embora tenha um monte de livros para ler ainda, não posso resumir minha vida apenas nisso.
Pulo do balcão e saio de casa, lembrando-me de esconder a cauda, como sempre. Não sei ao certo aonde ir, só queria sair mesmo de casa.
As ruas parecem ser muito movimentadas à tarde, há híbridos andando por tudo quanto é lugar. Avisto as gêmeas do cabelo azul que estudam comigo. As duas estão de braços entrelaçados com Aaron, uma de cada lado, enquanto eles caminham pela calçada rindo e se pegando publicamente.
Acho que ele curte uma orgia.
Rio com esse pensamento involuntário, chamando a atenção deles. m***a! Dou meia volta e entro em outra rua qualquer, que está desértica. P-o-r-r-a.
— vai para onde leãozinho??—diz uma das garotas. Ignoro-as e continuo andando.
Então algo estranho acontece.
Começo a levitar do nada! Suspenso no ar sem ter para onde correr. Magia. As duas garotas agora estão de mãos dadas, se concentrando para me manter no ar.
O dom delas é controlar é controlar a gravidade. Lembro-me do que a professora disse. Mas o poder delas é limitado, as duas tem que se concentrar muito para levantar algo pesado como eu...
— você estava sorrindo de que??— pergunta o i****a com um sorriso sarcástico no rosto, enquanto se aproxima e fica dando voltas em torno de mim.
— d-de nada— respondo tentando descer, mas nunca aprendi nada sobre meus dons sobre a gravidade.
— sério?? Não me diga. Talvez isso seja um hábito de onde você vem, ou talvez você seja maluco.— ele sorri enquanto debocha, mostrando seus dentes super brancos.
— m-me põe no chão!
— ou você vai fazer o que?— ele não espera eu responder- garotas, coloquem ele de cabeça para baixo. não não não...
Eu começo à me inclinar para a frente bem devagarinho, até que eu fique totalmente de cabeça para baixo.
— ME PÕE NO CHÃO!!— grito sem gaguejar dessa vez. Então minha camisa folgada desliza para baixo, revelando minha barriga... e consequentemente minha cauda.
— oooh. O leãozinho tem uma cauda.— diz encarando sem parar minha cauda que pende ao contrário, roçando no meu pescoço.
— sim, e daí??! — grito, já com a raiva tomando conta de mim.
— é melhor não falar assim comigo.— avisa sem tirar o sorriso debochado do rosto. Ele se aproxima mais de mim, ficando apenas alguns centímetros de distância e fazendo com que eu tenha que ficar com a cara na mesma altura que sua virilha.
Tento empurra-lo para longe, mas é como se uma força invisível me segurasse pelos braços. Ele estende a mão e segura minha cauda, enrolando-a em torno do braço.
— NÃO TOCA EM MIM SEU DESGRAÇADO!
— de novo, ou você vai fazer o que?
— e-eu... Eu... Eu vou gritar!— é a única alternativa quem vem a minha mente.
Ele cai na gargalhada.
— ME PÕE NO CHÃO !!— grito novamente.
— só se você pedir por favor. Não! Não, espera. Só se você beijar... Digamos... Dá um beijinho aqui. — ele aponta para a virilha, centímetros da minha cabeça.
— N-NÃO!!
— ou você vai ficar aí o dia inteiro.— sussurra, ainda envolvendo minha cauda com sua mão, seus dedos brincam com os pêlos da ponta.
Olho para sua virilha, depois encaro seus olhos negros, que transbordam de arrogância e deboche.
Tenho que fazer algo.
Fecho os olhos com força, tentando de alguma forma usar esse bendito dom, usando toda a minha concentração. E como se o efeito delas sobre mim tivesse simplesmente sumido , eu despenco em direção ao chão. Antes de rachar a cabeça na calçada, firmo as mãos no chão e dou um cambalhota para trás. Agilidade felina
— a-acho que não conseguimos aguentar tanto tempo— murmura uma das garotas.
— VOCÊ ACHA...?!— ignoro a pequena discussão atrás de mim e começo a correr.
Pernas pra quê te quero??
Não ouso espiar por cima dos ombros para ver se estão atrás de mim. Dobro a esquina e esbarro em alguém. Ergo e cabeça e dou de cara com um par de olhos castanhos.
Ruy.
— o que aconteceu? Por que você estava correndo assim?— pergunta. Não sei o que responder, eu minto?
Noto que não há motivos para não falar a verdade.
— aquele idio... Aquele garoto híbrido de pantera estava implicando comigo.- digo arfando, devido à falta de ar.
— ele é mesmo um... Espera. Você tem uma cauda??— diz encarando a minha cauda que se agita atrás de mim.
Merda! Esqueci de escondê-la.
— s-sim.
— por que não me falou antes?— ele cruza os braços e levanta uma das sobrancelhas, enfatizando a pergunta. Dou uma desculpa qualquer.
— eu... não gosto muito dela, e também não achei tão importante falar sobre isso.
— aah. — ele parece ter engolido essa resposta.— e porquê você não gosta dela?
— ahn... Sei lá, ela atrapalha um pouco.- dou outra desculpa.
— posso...?— pergunta apontando para minha cauda, faço que sim com a cabeça, embora não saiba ao certo o que ele pretende fazer. Ruy se aproxima e pega minha cauda, examinando-a e tocando o tufo de pelos brancos e sedosos da ponta, o que faz cócegas.
— err... Thomas, você tem um belo r**o — diz sorrindo, o que me faz dá um soco em seu ombro.
— i****a! – Quando ele vai responder, ergue o olhar e fica branco, encarando algo atrás de mim.
Viro-me e dou de cara com Aaron, que está à poucos metros da gente. Seus punhos estão envolvidos por uma espécie fumaça n***a que parece absorver a luz.
— nossa, que belo casalzinho. — debocha sorrindo. Ruy que ainda segura minha cauda a solta na hora.
Ele não vai fazer nada com a gente.
Lembro, já que agora estamos numa rua com muitas pessoas.
— vamos Ruy. — falo dando de costas para Aaron. Meu amigo se vira também e começa a andar, mas por cima do meu ombro vejo aaron jogar uma bola n***a de fumaça diretamente na cabeça de ruy. Embora seja bem pequena, provavelmente pode causar uma enorme dor.
Simplesmente pisco, e então as sombras se dissolvem no ar, igual sal dissolve em água. O i****a franze as sobrancelhas, não sabendo ao certo o que aconteceu. Ele me encara com uma cara de confusão. Dou um sorrisinho debochado e volto a olhar para a frente.
Ele quer brincar? Vamos brincar.
Só que eu tenho alguns truquezinhos que estou disposto à usar.
(***)
— você quer comer alguma coisa?— Ruy pergunta enquanto andamos pelas ruas. Minha barriga ronca em aprovação, embora eu tenha comido antes de sair de casa.
— claro.— quem dispensa comida?
Bom... Eu não.
— conheço um lanchonete ótima, por aqui.— ele dobra mais uma esquina.
A rua também é muito movimentada, há varias vitrines, que mostram roupas de todos os tipos. Salões de beleza com o rostos de híbridos estampados nas paredes...
— aqui.— fala quando chegamos em frente à uma pequena lanchonete. Entramos e fico surpreso com o lugar.
É super aconchegante, com apenas seis mesas redondas dispostas por todo o espaço. Tudo aqui é convidativo, desde as cores vibrantes das paredes ao tipo de cardápio sobre as mesas.
— vai querer o que?— pergunta quando nos sentamos em uma das três mesas vagas. Examino o cardápio, tudo parece ser delicioso.
— eu quero duas porções de batata frita, um hambúrguer de carne de frango, três coxinhas e talvez um suco.— ele me olha, arregalando os olhos.
— tá zuando né?— levanto uma das sobrancelhas, como se dissesse “tenho cara de quem tá zuando?”.
— nossa.
Nossos pedidos chegam, e em quinze minutos eu devoro tudo. Ele me encara enquanto come seu hambúrguer.
—para onde vai toda essa comida??
— sabe, as vezes eu também gostaria de saber.— respondo com um sorriso no rosto.
— vamos?
— vamos.
Pagamos a conta e depois saímos da lanchonete.
— você quer ir para o parque?
— que parque?— indago, sem saber ao certo que ele está falando.
— temos um pequeno parque aqui na cidade.
— aaah. Claro! Vamos.— Caminhamos em silêncio até o tal parque. Há vários brinquedos e jogos espalhados pelo parque, espero poder andar em todos! Menos nos que envolvem alguma coisa alta. Odeio altura!
— em qual você quer ir primeiro?— encaro cada um dos brinquedos, tentando decidir.
— que tal aquele?—aponto para um negócio que gira.
— o carrossel? É para crianças. — diz com escárnio emanando da sua voz.
— algum problema??— pergunto cruzando os braços.
— não, claro que não. Vamos. — então caminhamos até o brinquedo.
— não temos que comprar ingressos ou algo assim?
— não, é de graça. Mas tem certeza que quer ir nesse? Sabe, acho que não é uma boa ideia brincar em algo que gira, nos acabamos de comer.— murmura com uma certa preocupação.
— relaxa. Vai ficar tudo bem. — dito isso, ele parece ficar mais calmo. Fala sério, o negócio gira super devagar.
Subimos no brinquedo e sentamos nos cavalos que sobem e descem um pouco enquanto giramos. Está devagar demais.
Fecho os olhos com força e me concentro no mecanismo do brinquedo, então ele começa a rodar mais e mais rápido. Não contenho o sorriso enquanto giramos tão rápido que minha visão embaça. Espero que Ruy fique bem...
(***)
— O QUE FOI ISSO?!— grita Ruy enquanto cabaleamos para longe do brinquedo.
— eu tô... Toooonto.— falo sorrindo.
— eu acho que vou...— antes de terminar, ele se curva e vomita no chão.
— quem diria que um passeio de carrossel poderia ser tão emocionante.— digo sorrindo, enquanto fico de cócoras no seu lado para ver se ele está bem.
— CHAMA AQUILO DE EMOCIONANTE??!
— sim, mas... Aaaaaii!— grito quando uma dor se alastra por mim. Olho para trás e adivinha quem está pisando na minha cauda??? Esse i****a!!
— oh! Desculpa, foi sem querer.— fala Aaron antes de se virar e seguir para um brinquedo enorme. O i****a expulsa todos do brinquedo, então entra nele com toda sua turminha.
— ele te machucou?— meu amigo pergunta.
— não. Não tá doendo mais.
— que bom.
— qual o nome daquele brinquedo?— aponto para o negócio grande em que Aaron está agora.
— é chamado de barca.— encaro o brinquedo, que realmente se parece com um barco, ele começa à se mover para frente e para trás bem rápido, dando uma meia volta, antes de descer novamente e repetir o processo. Hora da vingança.
Me concentro no brinquedo, usando toda minha força de vontade sobre ele. E então acontece. O que era para ser uma meia volta, se torna uma volta completa, enquanto ele começa a girar mais rápido a cada segundo, dando uma série de voltas completas como a roda de uma bicicleta.
Ouço centenas de gritos e urros horrorizados. Depois de várias voltas, decido que já é o bastante e paro o brinquedo. Eles saem com dificuldade, segurando-se uns nos outros para não cair.
— o que foi aquilo??— ruy pergunta.
— talvez seja um problema técnico. – falo sem me preocupar em esconder o sorriso. Torno à encara-los. Alissa, a garota hibrida de gato da minha sala se curva e vomita nos tênis de Aaron.
Uou. Ganhei um bônus. Meu sorriso se alarga ainda mais.
— AI MEU DEUS! SOCORROOOO!!— grita alguém, me tirando dos meus pensamentos. Olho em direção à voz feminina, que vem do outro lado do parque.
Ruy e eu corremos até onde a multidão se forma. Passamos entre as pessoas, que distribuem cotoveladas e empurrões para ver o que está acontecendo. Chego perto e encaro a garota híbrida do cabelo branco que está deitada no chão.
Seus olhos estão abertos, mas sem nenhum brilho. A garota está morta.