capítulo 05

2109 Palavras
Não sei o que fazer! Ai, meu, Deus!!! Ela já está morta. Lembra-me uma voz no fundo da minha mente, não há mais nada que eu possa fazer. Minhas habilidades de cura não são tão boas, mas com muito esforço consigo curar alguém desde que ainda reste uma gota de vida nela. Me amaldiçoo internamente, se eu tivesse chegado mais cedo... A culpa não foi sua. Tento tirar isso da minha cabeça, mas é impossível. Reviro-me na cama tentando achar uma posição mais confortável, mas mesmo que eu ache, o sono não vem. O corpo deitado. Os cabelos brancos bagunçados. Não há nenhum sinal de machucado ou feridas. As orelhas caídas e os olhos verdes sem nenhuma vida... As lembranças fluem, mesmo que eu tente esquecê-la s. Ela era uma híbrida de gato. Já são três em um mês, Todos híbridos de felinos... Não. É só coincidência. Tem que ser!! Levanto da cama, desistindo de dormir. Dou alguns passos e fico em frente à janela de vidro. A lua está linda entre inúmeras estrelas, emolduradas por um céu tão azul escuro que chega à parecer n***o. Abro a janela, deixando um vento frio entrar no quarto, que faz os pelos da minha nuca se eriçarem. Sento-me na janela fria, colocando os pés descalços para forma e fazendo com que fiquem pendurados, já que não sou grande o suficiente para alcançar as telhas do primeiro andar. Essa é uma bela visão. Penso enquanto encaro a paisagem, os pinheiros altos e imponentes ficam lindos sobre a luz da lua, enquanto balançam devido ao vento gélido da noite. Olho para baixo, encarando o meu próprio quintal, que só tem algumas ervas daninhas e grama em apenas alguns lugares. Preciso dá um jeito nisso. Suspiro e fecho os olhos, concentrando-me enquanto tento fazer algo bonito crescer. Sinto a grama crescer, é como se fizesse parte de mim, uma parte invisível que cresce ou some ao meu comando. Também sinto as ervas daninhas, elas estão lá de forma indesejada, como se fossem espinhos, crescem contra a vontade do dono, mas seguindo a vontade da natureza. Faço elas desaparecem em um piscar de olhos. Examino meu trabalho, ficou excelente! A grama verde agora cobre todo o meu quintal. Metade já está feito. Concentro-me novamente, dessa vez fazendo algumas rosas crescerem. Elas crescem em cinco segundos, sem precisar de água ou sol. Nem todas as leis da física ou da ciência se aplicam aos híbridos. Principalmente aqueles com poderes. Lembro do que a professora disse na aula. Ficou muito bonito, as rosas brancas e vermelhas destacam-se contra a tinta azul claro das paredes. Espero que ninguém note a diferença. Solto uma lufada de ar pela boca e encosto a cabeça nas laterais da janela. Então aquele assunto vem na minha mente novamente. Ela tinha 17 anos, e o dom de falar com os animais... Suspiro novamente, quem será que fez isso?? Será que foi um acidente? Já que não havia nenhum sinal de ataque ou algo assim. Coincidência demais, já que os outros dois morreram do mesmo jeito. Tenho que fazer algo sobre isso. Tiro o cabelo branco que está caído sobre meus olhos e então penso em um plano. Sabe, o poder que aquela garota tinha era super útil, e é um dos meus dons que eu mais consigo controlar. Faço um chamado silencioso, pedindo para todos os pássaros que se encontram por perto venham até mim. Depois de mais ou menos um minuto, meu telhado está repleto deles, de todas as espécies possíveis. Corujas, águias, beija-flores, pombos, bem-te-vis... Atenção, eu quero que vocês vigiem todo mundo, vão para as janelas, vigiem as ruas, florestas... Tudo. E depois me falem tudo que descobrirem. Não é como se eu falasse diretamente com eles, a gente só se entende. Eu não preciso falar em voz alta, só transmito a mensagem por uma espécie de telepatia. E também não é como se eu obrigasse eles à fazerem isso, é mais ou menos como um favor. Os pássaros balançam a cabeça para cima e para baixo e cantam alegremente em resposta, antes de voarem para todos os lados, em direção as florestas e seus ninhos. Saio da janela e entro no meu quarto, onde pego um livro que fala sobre como usar os dons corretamente. Tenho a intuição de que vou precisar deles. Então sento na cadeira em frente a pequena mesa de vidro, onde leio até altas horas da madrugada. (***) Abro os olhos sem saber ao certo onde estou. Levanto a cabeça e noto que estou na cadeira onde fiquei lendo a noite toda. Minha cabeça estava sobre o livro aberto. O canto da página está molhado, acho que dormi com a boca aberta e babei um pouco. Levanto da cadeira e vejo as horas no relógio redondo da parede. JÁ SÃO 10 HORAS!!! Me espreguiço e saio do quatro às pressas, sem ao menos tirar o pijama cinza. Desço para o primeiro andar, entro no banheiro e então tiro a roupa. Nada como um banho matinal. Ligo o chuveiro e sinto a água quente escorrer por todo o meu corpo. A sensação é ótima!! Pego o frasco de shampoo e derramo um pouco sobre a mão, depois espalho pelo cabelo e nos pelos da minha cauda. Eles ficam super sedosos quando os lavo com shampoo. Me enxaguo e depois repito o processo, só que dessa vez com o condicionador. Deixo-o agindo nos cabelos, enquanto passo um sabonete por todo o meu corpo magro e branquelo. Ligo o chuveiro novamente e fico sob ele, Sentindo a água quente levar a espuma do meu corpo. Desligo o chuveiro e quando vou sair... Merda! Esqueci a toalha! Ah não! Mas lembro que a casa é minha, e está trancada. Saio do banheiro pelado, sem me importar com isso e subo as escadas, lembrando-me de usar meus dons para evaporar as poças que vão ficando para trás, não quero quebrar um braço mais tarde. Entro no meu quarto e pego uma cueca, um short fino preto e uma camisa azul. Enquanto me visto, lembro-me que hoje não vai haver aula, devido ao... Ao que aconteceu ontem. Um dia de luto pela vida perdida. Desço as escadas e vou para o banheiro novamente, onde escovo os dentes. Vou para a cozinha logo em seguida, enquanto esfrego os olhos e solto um bocejo. Ando até o armário e pego uma das caixas de cereal. Sem muita pressa, eu coloco quase metade da caixa em uma tigela com cuidado para não fazer bagunça, antes de completar o cereal colocando quase um litro de leite. Levo meu café da manhã para a sala, sento no sofá confortável e ligo a TV, um novo aparelho criado pelos humanos, essa invenção é um pouco estranha, basicamente transmite imagens e sons. Nós criamos nossos próprios canais de entretenimento, baseados nos dos humanos. Coloco num canal qualquer, onde está passando um jornal apresentado por um híbrido de cervo. O homem é moreno e tem pequenos chifres curvados saindo de seus cabelos. - não há previsão de chuva para nenhum lugar do nosso país hoje.- informa ele.- mas pode haver fortes ventos na região sul.- completa. Nosso mundo é basicamente uma dobra no tempo e espaço, não chega nem perto do tamanho do mundo dos humanos. Há alguns portais que podem nos levar para lá, ou traze-los para cá, se os humanos forem tolos o bastante para cruzar os portais. Quando isso acontece, eles ficam aterrorizados e as vezes ficam loucos. No mundo deles há todo tipo de histórias sobre a gente, que somos monstros aterrorizantes que podem os devorar num piscar de olhos, que podemos transforma-los em animais, que roubamos suas crianças à noite e substituímos por demônios (que no caso são híbridos bebês)... Enfim, é por isso que não convivemos com eles, é melhor assim. Termino de comer e vou deixar a tigela suja na pia. Lavo mais tarde. Decido sair de casa para pensar um pouco, tentando tirar os pensamentos sobre o assassinato (ou seja lá o que estiver acontecendo) da minha cabeça. Fecho a porta atrás de mim e caminho sobre a grama verdinha, enquanto abano minha cauda para os lados com tranquilidade. Já que muitas pessoas já a viram, não há mais motivos para esconde-la. Está ventando bastante, mas não é um vento frio, é uma brisa fresca que move as árvores e faz com que as folhas voem dando voltas e mais voltas pelo ar. Sempre imaginei dias de enterro como dias frios e chuvosos, pessoas chorando por aí e lamentando a vida perdida. Mas o dia está lindo, o sol brilha entre algumas pequenas nuvens, que não são o suficiente para cobri-lo, pessoas riem pelas ruas asfaltadas como se nada tivesse acontecido. Quem deve está realmente triste são os pais e parentes da garota, faz menos de 24 horas e ninguém mais parece se importar. “E como costuma acontecer, a vida seguiu seu rumo.” Vi essa frase em um livro dos humanos, a vida está seguindo seu rumo, só que mais cedo do que eu imaginava. (***) Decido dá uma caminhada pela floresta, que fica mais densa à cada passo dado. Tropeço em um galho baixo que estava na trilha e caio de quatro no chão. - m***a!- praguejo alto enquanto me levanto com dificuldade. Raios de sol atravessam com dificuldade a copa dos pinheiros, tornando o caminho um pouco mais visível. Depois de alguns minutos andando, chego a uma pequena clareira onde há um lago cristalino, que parece brilhar sob os raios de sol. Há pequenos peixinhos dourados nadando nele, suas escamas refletem a luz de uma forma sensacional. Tudo aqui parece mágico. Caminho até o grande salgueiro que fica ao lado do lago, ele me fornece abrigo do sol, que agora consegue iluminar tudo em volta do lago. Sento-me no chão e encaro a paisagem linda. Inúmeros pensamentos tomam conta de mim. Estou sentindo muita saudade do meu pai, apesar de terem passado poucos dias desde que me mudei. Deito na grama e encaro os imponentes galhos do salgueiro. Durmo escutando o canto baixo dos pássaros, que parecem ter criado uma melodia única só para mim. “ -olha papai.- falo estendendo minhas mãos gordinhas e brancas para ele, há uma broto de orquídea nelas. As folhas e talos verdes e longos enrolam-se nos meus dedos e braços. - filho, o papai já disse que não quer que você faça isso na frente dos outros. Okay?- ele repreende, embora seu tom seja carinhoso. - mas... Mas pai! Eu gosto de fazer as plantas crescerem- digo manhoso. - eu sei filho, mas as pessoas podem não entender... Só não faça isso na frente de alguém que não seja eu. Ok? - o-ok.- ele afaga meus cabelos brancos com suas mãos grandes e me puxa para seu colo. - eu sei que você gosta de usar seus poderes, mas eu faço isso para seu bem. - tá papai.- faço as plantas desaparecem e me atiro eu seus braços, envolvendo seu pescoço com meus bracinhos. Ele faz o mesmo, envolvendo meu pequeno corpo com seus braços musculosos. - eu não vou mais fazer isso na frente de ninguém.- falo encarando seus olhos castanhos. - obrigado.- ele beija a ponta do meu nariz e sorri para mim.” Acordo meio tonto, eu já tive esse sonho/lembrança várias vezes antes, eu gosto dela, é um sonho feliz. Sento-me na grama e noto que fiz várias orquídeas roxas nascerem ao redor do tronco do salgueiro. d***a. Isso acontecia quando eu era mais novo. Usava magia enquanto dormia. Mas isso não acontece há anos. Acho que não passou nem uma hora desde que adormeci. Levanto com uma certa preguiça e me espreguiço, alongando os braços. Olho para o círculo perfeito de orquídeas ao redor do tronco. Por um momento, ouso faze-las desaparecer, mas desisto desse plano. Como isso pode ser r**m? Me prejudicar? Embora acredite 100% no meu pai, não consigo entender como isso pode me fazer m*l de alguma forma. Vou aprender a controlar esses poderes. Cada. Um. Deles. Vou fazer isso! Sem desobedecer meu pai, claro. Não vou usa-los na frente de ninguém, mas acho que será melhor aprender à dominar isso. Decido vir aqui nessa pequena clareira alguns dias, para aprender à controlar meus dons. Em passos rápidos, começo à caminhar pela trilha que me levou até aqui. Concentro-me para preencher o caminho estreito e sinuoso de grama, assim será mais fácil eu encontrar a trilha novamente. Pelo menos isso eu consigo fazer direito. Depois de mais ou menos meia hora, chego em casa, onde passo o resto do dia lendo (e comendo).
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