Até que enfim chegou a aula que eu tanto esperava. A aula de magia. Sento-me em uma das cadeiras vagas da frente e Observo a mulher alta e com cabelo cacheado entrar na sala, ela segura um livro grosso, idêntico ao dos alunos.
- bom dia. Eu sou a professora de magia, me chamo Mary.- fala, curta e um tanto arrogante.
- bom dia- respondemos em coro.
- bom... Como a maioria de vocês não tem dons, eu vou começar por algo mais básico. Já ouviram falar na ligação???- affs. Eu queria tanto que ela explicasse sobre os dons. Eu e o resto dos alunos balançamos a cabeça para os lados, negando a sua pergunta.
- bom, eu vou explicar. Nossas leis são muito rígidas em relação ao casamento. Esse compromisso é algo para toda a vida, algo que só deve ser feito quando há total certeza do amor entre ambas as partes. Hoje adultério é considerado pior do que muitos crimes.- olho incrédulo para ela. ISSO É VERDADE!? Não acredito nisso.
- por isso o casar-se é uma escolha muito importante, que deve ser tomada com bastante cuidado. Mas voltando ao assunto inicial. A ligação é quando duas pessoas combinam perfeitamente em todos os sentidos, basicamente um par perfeito, almas gêmeas... Essas coisas. Isso é algo muito raro, e pode acontecer entre as mais variadas pessoas, com ou sem magia, entre pessoas do mesmo sexo... Já que não há limites para o amor. Estão vendo isso?- ela aponta para o braço, onde tem uma espécie de... Tatuagem ou sinal.- isso é o sinal da ligação.
- como assim professora??- pergunta uma garota lá no fundão.
- quando duas pessoas estão ligadas, uma marca idêntica aparece no corpo das duas, uma espécie de tatuagem impossível de ser retirada.
- então a senhora teve essa ligação?- pergunto sem me preocupar em esconder minha curiosidade, que é quase palpável.
- sim, eu era ligada a meu marido, mas ele...- ele parece pensar um pouco antes de dizer – morreu. Faz alguns anos.
- sinto muito.- falo. Ela me encara com seus grandes olhos.
- obrigado. Bom... Voltando à aula, cada sinal de ligação é um símbolo diferente. Estão vendo esse?- ela continua, apontando para o braço novamente, onde o sinal de mais ou menos uns 5 centímetros ficou mais visível. É uma pequena flecha.- vocês nunca vão encontrar outro sinal como esse, todos são únicos. Essa... Conexão, pode ser o tipo mais antigo e poderoso de magia.- minha boca forma um pequeno “O”. essa aula está sendo mais interessante do que eu imaginava.
- a expectativa de vida de um híbrido é de aproximadamente 500 anos, somos quase imortais. Nos mantemos jovens por muito tempo. Eu por exemplo: quantos anos vocês acham que eu tenho?- ela pergunta para a classe.
- uns... 27 talvez.- Ruy fala. Ela sorri para ele antes de corrigir.
- eu tenho 143 anos.- p***a!! Eu sabia que híbridos viviam muito, mas não tanto. E como ela parece tão jovem?? Como eu posso conhecer tão pouco da minha própria espécie?
- essa é outra vantagem dos híbridos. De todos, não só apenas daqueles com dons. Sabiam que o casamento entre pessoas do mesmo s**o nem sempre foi permitido? Antes, quando ainda éramos um tanto primitivos, isso não era bem visto pela sociedade. Mas hoje em dia é tão normal quanto qualquer outra coisa do nosso mundo.- me pergunto como seria antes, quando isso não era permitido. Imagino vários de nós sendo impedidos de serem felizes por caprichos e opiniões alheias.
Considerando minha sexualidade, acho que eu não me encaixaria no mundo antigo...
- você garoto- a professora aponta para mim.
- s-sim?
- você é o Thomas certo? O híbrido de leão albino.- assinto, enquanto ela se aproxima, ficando em pé do lado da minha mesa.
- você tem algum dom?- n**o um segundo depois, mentir sobre isso já se tornou hábito.
- ah. Mas isso não é um problema- ela fala com um tom estranho, leva a mão até meu queixo e levanta minha cabeça, de modo com que eu encare seus grandes olhos castanhos.- a beleza pode ser um dom, um dom perigoso que pode ajudar à persuadir e controlar os outros – sussurra de modo com que apenas eu escute, antes de largar meu queijo e voltar para sua mesa, me deixando com uma grande dúvida e sem realmente entender o que ela quis dizer com isso.
(***)
Depois que os horários de magia terminam, saímos da sala para colocar os grandes livros no armário.
- de que é o próximo horário?- pergunto para Ruy, que caminha ao meu lado com as mãos nos bolsos da calça.
- educação física.
- aah. Tem livros pra essa aula?
- não. É aula prática, pegue as roupas que tem na sua prateleira.- abro meu armário, coloco o livro pesado sobre os outros e abaixo-me para pegar as roupas vermelhas da prateleira mais baixa.
- onde nos trocamos?- pergunto enquanto fecho o armário.
-tem um vestiário perto da quadra. Nos trocamos lá.- assinto, então caminhamos para fora da escola, em direção ao tal vestiário.
(***)
O vestiário é uma espécie de banheiro enorme, com chuveiros em uma das paredes e bancos acolchoados dispostos em fileiras.
- onde eu me troco?
- hã... Aqui.- responde ruy, dando de ombros e levantando uma das sobrancelhas.
- mas... Mas... Não tem aqueles compartimentos individuais?
- não. Nos trocamos aqui mesmo.- olho para o vestiário, que está repleto de garotos, em vários níveis de nudez.
- na frente de todos?
- não há nada que os outros também não tenham- responde sorrindo, enquanto tira a camisa. O que me faz querer dar um soco bem no meio da sua cara.
Começo a tirar a roupa, morrendo de vergonha e sentindo meu rosto queimar. Depois de tirar a camisa e a calça, visto o short fino e a camisa, que ficou um pouco grande e vai até as minhas coxas, Ao contrário do short que ficou curto e um pouco apertado, como se fosse uma espécie de pijama. Pelo menos é confortável. Minha cauda balança alegremente para os lados, roçando minhas pernas.
Encaro Ruy, que está olhando fixamente para as costas musculosas de um garoto que conversa alegremente com Aaron. É o Scott, aquele garoto híbrido de urso. Lembro-me.
- não...- falo abrindo um sorriso de orelha à orelha, chamando sua atenção.- você gosta dele!
- eu... N-não...
- não negue!- advirto. Ele abaixa a cabeça, um pouco envergonhado.
- s-sim, mas ele nem sabe que eu existo.- murmura um pouco triste.
- como? Você é um gatinho- digo sorrindo e cutucando sua barriga com o dedo. Ele tem alguns músculos magros sob a pele, .- ou melhor, você é um coelhinho.
- Não tem graça. E lembra? Ele faz parte daquele grupinho ali, é o melhor amigo do Aaron e super pegador. Aposto que ele também já fez s**o com quase todas as garotas dessa escola. E além disso, talvez ele nem curta homens.
- ah. Acho que não iria querer namorar alguém que já dormiu com todo mundo.- falo sem pensar.
- sim, mas eles não dormem, só transam. Essa é a fama deles, só fazem s**o e depois dispensam como se fossem lixo.- corrige.
- sinto muito. Aposto que você vai achar alguém que te merece.- asseguro-lhe.
- sim, agora vamos para a quadra.- ele passa um braço por cima dos meus ombros e me conduz para fora do vestiário.
(***)
A quadra foi projetada para quase todos os tipos de esportes. Estamos em uma espécie de círculo, escutando o nosso professor dar as instruções.
- hoje iremos trabalhar a velocidade – fala Luan, nosso professor, um híbrido de leopardo que tem o dom da velocidade. Seu cabelo loiro vai até os ombros e seus olhos são surpreendentemente dourados.
- como vocês são híbridos de animais muito distintos, eu vou separa-los pelo tipo. Eu quero que os felinos e semelhantes tomem suas posições na pista de corrida.- fala ele, então caminhamos até um lado da pista de corrida gramada, que tem pequenas listras brancas, indicando a área que cada um deve ocupar.
Estou entre Aaron e o garoto híbrido de lince da aula de ciências, Juniel. Tento ver se há mais algum espaço vago para não ficar ao lado desse i****a filho da mãe, mas para meu pesar todos estão ocupados. Reparo que sou o mais baixo e sem músculos do grupo.
- coloquei só os felinos dessa vez, para que não tenham vantagem sobre os outros, quero que corram até o outro lado e voltem. Okay?- Professor Luan fala, então assentimos.
- assumam suas posições- olho para os outros, sem saber ao certo em que posição ele quer que fiquemos, todos os garotos alongam o corpo e levam as mãos ao chão. Aaah . Essa posição. Imito-os, colocando as mãos no chão também.
- três. Dois. Um! JÁ!- grita o professor.
Começo à correr, como se meus pés tivessem vida própria, sem me importar na dor que cresce de um lado na minha barriga. O que importa é vencer. Olho de relance para os lados. Estou na frente! ... Ou não. Estou empatado com Aaron.
Merda! Ele é veloz pra c****e. Suas pernas longas e musculosas lhe dão bem mais vantagem sobre mim.
Forço-me a ir mais rápido, colocando toda força nas minhas próprias pernas, que embora sejam um pouco curtas, estão fazendo o trabalho.
Passo na sua frente.
Sim! Sim! Sim! Já estou na metade do caminho... Até que desestabilizo, tropeçando em algo que me faz cair de cara no chão. Levanto a cabeça sem entender direito o que aconteceu, cuspindo alguns pedaços de grama. Todos os outros já me ultrapassaram em apenas alguns segundos.
Levanto e continuo a corrida, mesmo que mancando um pouco. Antes mesmo de chegar no fim da pista de corrida, Aaron já está voltando, ele me lança um sorriso sarcástico enquanto passa por mim. FOI ESSE DESGRAÇADO QUE ME DERRUBOU!!!
MAIS ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM! Se eu não vou ganhar, ele também não vai! Corro o mais rápido possível novamente, chego no fim da pista e dou meia volta, já na metade do percurso.
Ele já percorreu uns 75% do caminho, enquanto os outros estão alguns metros atrás, e eu estou alguns metros atrás desses, por último.
Concentro-me com uma certa dificuldade no chão. Não é fácil usar magia em movimento ou sob pressão. Então faço acontecer. Pequenas vigas crescem do nada na grama, agarrando o pé daquele i****a e o derrubando de cara no chão. Vejo apenas um borrão trombando para a frente, uma cauda e uma cabeleira n***a rolando como uma bola devido a velocidade que ele estava indo antes de cair.
Não há tempo para me divertir com isso, faço as plantas desaparecerem antes que alguém às note. O resto dos garotos passam por ele, que ainda está jogado no chão. Dou mais alguns passos, passando por ele também, mas não sem antes devolver o sorriso debochado.
Até que enfim chego no fim dessa bendita corrida. Morrendo de cansado, apoio os braços nos joelhos enquanto respiro com dificuldade.
- quem... Ganhou??- pergunto entre as respirações ofegantes.
- o Scott – fala ruy aparecendo ao meu lado. Sorrio, sabendo que pelo menos meu novo arqui-inimigo não levou essa.
- você foi ótimo, se não fosse por aquele pequeno incidente, aposto que teria ganhado!- assegura ele.
- obri... Gado.
-quer água?- pergunta estendendo uma garrafa transparente. Não me dou o trabalho de responder, arranco a garrafa de suas mãos e sacio minha sede. Jogo o resto da água no rosto, ela desce pelo meu pescoço e mistura-se com o suor que cobre meu corpo.
- pelo menos não fui o último.- digo, enquanto encaro as costas largas e cheias de sujeira de Aaron, que se aproxima do seu grupinho com uma expressão tão séria que é como se estivesse planejando m***r alguém.
- sim. Quem diria, a pantera parece estar fraca das pernas- fala Ruy, um pouco alto demais, chamando a atenção do próprio demônio.
- COMO É?!?- Aaron diz, avançando sobre ruy e o pegando pelo pescoço. Meu amigo não ousa responder, apenas o encara assustado.
- deixa ele!- grito, puxando inutilmente ruy pelo braço, tentando tira-lo do aperto de Aaron.
- quer apanhar também leãozinho? Porque estou disposto a dá uma surra em vocês dois!- não me deixo abalar e continuo puxando (tentando) meu amigo para longe dele.
Olho para os lados desesperado, já temos uma pequena plateia, mas ninguém ousa interferir.
- SOLTA. ELE. !-grito novamente. Aaron levanta a outra mão para me dar um soco, mas paro-o com um simples pensamento. Ele parece surpreso por ter uma força invisível segurado seu braço, impedindo-o de me bater.
- deixa eles Aaron – murmura alguém atrás de mim.
O i****a encara a pessoa por cima dos meus ombros. Me Pergunto internamente se ele vai considerar esse pedido. Então ele simplesmente solta o pescoço do meu amigo, pego ele pelo braço e o puxo para longe, mas antes olho para trás para ver quem nos salvou. Scott.
- tudo bem com você?- pergunto quando sentamos na arquibancada de madeira, que felizmente está vazia.
- es-estás- diz enquanto encara as próprias mãos. Noto que seu pescoço está super vermelho.
- quer que eu vá buscar água para você?
- não precisas.- parece que seu sotaque fica mais pesado quando ele está nervoso.
Seguro sua mão, para reconforta-lo e curar seu pescoço antes que ele se veja no espelho, já então eu não vou poder fazer nada sem ser notado.
A sensação de usar os dons é reconfortante, flui de dentro de mim como implorasse para sair. Encaro as manchas vermelhas no seu pescoço, que vão diminuindo até que desaparecem por completo.
- obrigado por ter me ajudado – sussurra.
- não precisa agradecer, é isso que amigos fazem né?? Eu posso ter te conhecido à menos de uma semana, mas você foi o único que me ajudou e quis ser meu amigo.
- eu agradeço mesmo assim, se dependesse dos outros, ele poderia até me m***r.
- aaah. Mas eu não foi o único que te ajudou- falo com um sorriso enorme no rosto. Ele parece prever aonde eu quero chegar e fica super vermelho.
- c-cala a boca! É melhor voltarmos para a aula.- contorna o assunto.
- é. Vamos- digo, já levantando.- seu pescoço ainda dói??
- não, não está doendo mais. Parece até que eu fui curado por algum anjo.- abro um sorriso amarelo.
- eeer... Agora vamos- digo o puxando pelo braço, agora quem contorna o assunto sou eu.