5.A hora chegou

1520 Palavras
Dominik Copello Eu ajusto o botão do meu blazer diante do espelho e o tecido do terno escuro cai perfeitamente sobre o meu corpo, como sempre. Sob medida, impecável, alinhado. Cada detalhe está no lugar certo como deve ser. Mesmo assim, permaneço parado diante do espelho por alguns segundos a mais, observando o meu próprio reflexo. Sério. Fechado. Neutro. Como sempre fui. Mas hoje há algo diferente por trás desse olhar, algo que não gosto de admitir: incredulidade. Ainda não consigo acreditar que isso esteja realmente acontecendo justamente comigo. Há poucos dias eu estava em um hospital esperando o nascimento do meu primeiro filho e agora... estou me arrumando para negociar um novo casamento com a irmã da minha falecida esposa. Minha mandíbula se contrai levemente. Nada disso faz sentido. Eu baixo o olhar enquanto termino de ajustar o blazer e os meus olhos param em minha própria mão. No meu dedo anelar que está vazio. A aliança já não está mais ali. Eu a retirei no mesmo dia em que voltei para casa depois do hospital. Na verdade… eu me desfiz de quase tudo dela. Não há mais joias. Não há mais lembranças espalhadas pela casa. Nenhum objeto pessoal pelo meu quarto. Nenhuma fotografia. Nada! Eu não toquei em nada que pertencesse a Dayse. Pedi para que tudo fosse retirado e guardado. Não sei exatamente o que fazer ainda. Eu volto a erguer o olhar para o espelho e... Dayse… por um momento, o nome dela ecoa na minha mente. Eu não esperava que as coisas terminassem assim. Na verdade, quando o nosso casamento começou, eu não esperava muita coisa. Era um casamento arranjado como qualquer outro. Uma aliança entre famílias importantes da Cúpula. Nada mais. Mas com o tempo… eu comecei a gostar da convivência com ela. Dayse era uma boa esposa. Discreta, delicada e elegante. Sempre sabia como se portar. Nunca me colocou em uma situação constrangedora em público e nunca falhou em suas responsabilidades. Ela era leal. Presente. A casa funcionava por causa dela. Tudo funcionava. Os jantares. As recepções. A rotina. Ela cuidava de tudo com uma eficiência natural que me permitia focar completamente no meu trabalho e nos meus negócios. Eu praticamente não precisava me preocupar com nada. Até minha mãe gostava dela e isso é algo raro. Minha mãe não gosta de muitas pessoas. Mas gostava de Dayse. E então veio a notícia da gravidez. Um filho. Meu primeiro filho. Eu lembro da euforia silenciosa que tomou conta da família quando descobrimos e quando soubemos que seria um menino… foi exatamente o que todos esperavam. Um herdeiro. Tudo parecia estar se encaminhando perfeitamente... até que tudo desandou. Rápido demais. O parto, as complicações, os médicos entrando e saindo da sala. As vozes tensas. E então… silêncio. O silêncio da morte. Primeiro o bebê... depois a Dayse. Eu fecho os olhos por um breve instante e o meu peit0 aperta de uma forma que não gosto de sentir. Nos últimos dias, Jackson e Rick têm tentado me dar apoio. Meus irmãos sempre foram presentes, cada um à sua maneira. Minha mãe também tem estado por perto o tempo todo, mas isso não muda o fato de que ainda há muita coisa para resolver. Muita coisa. Eu volto a me encarar no espelho e vejo que agora, eu preciso lidar com outra situação. Um novo casamento. Vou conhecer melhor minha futura esposa. Rose Moreau, uma garota de dezessete anos e, se eu for completamente honesto… acho que nunca troquei uma palavra com ela na vida. Dayse falava dela às vezes. Dizia que eram próximas, que se davam bem e eu lembro vagamente de ouvi-la comentar algo sobre algumas habilidades da irmã. Talvez música, talvez outra coisa. Eu nunca dei muita atenção. Nunca achei que fosse relevante. Agora vai ser. Agora aquela garota fará parte da minha vida. Nunca me senti tão encurralado por uma regra da Cúpula quanto agora. É um saco. Eu preciso de uma esposa, isso é fato. Minha posição exige isso, mas não deveria ser assim. Umas batidas na porta interrompem meus pensamentos e apenas me viro. — Entre. A porta se abre. Minha mãe entra no quarto com aquele olhar observador que ela sempre tem. Ela me examina da cabeça aos pés. — Está tão lindo, meu filho. — Diz. Eu faço um pequeno gesto de cabeça. — Obrigado. Ela caminha até mim. — Muito elegante. Mas então o olhar dela muda. A expressão se torna mais rígida e eu sei bem que não vem coisa boa. — Eu não gosto nada disso. — Eu já sei do que ela está falando. — Esse casamento é um absurdo completo... — Continua. — Eu acho ridículo. — Ela cruza os braços. — Deveríamos fazer alguma coisa. Eu balanço a cabeça lentamente. — O conselho jamais vai aceitar qualquer coisa que seja. Ela franze a testa. — Rose é uma moça bem cuidada. — Continuo. — Nunca fez nada de errado. A fama dela é intocável... Minha voz permanece calma. Controlada. — Eles criaram essa lei justamente para isso, para evitar novas alianças. Para evitar conflitos e dores de cabeças... Minha mãe suspira. Ela se posiciona bem diante de mim e não parece convencida. — Temos influência. — Diz. — Podemos pedir apoio. — Ela fala rápido agora. — Podemos solicitar uma reunião emergencial do conselho. Mostrar os fatos. Explicar que isso não faz sentido. Ela passa uma mão pelos cabelos. — Eu não gosto nada disso e... — Mãe. — Minha voz sai firme. — Chega!! Ela se cala. — Isso iria manchar a reputação de Dayse. — Continuo. — E da família Moreau que não fizeram nada. — Ela abre a boca, mas eu continuo antes que ela fale. — Eles seriam vistos como medíocres. Fracos e eu não vão aceitar isso... e nem ser a causa. Eu a encaro diretamente. — E se por acaso sequer cogitarem… — Minha voz fica mais baixa. — As outras famílias vão se rebelar. Ela sabe que estou certo. Minha mãe permanece em silêncio por alguns segundos, mas não dura muito. — Mas... — Assunto encerrado! — Minha voz não deixa espaço para discussão. — Eu não vou perder um tempo que não tenho com isso. Eu me afasto um pouco. — Você pode ir. Ela me observa por alguns segundos, então se aproxima novamente. As mãos dela tocam o meu rosto com delicadeza. Um gesto raro. — Você merece algo melhor. — Diz suavemente. Ela suspira. — Esse casamento é um erro, Dominik. Eu não respondo. Ela me observa mais uma vez e então se vira e sai do quarto. A porta se fecha e o silêncio volta. Eu caminho até a janela, a vista da propriedade se estende diante de mim e as luzes externas iluminam o jardim perfeitamente cuidado. Eu apoio as mãos no parapeito e observo a noite. Esse casamento tem muitas chances de ser um erro, eu sei disso. Mas também sei de outra coisa: a Cúpula nunca quebrou uma regra. Nunca. Desde o começo e não será agora. Não sem motivo. E não existe motivo algum para impedir isso. Rose Moreau nunca fez nada que comprometesse a lei. Nada. Então vai acontecer. Não há saída. Quando olho para o relógio, percebo que já está na hora e eu saio do quarto. Desço as escadas da casa com passos firmes. A casa está silenciosa, os empregados sabem quando devem desaparecer. Eu pego as chaves do carro sobre a mesa da entrada e minutos depois estou dentro do meu veículo. O motor ronca suavemente quando dou partida e eu saio da propriedade. As ruas estão iluminadas pela noite e o ar está fresco. Eu gosto da Califórnia, especialmente de Montecito. Grande parte das famílias da Cúpula vive nessa região. Tem privacidade. Eu dirijo com calma pela estrada e alguns minutos depois, o painel do carro acende. Uma ligação do meu irmão Jackson. Eu atendo. — Oi. — Oi. — Ele responde. — Como você está? — Bem. Eu mantenho os olhos na estrada. — Estou no caminho da mansão Moreau. Ele solta um pequeno suspiro do outro lado da linha. — Boa sorte. Se precisar de alguma coisa, me avisa. — Aviso. Eu desligo e continuo dirigindo. Enquanto a estrada avança diante de mim, penso na minha família. Somos três irmãos e eu sou o mais velho. Tenho trinta e quatro anos. Jackson é o do meio com trinta e Rick é o mais novo com vinte e sete. Minha mãe mora comigo desde que meu pai, Marvin Copello morreu. Ele morreu há alguns anos. Minha mãe nunca superou completamente e ela sempre foi muito ligada a mim. Por isso continua na minha casa. Jackson e Rick têm as suas próprias propriedades, as suas próprias vidas e ela nem quis cogitar ficar com algum deles. Então, sobrou apenas eu. Alguns minutos depois, a mansão Moreau aparece diante de mim. Grande. Imponente. Iluminada. Eu estaciono o carro, mas permaneço sentado por alguns segundos. Respirando fundo, mantendo a postura e é essa a hora. Hora de conhecer melhor a minha futura esposa.
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