Gabriel narrando.
Saio do banheiro em silêncio, ainda com o corpo quente do banho que se estendeu por mais de meia hora. Fiquei esperando minha Bruna entrar, imaginando seu sorriso, seu cheiro misturado à água, mas aparentemente ela dormiu. Meu coração aperta por não encontrá-la, e logo um frio estranho me percorre.
Estranho não vê-la na cama. Cadê ela? Olho para os lençóis, para o travesseiro ainda marcado pelo corpo dela, mas o espaço está vazio. Ando pelos outros cômodos do apartamento, chamando seu nome baixo, tentando não criar alarde, mas nada. Cada passo ecoa pelo piso frio e o silêncio me deixa ainda mais nervoso.
— BRUNAAAAAA! — grito, a raiva misturada à preocupação queimando no peito, e corro até o telefone do cômodo, discando com pressa para o serviço do hotel, meus dedos apertando os botões com força.
Ligação on:
— Recepção do hotel, boa noite, no que posso ajudar? — a voz ao outro lado soa tranquila demais, e isso só aumenta minha
impaciência.
— Passou uma moça bonita aí? Estava de vestido, cabelos castanhos escuros. — minha voz sai carregada de tensão.
— Sim, senhor, há uns vinte minutos, ela saiu de táxi.
— p***a, ok. Eu quero o número dessa rede de táxi e a placa do carro que ela pegou. — o ódio cresce a cada segundo.
— Senhor, eu não sei se podemos dar essa informação — respondem, com cautela.
— Escutem aqui! — minha paciência se esgota. — A minha mulher saiu para a casa da amiga e ainda não me mandou notícias. Se
algo aconteceu com ela, eu vou caçar cada um. Quero o telefone e a placa agora mesmo.
— Sim, senhor — cedem, e desligo, sentindo a frustração queimando como fogo.
Ligação off.
Ando de um lado para o outro por minutos intermináveis, tentando pensar, mas nada faz sentido. O que eu fiz para ela fugir assim?
Foi tudo tão perfeito… demorou para aceitar, mas disse sim para ser minha. Então por que saiu sem avisar?
Será que a amiga precisava dela? Não faço ideia. Poderíamos ter ido juntos aonde ela quisesse, conversado, rido… Mas não, ela
decidiu ir sozinha. Meu peito aperta só de imaginar o que ela pode ter sentido.
De repente, batem na porta, e corro para atender, só para perceber, de relance, o olhar do funcionário focado no meu corpo — e aí me
dou conta: estou só de toalha. Arranco o papel de sua mão, impondo meu território, e bato a porta na sua cara, tentando me recompor.
Agora, foco. Preciso fazer umas ligações e descobrir onde minha linda fujona está. Logo ela estará de volta aos meus braços, e nada
mais vai impedir.
[...]
Estaciono perto da casa dela e nem preciso sair do carro. Lá está ela, sentada perto da janela com a amiga, dividindo um pote de
sorvete. Observo cada gesto: ela rindo, falando animada, aquela expressão doce que me faz sentir uma mistura de ciúme e desejo de
proteção. Queria escutar a conversa, mas mesmo de longe consigo ver que estão bem, felizes… então por que diabos ela fugiu de
mim? Não faz sentido.
Fico ali, os olhos grudados na janela até que Bruna se levanta e logo a Milena. Elas não fecham a janela, mas quando apagam a luz,
sei que foram dormir. Meu peito queima de raiva. Era para eu estar deitado agora, de conchinha com a Bruna, sentindo seu calor, e
não… com a Milena.
Dirijo de volta para o hotel, a raiva ainda latejando, mas já com um plano claro na mente. Amanhã ela vai voltar para mim, e não vou
deixar minha maluquinha sem supervisão, nem por um minuto, até o casamento.
Vou tê-la amanhã, e isso não será negociável. Antes do almoço, quero sentir seu corpo nos meus braços, ouvir seu riso só para mim, e
nunca mais deixá-la escapar assim.
[...]
Bato a porta do carro com força, o estalo ecoando na areia. Mesmo com roupas e sapatos sociais, caminho pela praia até Bruna e sua
amiga, sentindo cada grão de areia quente nos pés. O sol ainda alto ilumina seu cabelo castanho escuro, e o vento bagunça os fios,
fazendo-a parecer ainda mais irresistível.
Paro à sua frente e sinto a raiva crescer: como ela pode não perceber que estou ali? Me abaixo lentamente, passando a mão de leve
em seu rosto, sentindo a pele quente e macia. Ela finalmente abre os olhos, surpresa, o susto estampado no rosto.
— Você não acha perigoso dormir no meio da praia? — digo, tentando soar sério, mas com uma ponta de provocação.
— Mas que merda você está fazendo aqui? — ela olha para Milena, que dorme enrolada em seu chapéu, parecendo alheia a tudo.
— Vim te ver, pequena fugitiva. — Minha voz baixa, controlada, e ela abre a boca para protestar, mas me levanto de repente,
guiando a situação. — Vamos conversar? Você parece estar no sol há muito tempo. Uma água de coco vai ajudar.
Vejo seus lábios começarem a formar um “não”, mas sua expressão muda e ela se levanta, rendida ao meu comando silencioso. Ela
desperta Milena, que me olha confusa, sem entender nada.
— Vou com ele na sua casa rapidinho, amiga. Eu já volto — diz Bruna, firme, e Milena apenas suspira, ajeitando o chapéu de volta
sobre o rosto, inconsciente do perigo. Que diabos elas pensam? Qualquer um poderia aparecer, sequestrá-la… Mas ninguém se
importa com isso além de mim.
Sigo Bruna enquanto ela entra pelos fundos da casa da Milena, e meu peito se aperta ao vê-la naquele ambiente mais seguro, mas
ainda vulnerável.
— Fala, Gabriel — ela murmura, desviando o olhar e tentando controlar a respiração, mas não consigo deixar de suspirar com a
timidez misturada à provocação.
— Podemos tomar uma água? — pergunto, tentando soar casual, mas minha voz baixa e firme carrega um comando. Ela reclama
baixinho, ligando o chuveiro do lado de fora, lavando as pernas e os braços antes de entrar completamente na casa.
— Prefiro suco, já volto — ela diz, colocando uma jarra e dois copos no balcão, e sobe a escada, distraída. Meu cérebro trabalha
rápido: sigo meu plano, mas com cuidado.
Sirvo os copos, colocando discretamente algumas gotinhas do remédio para dormir no copo dela. Bebo o meu devagar, fingindo
normalidade, observando cada movimento dela pelo canto do olho. Em pouco tempo, ela volta, usando uma saída de praia leve sobre
o biquíni, cada curva visível e tentadora.
— Fala, Gabriel. Eu tenho que voltar — ela diz, recostando-se no balcão e segurando o copo com delicadeza, tentando parecer
calma.
— Por que você fugiu de mim ontem à noite? — pergunto, a voz firme, deixando transparecer meu ressentimento misturado à preocupação. Ela arregala os olhos, e vejo a certeza desaparecer de seu rosto.
Ela pega o copo de suco, bebe devagar, quase enrolando as palavras.
— Eu tive que ir embora, e sinceramente não achei que ia te ver novamente — responde, desviando o olhar.
— Mas eu falei que você era minha — digo, firme, e ela arregala os olhos de novo, sem coragem de me encarar. — Você disse sim.
— Por uma noite, você que não entendeu — corrigido, tentando controlar a tensão que me invade.
— Bruna — me aproximo devagar, e ela não foge, apenas levanta os olhos e me encara, tentando decifrar minhas intenções. — Eu
gostei de você. Quero te conhecer, maluquinha.
Acaricio seu rosto com cuidado, sentindo sua pele macia sob meus dedos, e ela suspira, como se não pudesse evitar a reação.
— Mas ontem você me assustou com aquilo tudo de “ser sua e só sua” — ela murmura, engolindo em seco, visivelmente dividida.
— Você falou sério? Porque, de verdade, Gabriel, eu já tenho muita dificuldade na vida. Não tenho tempo para mais isso.
Sinto um aperto no peito, mas tento acalmá-la com a voz.
— Podemos sentar para conversar? — pergunto, firme e paciente, e ela suspira, finalmente cedendo, sentindo a tensão se misturar ao
desejo, e permitindo que eu a guie para perto, preparando o terreno para que possamos realmente nos entender.
— Era verdade? — Ela se apoia e vejo que está bocejando. Talvez eu tenha colocado muito remédio, mas eu queria efeito rápido.
— Era, mas eu posso ir no tempo que você quiser, Bruna. Podemos fazer como queremos. Ninguém vai nos impedir.
— Gabriel, é melhor você ir. — Ela tenta andar até a porta, mas, no meio do caminho, cambaleia e se afasta no sofá.
— Você está bem? — corro até ela, que tenta me chutar.
— Sim, vá embora.
— Eu só vou se você falar que não gostou de ontem, que não gostou de mim e do meu corpo. — Cruzando os braços em sua frente,
ela boceja com sono.
— Eu gostei, mas não gostei dessa sua possessividade. Não gostei, achei muito rápido.
— Eu quero ser verdadeiro, minha linda, e é isso que sinto: que eu sou seu e você é minha. Sou todo seu. — Pego sua mão e coloco
sob meu coração. Ela tenta arrancar a mão, mas não deixo.
— Eu não quero, já tenho muitos problemas. — Ela fala e agora fico sério.
— Então eu resolvo isso, pode deixar, porque você é minha e eu sou seu, e você vai aceitar isso. Eu cuido dos seus problemas.
— Gabriel — ela me ameaça apenas falando meu nome, mas não me mexo.
Fico a olhando e vejo quando começa a tentar manter os olhos abertos:
— Tá tudo bem?
— Não, acho que tem algo errado comigo. — Ela diz e se apoia em mim.
— Vou cuidar de você. Cadê seu celular para eu avisar a Milena?
— Ali — ela aponta, mas primeiro a pego no colo. Com um pouco de dificuldade, não querendo a machucar, consigo pegar o celular,
saio pela porta da frente com ela em meu colo.
Meus seguranças, assim que me reconhecem, correm para meu carro:
— Preciso que um dirija para mim, os outros podem seguir — mando e eles passam as ordens.
Entro no banco de trás e a ajeito em meu colo, cobrindo seu corpo da maneira certa com a pequena saída que ela colocou.
Pego o seu celular assim que apita, pego seu dedo e, após tentativas, descubro que minha pequena maluquinha colocou a digital do
dedo anelar. Nunca vi alguém fazer assim.
A Milena pergunta se ela vai demorar para voltar para a praia e finjo ser a Bruna, respondendo que foi para o hotel novamente
terminar a noite de ontem e que depois dá notícias.
Adiciono a minha digital no celular e o bloqueio, guardando, volto minha atenção para a Bruna e sinto uma pontada de culpa. Não
era para ser assim, mas ela que complicou primeiro.