Não Sequestrei

1888 Palavras
Bruna narrando. Acordo resmungando de dor, sentindo minha coluna e minhas pernas latejarem como se eu tivesse dormido dobrada, espremida em um espaço pequeno demais para o meu corpo. Cada músculo parece reclamar quando tento me mexer. Minha cabeça pesa, confusa, como se estivesse envolta em algodão. Não lembro de absolutamente nada do que aconteceu. A última coisa que me vem à mente é ter levado Gabriel até a casa da Milena. Depois disso, tudo fica borrado. Lembro apenas de uma sensação estranha, como se o mundo estivesse girando devagar demais… e então, o vazio. Quando abro os olhos de vez, percebo imediatamente que estou em um quarto estranho. O teto não é familiar, as cortinas são claras demais, e o cheiro do ambiente não é o meu, nem o da casa da Milena. Tento me sentar de supetão, mas algo me impede. Meu corpo está pesado, lento. Arregalo os olhos quando sinto um braço firme em volta da minha cintura. Ai, meu Deus. Viro o rosto com o coração disparado e grito ao ver Gabriel dormindo tranquilamente atrás de mim, como se nada estivesse errado, como se não tivesse destruído completamente a minha sensação de segurança. Assustado com o grito, ele acorda de um salto e me solta. Aproveito o segundo de liberdade e pulo da cama, me afastando o máximo que posso. — Bom dia — ele diz, com uma naturalidade absurda. Meu sangue ferve. — O que você fez, Gabriel? — pergunto, sentindo minha voz tremer de raiva. — Por que eu estava discutindo com você e, do nada, apaguei? E quando acordo, estamos aqui? Isso não é o seu quarto de hotel e definitivamente não é a casa da Milena! Olho em volta tentando reconhecer qualquer detalhe, mas tudo é estranho. Ele faz uma careta, fecha os olhos por um instante, como se estivesse cansado… cansado. Vejo um copo d’água sobre a cômoda e nem penso. Pego e jogo com força em seu rosto. A água espirra, o vidro cai no chão, e ele se levanta num pulo. Cruzo os braços, tremendo de ódio. — FALA, GABRIEL! — Viajamos — ele responde. — Estamos em uma fazenda da minha família. — Por que estamos aqui?! Ele se aproxima, e quando corro para o outro lado da cama, ele… ri. Ri como se aquilo fosse uma brincadeira. Vai até a janela e a abre. A luz do sol invade o quarto, iluminando tudo: a cama enorme, os móveis rústicos, o chão de madeira. É lindo. E isso só me dá mais raiva. — Você não queria me aceitar — ele diz — então eu trouxe nós dois pra cá. — VOCÊ ME SEQUESTROU?! — grito, sentindo o desespero subir pelo peito. Arremesso o copo que ainda segurava, e ele só consegue desviar por pouco. O vidro se estilhaça na parede. — Eu não sequestrei — responde, calmo demais. — Você aproveitou que eu desmaiei e me trouxe pra cá! — minha voz falha. — Eu poderia ter morrido! Você sequer pensou em me levar a um hospital?! — Na verdade… — ele coça a cabeça, e só então percebo que está sem camisa. Meu olhar cai por um segundo em seu abdômen definido antes que eu me obrigue a olhar para cima. — Está com fome? — EU QUERO RESPOSTAS! — grito. — Agora! Ou eu vou chamar a polícia! Ele tenta conter o riso, mas uma risadinha escapa. — PARA DE RIR! — Tá bom, desculpa… — ele se senta na cama e me observa, esperando que eu me sente também. Como não me movo, suspira. — O que você quer saber? — Você nem cogitou me levar a um médico! — avanço um passo. — Você simplesmente me trouxe pra cá! Egoísta! LOUCO! — Você não precisava de médico. — Você fez medicina, por acaso?! — explodo. — Como você ia saber, Gabriel?! p***a! Ele cruza os braços e faz um biquinho infantil, como se estivesse sendo injustiçado. — Eu coloquei um remédio pra dormir no seu suco. Você só estava dormindo. O mundo gira. — O QUÊ?! — começo a andar de um lado para o outro. — Eu fui dopada! DOPADA! Paro de repente. — Espera… — minha voz sai baixa e perigosa. — Você me dopou antes mesmo da conversa? E se eu tivesse aceitado? Você teria feito isso mesmo assim? Minha raiva explode. Pulo em cima dele, puxando seus cabelos, estapeando seu peitoral com força. — SEU MALUCO! — ME SOLTA! — ele grita, tentando se defender, mas não largo seus cabelos. — PSICOPATA! i****a! SEQUESTRADOR! Ele consegue me jogar na cama e se afasta rapidamente. — Eu quero ir embora! Agora! — Mas você nem me deixou explicar… eu só queria que ficássemos juntos. Felizes. — EU QUERO ÁGUA! — digo, já pensando em qualquer coisa que me dê uma chance. Ele me observa por alguns segundos, desconfiado. — Você teria, se não tivesse jogado em mim… mas eu pego. Quando ele tira a chave do bolso e destranca a porta, não penso. Pulo em cima dele. Minhas pernas se fecham em volta do abdômen dele e meus braços apertam seu pescoço. — BRUNAAA! — ele grita, tropeçando para trás até cair de cara na cama. Não solto. Só paro quando seu corpo fica mole demais. Meu coração dispara. Foi rápido demais. Será que apertei forte demais? Não quero pensar nisso. Saio de cima dele e corro para a porta. Abro e dou de cara com um corredor longo, silencioso. Antes que eu consiga dar o primeiro passo, algo me puxa por trás. Grito, assustada, sentindo os braços dele fecharem em volta do meu pescoço. — Me solta… — sussurro, sem ar. Ele beija o topo da minha cabeça. — Você que começou. Preciso de você mais calma pra gente conversar. Tento chutá-lo, arranhar, qualquer coisa, mas minha visão começa a escurecer. Esse desgraçado está me apagando… e eu não consigo nem acertar sua virilha antes que tudo fique turvo demais. [...] Abro os olhos com um sobressalto quando sinto algo gelado deslizar pela minha bochecha. Demoro alguns segundos para entender onde estou. Minha visão ainda está turva, minha cabeça pesada, como se tivesse sido esmagada por dentro. Quando consigo focar, vejo o rosto do Gabriel muito próximo do meu. Meu estômago revira instantaneamente. O ódio sobe tão rápido que m*l consigo respirar. Tento levantar a mão para acertar seu rosto, mas uma dor lancinante explode nos meus pulsos. Arquejo de surpresa e puxo os braços instintivamente, só então percebendo que estão presos acima da minha cabeça. Meu coração dispara de pânico. Abro a boca para xingá-lo, para gritar, para mandar ele para o inferno… mas nenhum som sai. Algo aperta minha boca, impedindo qualquer palavra. Um nó de desespero se forma no meu peito. Filho da p**a. — Ei, calma… — ele diz, num tom quase doce demais para a situação. — Não fica brava. Eu tive que fazer isso. Você estava muito brava. Rosno, tentando responder, mas só consigo emitir sons abafados e inúteis. Me debato o pouco que consigo, sentindo as amarras puxarem minha pele. Ele suspira, como se estivesse lidando com uma criança difícil. — Vou falar tudo de uma vez, tá bom? — continua, sentando-se ao meu lado. — Eu sou de uma família italiana. Uma grande linhagem de homens intensos, possessivos… homens que sequestram suas mulheres e as conquistam assim. Meu estômago embrulha. — Nunca houve um divórcio na nossa família — ele prossegue, com orgulho na voz. — Sempre soubemos que esse risco existia. Eu só não imaginei que fosse acontecer comigo tão cedo… e tão forte. Ele para de falar por um momento, me observando atentamente, como se esperasse alguma reação além do meu olhar furioso. Tento virar o rosto, ignorá-lo, mas ele inclina a cabeça, fazendo uma expressão quase… triste. — Eu não suporto te ver assim — diz, num tom mais baixo. — Se eu tirar isso da sua boca, você consegue me escutar? Sem gritar? Sem tentar me bater? Assinto com a cabeça imediatamente, mais desesperada por falar do que por qualquer acordo real. Ele se aproxima devagar, como se eu fosse um animal arisco, e com cuidado solta o que prendia minha boca. Puxo o ar com força, meus pulmões queimando. — Água — peço, a voz rouca, seca. Ele pega um copo da cômoda e se aproxima. Espero, com uma pontinha de esperança, que ele solte minhas mãos também. Quando percebo que não vai, reviro os olhos, derrotada por enquanto, e deixo que ele aproxime o copo da minha boca. Dou alguns goles curtos. — Eu ainda sinto ódio — digo, encarando-o. — Eu sei — ele responde. — Mas preciso que você entenda primeiro. Depois… eu solto suas mãos. Engulo em seco. — Continua — falo, dura. — Quando eu te vi, meu mundo parou — ele começa, os olhos ganhando um brilho estranho. — Eu estava jogando vôlei, rindo, vivendo normalmente… e, de repente, você apareceu. Eu não pensei em mais nada. Corri para o mar sem nem saber por quê. Ele sorri de leve. — Você mergulhou. Eu tentei causar algo casual, uma batida de pé, qualquer coisa para chamar sua atenção… mas você ficou furiosa. — Fiquei mesmo — retruco. — Eu quase me afoguei. — Eu sei — ele admite, sem perder o sorriso. — Mas eu só queria te conhecer. Não liguei para mais nada. Queria tocar você, ouvir sua voz, saber seu nome. Quando você fugiu, foi óbvio que eu iria atrás. Respiro fundo, tentando não tremer. — Eu te convidei para sair e passei o dia inteiro ansioso. Troquei de roupa umas vinte vezes, pensando no que você iria gostar, no que combinaria mais com você. — Sério? — escapa de mim, antes que eu consiga segurar. Ele sorri, satisfeito. — Foi tudo perfeito — continua. — Você ali comigo… sua personalidade forte, seu jeito irônico, seu cheiro. Tudo em você me encantou. Eu não queria apressar nada, mas você se entregou rápido e eu achei que sentia o mesmo que eu. Quando disse que você era minha… eu não quis te assustar. — Você me assustou — digo, com a voz carregada. — Eu não sou um objeto. Nem um pet para morar com alguém e abanar o rabinho quando ele chega. — Não é isso — ele fala rápido. — Eu quero um relacionamento normal. Eu sou seu e você é minha. Dois parceiros. Amigos. Casal. Quero te dar o melhor, te mimar, cuidar de você. E receber o amor que você quiser me dar. Eu sei que sou grudento… e eu sou mesmo. Fico em silêncio, encarando-o, tentando processar aquela loucura toda. — Eu… p**a merda — murmuro. Ele arregala os olhos, atento a cada micro reação minha. — Mas você gostou de mim — insiste. — Eu senti. Se não tivesse gostado, não teria conversado comigo na praia. Você gostou da nossa noite. — Gostei — admito, com raiva de mim mesma. — Mas se eu estivesse solta agora, eu te batia sem pensar duas vezes. Eu te achei bonito, interessante… gostosinho até. Mas você é apressado, ansioso e completamente doido por me sequestrar! As palavras saem rápidas, atropeladas. Ele engole em seco, me encarando em silêncio. Eu só quero ir embora.
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