Indiferença

1526 Palavras
Gabriel narrando. Fico em silêncio para não piorar as coisas: — Me solta, Gabriel, ou eu juro por Deus que nunca mais olho na sua cara novamente — ela diz e eu libero seus pulsos. Ela massageia a própria pele e me encara séria: — Eu preciso voltar, tenho meu emprego e não posso perder. — Eu resolvo isso — falo, e ela me encara feio. — Eu falei que preciso voltar, deu de brincar de sequestrador. Tenho meu emprego e não abro mão disso. — Fica tranquila, sobre isso eu resolvo. Está com fome? — Ela me encara com raiva, como se fosse me bater. E como sei que ela é capaz, me afasto indo em direção à porta. Tiro a chave do meu bolso e, de costas, abro: — Já volto. — Saio correndo e tranco por fora. [...] Termino de fazer a ligação com meu pai e respiro aliviado; agora tudo já está resolvido sobre o emprego da Bruna. Pego o prato dela de comida já pronto e subo, sem tanta pressa, as escadas. Ela não gritou nem nada, acho que está bem. Abro a porta do quarto no mesmo instante em que escuto a água do banheiro. Coloco a comida na cômoda e me deito na cama: — Estou pronta para ir embora — ela fala, e com muita preguiça me sento. — Eu te trouxe comida, faz tempo que você não come nada. Falamos sobre ir embora depois. — Não, falamos agora porque eu estou indo. — Minha linda, vamos sair daqui quando tudo estiver tranquilo entre a gente, ok? Então vamos dar tempo ao tempo. Ela cruza os braços e olha para a janela: — Quando vou poder sair do quarto? — Amanhã, vou te mostrar a casa e talvez algumas coisas fora dela. Antes que eu fale da comida, ela pega, me deixando mais tranquilo. — Pode sair — ela fala, e eu abro a boca ofendido. — Eu vou ficar também. — Mas eu quero ficar sozinha. — E eu quero ficar com você. — Não me intimido por seu olhar, e ela simplesmente pega seu prato, indo para um cantinho do quarto. — Você vai comer no chão? — Sim, sou a prisioneira, lembra? — ela fala grossa. — Bruna, você sabe que não é assim. Eu tentei te explicar: você é importante para mim. Você é minha mulher, eu te amo — falo e, quando ela arregala os olhos, sei que falei demais. Sei que é cedo, mas meu coração não mente. Ela começa a comer sem dizer nada, e fico sem entender; ela não vai surtar ou algo assim? Arrumo minha postura, começando a ficar com medo; não sei o que pensar com ela calada assim. Não faço ideia do que se passa em sua mente: — Tá legal, fala, por favor — peço, e ela nem sequer me olha. — Eu quero umas horas de silêncio e paz, Gabriel. Silêncio e paz. Se você puder sair nesse tempo... — ela não termina a frase, e mesmo machucado, me levanto, indo embora. [...] Termino minha xícara de café e pego o celular da Bruna, que apita. Já fiz exercício, vi TV, olhei algumas coisas pelo computador e tomei café. Vejo mensagens da sua amiga Milena e respondo como a Bruna falaria: "Oii amiga linda, o Gab me chamou para uma viagem de última hora e eu fui. Fica tranquila que vou te dando notícias, está tudo corrido, mas muito bom. Beijocas." Envio, e a Milena visualiza e manda apenas um emoji desconfiado. Merda, o que eu falei errado? "Fica tranquila que eu sei lidar com as coisas, você sabe. Depois te chamo." Ela responde algumas coisas para a Bruna tomar cuidado e avisar se algo acontecer. Mando apenas um emoji e desligo seu celular. Pego o meu e, ao ver tantas mensagens do meu pai, resolvo ligar para ele. No segundo toque, ele atende. Ligação on: — Boa noite, pai. — Boa noite é o caramba. Eu sei que você está em algo importante, mas precisamos de você na empresa. O Damon e eu estamos enlouquecendo. Você sempre foi o mais calmo; o Damon surtou com um fornecedor nosso e ele não quer mais o contrato com nossa empresa. — Sinto muito, mas vocês vão ter que lidar com isso. Posso trabalhar pelo computador aqui da fazenda, mas acho que vai demorar mais do que eu pensei para voltarmos. — O que você fez de errado, filho? — Nada. Já estava tudo estremecido porque falei demais; só que agora ela só quer ir embora. — E ela deve querer mesmo. Você tem que convencê-la a ficar. A melhor forma de manter ela presa é abrir a porta. — Pai, isso não faz sentido nenhum. — Você tem que dar liberdade para ela. Assim ela vai gostar de você. Mesmo que emburrado, finja que está normal e deixe ela feliz. Aí só depois os dois cedem. — Tá legal, vou tentar. — Boa noite, filho. Ligação off. Pego o jantar da Bruna e rejeito meu prato por já estar satisfeito; ser rejeitado pela minha mulher não me dá fome. Um café já me encheu. Subo as escadas e não bato na porta antes de destrancar. Lembro do conselho do meu pai e resolvo colocar a chave na fechadura; tenho que dar liberdade. Ela não vira o rosto na minha direção, então coloco sua comida na cômoda novamente e já pego o prato sujo, saindo do quarto. Quando chego na cozinha, escuto passos nas escadas e a vejo meio espantada, olhando tudo. Quando ela me avista, corre por um corredor qualquer, mas não me movo. Minha vontade é correr atrás, mas nada paga sua expressão quando ela volta depois de um tempo e me olha sem entender: — Não vai me perseguir? — Ela se apoia em uma parede, sem me olhar. — Não, você pode andar pela casa livremente. Só não vá lá fora porque é perigoso e você não conhece. Amanhã te mostro tudo. Contra todos os meus instintos, viro de costas para ela e começo a subir a escada: — Vai me deixar aqui? Sozinha? — Pode subir se quiser, mas vou tomar banho. Subo e, quando encosto a porta do banheiro, me encosto contra ela. Não consigo acreditar no que fiz. Espero que meu pai esteja certo. [...] Me enrolo na toalha e saio assobiando do banho. Enrolei o máximo possível, mas estranho quando não a vejo no quarto. Meu pai disse que, se eu abrisse a porta, ela ficaria. E cadê ela? Mesmo apenas com o tecido me cobrindo, desço as escadas e, antes que eu grite, a flagro entrando em casa pela porta da frente, com um dos meus seguranças atrás. Volto para o quarto o mais rápido possível e, em pouco tempo, ela sobe emburrada: — Conheceu a casa? — pergunto, e ela afirma com a cabeça, olhando meu corpo. — Quer tomar banho? — pergunto, e ela assente com a cabeça, indo devagar para o banheiro enquanto me olha. Puxa, se nossos filhos puxarem esse olhar dela, vão ser lindos e ótimos nos negócios. Coloco apenas uma cueca e ajeito a cama para dormirmos. Após um tempo, ela sai e, antes que fale algo, me levanto, entregando sua lingerie e a camisola: — Você não vai vestir uma roupa? — ela pergunta, saindo e sorrindo ao não escutar a porta do banheiro fechando. Ela se troca com a porta aberta, mas eu ainda não vou olhar. — Sinto muito calor enquanto durmo; quanto menos roupa, melhor. — Ela sai, me olhando debochada, mas eu apenas admiro seu lindo corpo. — Você não vai dormir comigo — ela fala, cruzando os braços, e, ao invés de imitar seu gesto, me deito. — Você explorou a casa, não explorou? Se não quiser dormir comigo... — não falo mais e escuto seu grunhido de raiva; tenho que segurar para não rir. — Você vai dormir no chão, Gabriel. — Não vou, não. Quando puder apagar a luz, minha princesa. — Sua princesa é o— ela não termina e pega um travesseiro da cama. Ela bate em mim, e antes que eu fuja, ela se deita na beradinha da cama. Coloco minha mão rapidamente em sua cintura para puxá-la para perto: — Se você não tirar sua mão de mim, eu vou arrancá-la com meus próprios dentes. — E eu iria adorar — falo, beijando sua orelha. Ela rosna, me fazendo rir e tirar a mão. Espero algum tempo e penso em como ver se ela está acordada para abraçá-la: — Gostou da casa? — pergunto baixinho e, pelo seu resmungo, fico em dúvida. — Eu tentei sair, mas seu parceiro me fez voltar. Não acredito que colocou guardas nessa masmorra — ela reclama, com a voz calma. — Eu disse que você pode sair amanhã durante a luz do dia; eu vou te mostrar tudo. — Eu ainda vou te matar, Gabriel. Pelo menos irei tentar. — Eu vou adorar, já disse. Passo meu braço sobre o edredom que a cobre e sorrio quando ela não me ameaça, apenas me soca.
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