'Novamente me encontrava naquela escuridão que me acompanha desde que me entendo por gente. Um lugar tão familiar, mas desconhecido ao mesmo tempo.
— Ele está aqui — ouvi uma voz dizer. Quando olhei para trás, encontrei o dono da voz. Olhos cinzentos me encaravam intensamente.
— Você tem certeza? — perguntei.
— Claro, eu o sinto — ele respondeu.
Desde que me lembro, esses olhos têm me acompanhado na minha jornada. Graças a eles, consegui me vingar de quase todos que contribuíram para o nosso sofrimento.
Esses olhos são o mais próximo de um amigo que eu tenho. O restante só me serviu de saco de pancada.
— Te sinto incomodado. O que se passa? — ele perguntou, ainda me observando.
— Não basta estar preso novamente. A prisão ainda tinha que ser rosa — suspirei. Eu odeio a cor rosa.
— Eu acho bonito. Combina com a tua aura angelical — falou, debochado.
— Você deve estar achando hilário me ver nessa prisão da Barbie — disse, irritado, e o ouvi rir. Aquela risada angelical que eu aprendi a imitar.
— Realmente é engraçado ver tudo cor-de-rosa. Eles se esforçaram muito só para te agradar em tão pouco tempo — comentou, pensativo.
— O que foi? — perguntei, curioso.
— E que tal se você agradecer e se mostrar inofensivo durante um tempo? — sugeriu.
— Se demorarmos, é capaz dele fugir — retruquei.
— Não acho que ele vá fugir. O destino dele já foi selado… Ele morrerá pelas nossas mãos.'
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Acordei, já me irritando com a visão do teto rosa. Isso é torturante. Sentei-me, espreguiçando-me e coçando os olhos.
— Bom dia, princesa. Dormiu bem? — um dos guardas perguntou. Apenas acenei com a cabeça, ainda sonolento. — Pelo menos isso. Aqui está o teu pequeno-almoço — ele estendeu a bandeja para mim, coberta.
Após isso, retirou-se. Fiz minha higiene matinal. Não tinha todos os produtos que gosto de usar, mas fazer o quê?
Voltei para o quarto, retirei a tampa do prato e dei graças aos céus por não ser papa de aveia. Meu pequeno-almoço se resumia a ovos mexidos, bacon, frutas picadas, pão tostado e suco de laranja. Realmente, essa prisão é muito melhor do que a outra.
Comi com gosto, como se nunca tivesse comido antes. Estava delicioso, não podia negar. Eu sabia que estava sendo vigiado, mas o mais estranho era que essa sensação não vinha apenas das câmeras… Havia outra coisa ali.
Olhei para a outra cela. Estava tudo escuro. Quando, de repente, meus olhos se conectaram com dois pontos vermelhos, tão intensos que pareciam ver a minha alma. Meu corpo estremeceu.
Ao terminar de comer, aproximei-me das grades — a parte que conectava minha cela à da frente. De repente, comecei a ficar sonolento. O que era aquilo? Por quê do nada?
Era como se eu estivesse novamente naquela sala… como se estivessem me preparando para…
Apaguei.
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'Novamente naquela escuridão…
— O que aconteceu? — perguntaram os olhos acinzentados.
— Eu não sei. Só sei que não gostei — respondi, nervoso.
— …
— Você precisa me acordar agora. Tenho um mau pressentimento — falei, inquieto.
— Calma. Vamos resolver isso com cuidado — ele respondeu — Mas lá vai…'
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Acordei com alguém me pegando no colo. Num movimento rápido, saltei dos braços dele e encostei-me na parede, em posição de ataque.
— Calma, sou eu… o cara que te deu comida mais cedo — disse ele, levantando as mãos em rendição. — Eu só ia te deitar na cama. Tinhas desmaiado no chão gelado e não queria que pegasses um resfriado.
Pelo seu cheiro, percebi que não estava mentindo.
Relaxe um pouco, mas não baixei completamente a guarda. Ele suspirou em alívio quando percebeu isso.
Quase deixei meu disfarce cair.
Yongui off
Autora on
Noutra sala do mesmo edifício estavam o Promotor Choi, o Detetive Hun, o Cientista Kyoko e a Geneticista Kyoka.
Todos estavam em choque com o que acabaram de ver.
— Têm certeza de que havia sonífero na comida? — perguntou o Promotor, olhando desconfiado para os irmãos.
— Claro. Fui eu mesma quem preparou aquela refeição — respondeu Kyoka, contrariada.
— Aquilo é capaz de derrubar um elefante, mas ele não demorou nem cinco minutos para acordar — afirmou Kyoko, vidrado na tela onde aparecia o Omega.
Eles não estavam apenas surpresos por ele ter acordado — estavam fascinados.
Ele não era apenas um ser humano diferente… Ele era um Omega.
— Então, Promotor… já acredita que foi ele? — provocou o detetive.
Mesmo depois de ver o vídeo, o Promotor ainda tinha dúvidas. Para ele, Omegas eram criaturas inofensivas, incapazes de ferir alguém — quanto mais cometer um assassinato.
No fundo, ele queria que aquele Omega fosse declarado inocente só para poder reivindicá-lo como seu.
Ele queria possuí-lo. Quebrá-lo por dentro. Tê-lo. Mesmo que tivesse que ir contra todos.
Autora off
Yongui on
Já se passavam dois dias desde que estou aqui preso, sem ver a luz do sol. Acho que é exatamente isso o que eles querem.
Percebi que colocam sonífero na minha comida — pelo menos duas vezes por dia: no pequeno-almoço e no almoço.
Além disso, comecei a sentir um cheiro estranho. Amadeirado, com algo de terra molhada… Não consigo explicar.
Só sei que esse cheiro me acalma de uma forma quase assustadora.
Ainda não sei o que há na outra cela. Só sei que todos os guardas e detentos têm medo dela. E sempre que olho para lá, vejo apenas escuridão… e, depois, aqueles olhos vermelhos.
Olhei para o relógio: quase duas da manhã. Não consigo dormir.
Desde que percebi o que fazem à minha comida, confiar tornou-se impossível.
O guarda — Jhon — é o único que não me olha como se eu fosse um objeto ou uma presa. Ele parece apenas fazer o seu trabalho.
Mas eu não confio em ninguém.
Fui tirado dos meus pensamentos por uma voz grossa e rouca, vinda da outra cela — e meu corpo inteiro estremeceu.
— Pode dormir… — disse ele, os olhos vermelhos brilhando novamente na escuridão. — Vou garantir que nada perturbe o seu sono.
Eu não sei como… mas apaguei.
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'Voltei à minha escuridão, familiar e aconchegante.
— O que…? — não havia palavras.
— Eu também não entendi — respondeu os olhos cinzentos. — Quem é ele?
— Não sei… mas, por enquanto, é melhor ignorar — sentei-me ao lado dele. — Precisamos começar a agir.
Ele suspirou.
— Eles querem fazer alguma coisa connosco. Por isso o sonífero. Você não pode mais comer nada do que eles te dão.
— Ótimo… agora vou morrer de fome — dramatizei.
— Pare com isso. Você m*l sente fome — respondeu, aborrecido.
— Obrigado por me lembrar desse detalhe horrível — fingi uma lágrima.
— Chega de brincadeira. O que você descobriu?
— O prédio tem vinte e quatro andares. Só este edifício já parece um labirinto. As armas são personalizadas, há câmaras em todos os cantos e os elevadores só abrem por impressão digital. Ouvi eles falarem de uma falha no sistema, mas não sei qual é.
— Isso você ouviu… ou alguém te contou? — ele desconfiou.
— A maior parte eu ouvi.
— Estamos no 23º andar. O de cima é apenas a sala do diretor, acessível por um elevador especial. A sala de segurança fica no 20º andar e o laboratório no 15º… É lá que o nosso alvo está.
— E como vamos chegar até lá? — perguntei, impaciente.
— Precisamos encontrar uma brecha e…
Ele parou de repente.
— O quê? — comecei a me sentir inquieto.
— Você precisa acordar. Agora!'
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Abri os olhos e percebi não estar sozinho na minha cela.
Os olhos vermelhos estavam ali… dentro da minha própria cela… me encarando de perto.
— Eu sei do seu segredo — ele murmurou.