Leiam as notas do autor
Boa leitura
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Olhei em volta mais uma vez, procurando a câmera que ficava na cela, e percebi que a luzinha quase imperceptível estava apagada. A câmera estava desligada.
— Não precisa se preocupar em falar nada — voltou a falar.
Percebi que era um homem grande e forte, de rosto marcante, com uma cicatriz em forma de raio na bochecha esquerda e um piercing no lábio inferior. Vestia apenas uma calça de moletom, deixando o peito à mostra, completamente marcado por cicatrizes de bala e faca. Ele era um Alfa Lúpus — pude perceber pela presença — só não entendia como não havia notado antes.
Decidi me sentar ao lado dele, ainda calado. Não havia como ele saber que eu conseguia falar e escutar perfeitamente.
Meu disfarce era perfeito: fingia ser desentendido sempre que alguém falava comigo, não respondia quando chamavam meu nome e me comunicava apenas por linguagem gestual.
— Mas você é mesmo dedicado nisso — disse, aproximando-se.
Levantei o olhar, pois ele era alto e eu ainda estava sentado na cama.
— Sabe que já era pra você estar morto, né? — perguntou.
Levantei as sobrancelhas, em dúvida. Ele deu de ombros e se afastou, encostando-se à grade da cela como se aquilo não fosse nada.
Seus olhos brilhavam em um vermelho-sangue vivo arrepiante. Continuei mantendo minha expressão neutra, sem me abalar com o que ele dizia.
— É, garoto… você tem o meu respeito — disse, olhando para uma das câmeras. — Mesmo já tendo sido descoberto, continua mantendo a farsa. Eu gosto disso.
Deu um sorrisinho, analisando-me de cima a baixo.
— Você deveria ter morrido na mesma noite em que entrou aqui, principalmente por ser um Ômega. — continuei calado, apenas observando, sem saber aonde ele queria chegar.
— Pode falar à vontade. Quero saber por que você está aqui. O que te motiva a continuar mesmo sabendo que querem te matar? — perguntou, eu não respondi e com isso vi seu maxilar travar, ele estava ficando irritado.
— Você realmente não tem planos de abrir a boca, né? — insistiu, nada novamente.
Levantei-me e fui até a mesa onde fazia minhas refeições, peguei o bloco de notas e escrevi: “O que você quer?”, indicando que ele escrevesse também.
A veia em sua têmpora saltou, denunciando a raiva, mas eu não ia me entregar tão fácil. Ele suspirou, tomou o bloco da minha mão e escreveu…
Desenhou uma mão mostrando o dedo do meio, mas que infantil.
Olhei para ele, rasguei o papel, guardei o bloco e me deitei, pronto para ignorar tudo e voltar a dormir.
Achei que ele sairia ao perceber meu desinteresse, mas foi exatamente o contrário.
Ele sentou-se na cama, encarando-me fixamente.
Não fazia ideia do que se passava em sua cabeça, mas com certeza não era coisa boa. Sem pedir permissão, começou a falar:
— Eu sei que você entrou aqui por uma razão. Também sei que você não é surdo nem mudo. Sei que você é diferente e, por mais imperceptível que seja, consigo sentir duas presenças em você. — ele me encarou — O que é você? — deu de ombros.
— Quando quiser sair daqui, é só me avisar. Por mais improvável que pareça, eu estou aqui de férias. Queria um tempo sozinho… e qual lugar melhor do que uma prisão de segurança máxima? Ainda mais uma que quase ninguém sabe que existe — apontou para a câmera.
— Ela vai voltar a funcionar em breve. Vou continuar por aqui mesmo assim. Você só precisa continuar fingindo que está dormindo — após isso a câmera logo voltou a funcionar pouco depois.
— Continuando… — disse, sentando-se em um banco próximo à cama e cobrindo a boca para que ninguém visse seus lábios se movendo. — A Torre é uma prisão destinada a Alfas sanguinários e sem cura, onde o único destino é a morte. Não é totalmente mentira. O que não contam é como eles morrem.
Cruzou as pernas, olhando-me intensamente.
— O normal seria eletrocussão ou envenenamento. Mas aqui é diferente.
— Uma das perguntas que você deveria se fazer é por que estão me dopando, em vez de apenas continuar trazendo comida.
Fiz uma careta.
— Outra: por que você ainda está vivo, mesmo estando ao lado de um Alfa Lúpus chefe?
— E a mais importante: por que querem te dopar? O que querem fazer com você? — suspirou, cansado.
— Eles querem ver do que o seu corpo é feito. Quanto tempo você aguenta certas substâncias. E, sendo um Ômega, também querem saber como funciona o seu útero — ele me olhou com atenção.
— Já deu pra perceber que quem prepara sua comida é uma Beta. Eles querem testar seus limites.
— Pode parecer bobeira, mas nem os melhores Alfas duram um dia. Quem dirá um Ômega, com um corpo frágil e uma carinha tão angelical como a sua.
Tive vontade de rosnar, mas me contive.
— Como eu disse: se quiser ajuda para sair daqui, é só falar. Minha equipe está sempre pronta. E com certeza já estão com saudade de mim — sorriu convencido e eu apenas revirei os olhos.
Pouco depois, a porta foi aberta e vários guardas entraram armados.
— Pense com cuidado — foi a última coisa que ele disse antes de sair da minha cela.
Ergueu os braços em rendição e foi levado para sua cela, envolta em completa escuridão.
Fingi dormir quando senti alguém se aproximar. A pessoa se afastou e trancou novamente a cela.
Quando tudo ficou silencioso, abri os olhos.
Na cela à frente, aqueles mesmos olhos vermelhos me encaravam, esperando uma resposta que eu ainda não estava pronto para dar.
Ele não havia mentido. Eu conseguia sentir isso — pelo cheiro, pela linguagem corporal. Aquela habilidade já fora uma dádiva… e também uma maldição.
Talvez fosse hora de fazer uma visita a alguns velhos amigos naquele lugar
— Pode dormir — sussurrou.
Mesmo baixo, ouvi claramente.
Meu corpo ficou pesado, e logo apaguei, retornando àquele lugar.
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— Quem é esse cara? — ele perguntou.
Não soube responder.
— Como ele conseguiu tanto controle sobre o próprio corpo?
— Não é pra tanto exagero — respondi.
— Ele sabe do nosso segredo. Sabe que viemos aqui por um propósito e provavelmente sabe quem estamos procurando.
Os olhos cinzentos se moveram inquietos na escuridão.
— Acha que devemos confiar?
— Não sei. Em nenhum momento ele mentiu.
Fiz uma careta ao lembrar do comentário sobre eu ser delicado e angelical.
— Ele nos observou esse tempo todo — continuou. — Mesmo com o disfarce perfeito, ele percebeu.
— E conseguiu sentir sua presença, mesmo a minha sendo mais forte — completei.
— Ele não é um Alfa comum.
— Definitivamente não.
— Podemos usá-lo — sugeriu.
Sorri.
— Está na hora de colocar o plano em ação — disse ele.
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Acordei com o cheiro agradável do pequeno-almoço invadindo minhas narinas. Levantei, peguei a bandeja, olhei para a câmera e sorri, derrubando tudo no chão de propósito.
O barulho ecoou.
O guarda entrou apressado e chamou alguém para limpar. Olhei para a cela ao lado e, ao encontrar aqueles olhos vermelhos, sorri.
Ele riu.
O guarda voltou com o responsável pela limpeza. Fiz a maior cara de inocente, pedindo desculpas em libras e fingindo arrependimento.
Ele acreditou como sempre, fez até um carinho leve na minha cabeça, dizendo que acidentes acontecem.
Como podem ver…
Isso é só o princípio.