Acordei novamente sentindo a presença daquele ser em minha cela, mais uma vez me encarando intensamente. Eu odeio esse olhar. É como se ele pudesse ver através de mim.
— E então? — ele perguntou, dando um sorrisinho convencido, como se já soubesse da resposta.
— Eu aceito a oferta — disse, concordando. Seu sorriso aumentou ainda mais.
Pude perceber que ele ficou surpreso ao ouvir minha voz. Ela estava um pouco rouca pelo tempo em que não fora utilizada, mas continuava a mesma doce melodia que hipnotiza aqueles que ouvem ou prestam demasiada atenção. Essa era uma das razões pelas quais não gosto de falar.
[...]
Após isso, nosso plano foi traçado, cada detalhe pensado em apenas uma noite. Nos dias seguintes, colocamos tudo em prática.
Desde aquele dia venho me recusando a comer. Não que faça muita diferença, já que não sinto fome, mas isso está deixando eles loucos.
Já o Alfa — que eu não sei o nome e nem quero saber — começou a ser mais exigente. A comida chegava e ele mandava trocar, espalhava sua presença por todo o andar, dificultando o trabalho dos guardas, mesmo eles sendo Betas. O que fez com que muitos se retirassem de suas posições.
Então, se antes havia cinco guardas vigiando as celas, agora eram apenas dois, cada um responsável por uma cela. Se antes seis guardas ficavam no corredor, agora restavam apenas dois para suportar a presença lupina do Alfa. Se antes havia oito guardas no elevador, agora só restavam três. No total, apenas sete guardas no andar em que estávamos — o que facilitava as coisas.
O plano iria ocorrer naquela tarde, pois eu já estava há quase duas semanas sem comer nem beber nada. Para eles, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria cedendo e comendo a comida preparada para me dopar.
Mas, em vez de acordar rápido, eu me fingiria de desmaiado por um longo período por causa da desidratação — algo que sei fazer muito bem. Então era só esperar e torcer para que tudo corresse como planejado.
Duas horas depois, o mesmo guarda que vinha me servindo se aproximou, mas não demorou. Ele se sentia sufocado pela presença lupina do fulano, então apenas me pediu para comer e saiu correndo.
Sem escolha, suspeitei… e comi. Como nunca tinha comido antes, como se minha vida dependesse disso. Não que eu realmente precise, mas meu corpo necessita de algo para se manter funcional.
Não demorou muito para que eu adormecesse. Percebi que era uma dosagem maior, mas sabia que não demoraria para acordar.
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— Espero que estejas pronto, pois a batalha começou — disse ele, com os olhos cinzentos brilhando em um entusiasmo palpável.
— Estás te confundindo, meu querido J. A batalha começou há muito tempo… e, como nas outras vezes, eu sempre estou preparado — falei com um sorriso, sentindo-me despertar. — Aprecie o show.
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Fui despertando lentamente e percebi estar sendo carregado até o elevador. Ao entrar, vi um deles apertar o botão do décimo quinto andar — o andar do laboratório, algo que eu já esperava. Com o rosto inexpressivo e fingindo inconsciência, deixei que me levassem, tal como combinado.
Já no laboratório, ainda inconsciente, ouvi passos se aproximando e um cheiro familiar invadir o ambiente. Tão familiar que me deu ânsia, mas consegui disfarçar. Havia outros cheiros ali, claro, mas aquele em específico me prendeu de tal forma que meu único desejo era vê-lo sofrer uma morte lenta e dolorosa.
— O que foi, Kyoko? — perguntou uma voz feminina que não consegui identificar.
— Sinto que já vi esse garoto em algum lugar — ouvi dizer.
— Um trabalho antigo?
— Eu acho… Não, nada não, mana. Vamos começar — disse, tentando fugir da conversa.
E assim eles começaram…
E eu esperei.
[...]
Na cela, o Alfa seguia com sua parte do plano. Enquanto o Ômega estivesse no laboratório, ele precisava sair dali e me esperar no portão com uma carrinha.
Ele liberou seus feromônios de forma que alcançassem outros andares, deixando os guardas desconcertados. Mesmo os Betas se sentiam sufocados pela intensidade.
Um dos guardas, mesmo incomodado, se aproximou para verificar o que estava acontecendo. Mas, antes que pudesse reagir, já estava no chão.
E assim, tudo começou.
[...]
Saí do laboratório com quem eu queria dentro de um saco preto. Ele ainda respirava, e isso era o que importava. Valeu a pena confiar naquele Alfa; ele fez um bom trabalho. Por onde passei, havia pessoas desacordadas ou mortas. Bem… a vida que segue.
Já no portão de saída, não encontrei ninguém, o que me deixou irritado, pois teria muito trabalho para ligar um carro e colocar aquele saco no porta-malas — coisa que eu não queria fazer.
Mas, antes que mudasse de direção, um carro preto veio em minha direção. Por sorte, não atirei; os vidros eram todos fumados. Felizmente, era o bendito Alfa no lugar do condutor.
— E aí, gatinha? Pensou que eu te abandonei? — perguntou, debochado, ao abaixar a janela.
Revirei os olhos, abri a porta traseira e empurrei o maldito saco para dentro do carro. Fechei a porta e dei a volta até o banco do carona, mas, antes que eu pudesse abrir a porta, o carro avançou um pouco e parou.
Filho da put@.
— Desculpa, cara, meu pé foi sem querer no acelerador — disse, sorrindo de maneira zombeteira. Minha vontade era fazer desse sorriso um pano de chão e arrancar cada dente com um alicate. — Sobe aí.
Sem alternativa, me aproximei e entrei rápido, fechando a porta antes que ele tentasse de novo. Olhei para ele e o vi de boca aberta. Dei de ombros e olhei para frente. Acho que ele entendeu, pois deu partida em seguida.
Já faziam quatro horas que estávamos na estrada. Na terceira hora, vi o saco se mexer. Paramos para garantir que ele não voltasse a se mover, aplicando o mesmo sedativo que vinham me dando há dias. Depois disso, seguimos viagem.
Chegando a Busan, paramos em frente a um prédio abandonado. Tivemos que subir as escadas, já que o elevador não funcionava. Quem levou o saco foi o Alfa, claro. Não que eu me importasse, mas ele quis bancar o machão, então deixei que ele fizesse o trabalho de escravo.
No topo, havia um helicóptero todo preto nos esperando, com as portas abertas. Entramos, e uma pessoa estava no controle.
— E aí, chefia — cumprimentou. Era um Beta. — Cansou das férias, foi?
O Alfa respirava com dificuldade pelo esforço. Fresco.
— Deixa de piada e vamos embora daqui — falou pausadamente. Dez andares… fazer o quê.
— Que isso, chefia, quer uma aguinha? — ofereceu.
— Obrigado. Já podemos ir — disse, após beber tudo.
— E quem é esse nanico com cara de anjo? — perguntou, me olhando. O cara faz muitas perguntas. Não gostei.
O Alfa me encarou por um tempo. Ao perceber que eu não abriria a boca, suspirou e olhou para frente. O Beta ainda me observava com curiosidade e admiração — algo que, se continuasse, poderia matá-lo.
— Não olha muito pra ele, ou você pode acabar virando história, Beomgyu — repreendeu. O outro desviou o olhar imediatamente. — E você, vê se controla a tua sede por sangue — disse, apontando para mim.
Levantei a sobrancelha, confuso. Do que esse cara estava falando?
— Vamos logo, Beomgyu. Preciso do meu precioso banho — completou, encostando no banco e fechando os olhos.
O helicóptero decolou, sobrevoando Busan. Já era noite, e a vista era maravilhosa.
Em menos de uma hora, chegamos a Seul. E, se Busan à noite era bela, Seul era deslumbrante — surreal. Talvez por nunca ter andado de helicóptero, mas aquilo era simplesmente incrível.
— É bonito, né? — ouvi a voz do Alfa perto do meu ouvido, o que me causou uma sensação estranha. — Nem parece a mesma cidade que te condenou apenas por seres diferente.
Sorri de lado e concordei com a cabeça, afastando-me logo em seguida. Ele estava invadindo demais o meu espaço.