Eu dormi m*l.
Na verdade, acho que m*l dormi.
Passei boa parte da noite olhando para o teto, lembrando da silhueta do homem na janela da casa ao lado.
Cada vez que fechava os olhos, a imagem voltava.
Alta.
Imóvel.
Observando.
Quando finalmente consegui dormir, já devia ser quase madrugada.
Por isso, quando o despertador tocou, senti como se tivesse acabado de fechar os olhos.
— Ótimo começo, Helena — murmurei, ainda com a voz rouca de sono.
Levantei-me devagar e caminhei até a janela.
A primeira coisa que fiz foi olhar para a casa ao lado.
O sol da manhã iluminava a rua com uma luz suave.
Tudo parecia normal.
Tranquilo.
Calmo.
A casa ao lado estava exatamente como no dia anterior.
Silenciosa.
As janelas fechadas.
Nenhum sinal de vida.
Franzi a testa.
A luz da noite anterior tinha desaparecido completamente.
Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, teria jurado que aquilo nunca aconteceu.
— Talvez eu tenha imaginado tudo — murmurei.
Mas eu sabia que não.
Suspirei e fui me arrumar.
Era meu primeiro dia oficial na universidade.
Mesmo com toda aquela curiosidade sobre o vizinho misterioso, eu não podia me distrair.
Depois de um banho rápido e um café simples, saí de casa.
A rua estava mais movimentada do que na noite anterior.
Algumas pessoas caminhavam pelas calçadas.
Um homem regava as plantas do jardim.
Uma senhora passeava com um cachorro pequeno.
A cidade parecia muito mais viva durante o dia.
Antes de ir embora, olhei novamente para a casa ao lado.
Nada.
Nenhum carro.
Nenhuma pessoa.
Nenhum sinal de que alguém morava ali.
Ainda assim…
Eu tinha certeza de que havia alguém.
Balancei a cabeça e comecei a caminhar.
A universidade ficava a cerca de quinze minutos de distância.
A caminhada foi tranquila.
A cidade era bonita de um jeito simples.
Casas antigas, cafés pequenos e muitas árvores.
Era exatamente o tipo de lugar onde eu imaginava viver durante meus anos de estudo.
Quando cheguei ao campus, fiquei parada por alguns segundos.
O prédio principal era enorme.
De pedra clara, com janelas altas e um jardim bem cuidado na entrada.
Meu coração acelerou.
— É agora — murmurei.
Respirei fundo e entrei.
As primeiras horas passaram mais rápido do que eu imaginava.
Apresentação dos professores.
Entrega de horários.
Algumas explicações sobre o curso.
Eu estava sentada numa das mesas do fundo quando alguém se sentou ao meu lado.
— Você também parece perdida.
Virei o rosto e encontrei um rapaz sorrindo para mim.
Cabelos castanhos bagunçados, olhos escuros e um ar relaxado.
— Dá pra perceber? — perguntei.
Ele riu.
— Um pouco.
— Primeira semana na cidade.
— Lucas — ele disse, estendendo a mão.
— Helena.
— Arquitetura?
Assenti.
— Jornalismo — ele respondeu. — Mas temos algumas aulas no mesmo prédio.
Sorri.
Era bom conhecer alguém.
— Então você também é nova por aqui?
— Sim.
— Já encontrou algo estranho na cidade?
Franzi a testa.
— Estranho?
Ele se inclinou um pouco mais perto.
— Tipo histórias antigas, lugares misteriosos…
Sorri.
— Você está tentando encontrar matéria para jornalismo?
— Talvez.
Ri.
— Ainda não explorei muito.
Mas então algo me veio à cabeça.
A casa.
A luz.
A silhueta na janela.
Olhei para Lucas.
— Na verdade… talvez sim.
Os olhos dele brilharam.
— Sério?
— A casa ao lado da minha.
— Já começou bem — ele disse, rindo. — O que tem ela?
Respirei fundo.
— Parece abandonada.
— Parece?
— Mas ontem à noite uma luz acendeu na janela do último andar.
Ele levantou as sobrancelhas.
— E?
— Eu vi um homem.
Lucas ficou em silêncio por alguns segundos.
Então cruzou os braços.
— Qual rua você mora?
Falei o nome.
Algo na expressão dele mudou.
— Espera… a casa grande?
— Sim.
— Com o jardim cheio de plantas?
— Essa mesma.
Lucas soltou um pequeno assobio.
— Interessante.
— O que foi?
Ele hesitou por um momento.
— Aquela casa tem fama estranha.
Meu coração acelerou.
— Como assim?
— Dizem que ninguém mora lá há anos.
— Mas eu vi alguém.
— Tem certeza?
Assenti.
— Absoluta.
Lucas inclinou-se na cadeira, pensativo.
— Isso é… curioso.
— Você sabe alguma coisa sobre a casa?
— Só histórias.
— Que tipo de histórias?
Ele sorriu de lado.
— As melhores.
Revirei os olhos.
— Lucas.
Ele riu.
— Ok, ok.
Então ficou um pouco mais sério.
— Dizem que o dono da casa era um escritor.
Meu coração bateu mais rápido.
— Era?
— Sim. Ele desapareceu da vida pública anos atrás.
— Desapareceu?
— Tipo… sumiu mesmo.
— E a casa?
— Ficou fechada desde então.
Olhei para frente, pensativa.
— Então quem eu vi ontem?
Lucas deu de ombros.
— Boa pergunta.
O professor entrou na sala naquele momento, interrompendo nossa conversa.
Mas minha mente já estava longe.
Durante o resto da aula, não consegui prestar atenção em quase nada.
As palavras do Lucas ecoavam na minha cabeça.
"O dono da casa era um escritor."
"Desapareceu da vida pública."
"A casa ficou fechada."
Mas eu tinha visto alguém.
Eu tinha certeza disso.
Quando a aula terminou, Lucas me acompanhou até o portão da universidade.
— Então — ele disse — você realmente viu alguém?
— Sim.
— E ele te viu?
Hesitei.
— Acho que sim.
— Isso fica ainda melhor.
Ri.
— Para você é uma boa história.
— Para nós.
— Nós?
Ele sorriu.
— Investigar mistérios é mais divertido em dupla.
Balancei a cabeça, rindo.
— Você é impossível.
— Talvez.
Paramos na calçada.
— Então — ele continuou — qual é o plano?
— Plano?
— Descobrir quem mora na casa.
Olhei na direção da rua.
Minha curiosidade voltou com força.
— Primeiro vou perguntar aos vizinhos.
— Boa ideia.
Lucas cruzou os braços.
— Mas eu apostaria que ninguém vai querer falar muito sobre isso.
— Por quê?
— Porque lugares com fama estranha sempre têm histórias que as pessoas preferem esquecer.
Senti um pequeno arrepio.
— Você está tentando me assustar?
— Só estou sendo honesto.
Suspirei.
— Mesmo assim, vou descobrir.
Lucas sorriu.
— Eu acredito em você.
Comecei a caminhar de volta para casa.
Quando virei na minha rua, o sol já começava a descer no céu.
A luz dourada iluminava as casas e as árvores.
Tudo parecia tranquilo novamente.
Mas quando cheguei diante da minha casa…
Parei.
Porque alguém estava parado no jardim da casa ao lado.
Um homem.
Alto.
De costas.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Mesmo sem ver o rosto dele…
Eu sabia exatamente quem era.
O homem da janela.
Fiquei parada na calçada, tentando decidir se devia entrar em casa ou continuar olhando.
Nesse momento, ele se moveu.
Virou-se lentamente.
E nossos olhos se encontraram pela primeira vez.
Meu coração disparou.
Porque, de perto…
Ele parecia ainda mais misterioso do que eu tinha imaginado.
E naquele instante eu percebi uma coisa.
Aquele homem não parecia nada feliz por ter sido descoberto.
E eu tinha a sensação de que ele estava prestes a me dizer algo.